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Europa: preços do gás duplicam e pior ainda pode estar para vir

Trabalhador num posto de combustível ucraniano em Volovets, no oeste da Ucrânia, a 7 de outubro de 2015, quarta-feira.
Funcionário num posto de combustível ucraniano em Volovets, oeste da Ucrânia, na quarta-feira, 7 de outubro de 2015 Direitos de autor  Copyright 2015 The Associated Press. All rights reserved
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De Piero Cingari
Publicado a Últimas notícias
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Preços do gás na Europa disparam 120% em 2026; reservas baixas e riscos no abastecimento deixam o continente vulnerável a um inverno caro.

A Europa está no meio de mais uma vaga de calor de verão. Isso ajuda a explicar por que motivo o próximo inverno se adivinha caro.

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Temperaturas recorde estão a aumentar a procura de eletricidade, enquanto a seca e o calor limitam a produção hídrica e nuclear. As centrais elétricas a gás estão a ter de colmatar parte dessa falta precisamente numa altura em que a Europa deveria estar a armazenar mais gás.

Essa pressão já se faz sentir nos preços grossistas do gás.

Os futuros neerlandeses TTF, principal referência do preço do gás na Europa, subiram cerca de 120% desde o início de 2026, atingindo cerca de 63,7 euros por megawatt-hora a 18 de agosto.

Os preços do gás continuam bem abaixo do máximo de 350 euros por MWh atingido durante a crise energética de 2022, desencadeada pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Mas a Europa aproxima-se do inverno com reservas esgotadas e pouca margem para um novo choque de abastecimento.

A maior incógnita é agora o clima, uma variável impossível de controlar.

Europa: porque os preços do gás voltam a subir

A escalada acelerou precisamente na pior altura.

A Europa costuma aproveitar o verão para reconstituir as reservas de gás antes de as famílias começarem a consumi-lo para aquecimento.

Este ano, esse reabastecimento chocou com uma série de perturbações.

O estreito de Ormuz continua praticamente fechado, a Noruega prolongou as paragens em campos de gás e a seca reduziu a produção hidroelétrica e nuclear.

As centrais elétricas a gás têm vindo a preencher parte dessa lacuna, numa altura em que a procura de eletricidade aumenta com a vaga de calor, o que faz subir a procura do mesmo combustível que a Europa precisa de armazenar para o inverno.

O resultado é um mercado com pouca folga.

“Vários riscos adversos do lado da oferta materializaram-se e os níveis de armazenamento de gás estão historicamente baixos antes da época de aquecimento”, escreveu recentemente numa nota o economista da Oxford Economics Daniel Kral.

A consultora prevê rever em alta, em setembro, a sua projeção para o preço do gás na Europa, possivelmente para uma média próxima de 60 euros por MWh no quarto trimestre de 2026 e no primeiro trimestre de 2027, face aos 45 euros por MWh atualmente.

Europa torna-se mais resiliente, mas continua vulnerável ao clima

A Europa reduziu o consumo de gás em cerca de 15%–20% face a 2021. A indústria diminuiu o uso de gás, as renováveis cresceram e as bombas de calor substituíram parte do aquecimento a gás.

A oferta mundial de gás natural liquefeito (GNL) também aumentou. A Europa dispõe de mais terminais de importação e consegue atrair cargueiros quando os preços sobem. Isso torna uma rutura física de abastecimento muito menos provável do que na crise de 2021-2022.

Mas o menor consumo não elimina a principal vulnerabilidade da Europa.

Segundo a Oxford Economics, a relação entre temperatura e procura de gás continua quase perfeita. No último inverno, quando as temperaturas caíram temporariamente abaixo da média de longo prazo, a poupança de gás face aos níveis anteriores a 2021 encolheu para apenas 5%–10%.

A Europa reduziu a necessidade normal de gás, mas não eliminou a dependência desse combustível quando o inverno é excecionalmente frio.

Daí a importância das reservas.

O armazenamento funciona como almofada entre um inverno normal e um choque de abastecimento.

Quando as reservas estão elevadas, os operadores conseguem absorver uma vaga de frio sem licitar de forma agressiva novos carregamentos. Quando as reservas estão baixas, cada semana mais fria do que o previsto transforma-se numa corrida ao abastecimento.

O número que importa

No início de agosto, as reservas europeias de gás estavam apenas cerca de 57% cheias.

Dados da Gas Infrastructure Europe apontavam um nível de 57,1% a 1 de agosto, o valor mais baixo para essa altura do ano em toda a série histórica.

As regras da União Europeia continuam a apontar para um nível de armazenamento de 90%, embora os países tenham agora mais flexibilidade quanto ao momento em que o atingem. A meta pode ser alcançada entre 1 de outubro e 1 de dezembro, e condições difíceis de mercado permitem flexibilidade adicional.

Bruxelas incentivou ainda os países a ponderarem usar essa flexibilidade para reduzir a meta para 80% quando as condições de mercado tornam o enchimento mais difícil.

As reservas funcionam como a despensa energética da Europa.

Gás pode tornar-se um problema para o BCE

É aqui que a escalada do gás deixa de ser apenas um tema energético.

Passa a ser um tema de inflação e, depois, um problema para o Banco Central Europeu (BCE).

Os preços grossistas do gás mexem-se mais depressa do que as faturas das famílias, porque as empresas de energia costumam cobrir compras com vários meses de antecedência. A Oxford Economics estima que a transmissão média dos preços grossistas para os preços ao consumidor atinge o pico cerca de seis meses depois do movimento inicial.

Mas essa proteção enfraquece se os preços se mantiverem elevados. À medida que os contratos expiram e as empresas os renovam, os preços no retalho aproximam-se gradualmente dos níveis grossistas.

O impacto também variará bastante de país para país na Europa.

A Alemanha e a Áustria tendem a ter contratos de preço fixo mais longos, o que abranda a transmissão. França, Itália e Espanha reagem mais depressa. Nos Países Baixos, a repercussão é quase imediata.

A Itália destaca-se por combinar uma transmissão de preços relativamente rápida com forte dependência do gás. A Oxford Economics identifica por isso a Itália como a grande economia europeia mais exposta a um choque nos preços do gás.

Isso faz da escalada do gás mais do que um tema de matérias-primas: é potencialmente também um tema de política monetária.

A Oxford Economics estima que a inflação global na zona euro possa situar-se mais perto de 3,5% na segunda metade de 2026 com os atuais preços grossistas do gás, face a ligeiramente acima de 3% no seu cenário de referência mais recente.

O BCE já aumentou as taxas de juro em resposta a um choque inflacionista provocado pela energia.

Os mercados esperam de forma generalizada mais uma subida de 25 pontos base em setembro.

As próprias projeções de junho do BCE já apontavam para uma inflação global persistentemente elevada devido aos preços da energia, prevendo 3,4% no terceiro e no quarto trimestres de 2026.

Um inverno mais frio poderia, assim, criar uma combinação desconfortável: menor poder de compra das famílias e taxas de juro mais altas.

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