Durante décadas, investidores internacionais privilegiaram América do Norte, Europa, China e África. Com a incerteza global, ganha destaque o investimento no Cáucaso e na Ásia Central.
À medida que as rotas comerciais se alteram, as tensões geopolíticas aumentam e a incerteza económica molda as decisões de investimento, cresce o interesse por uma região durante muito tempo negligenciada pelos mercados internacionais: o Cáucaso e a Ásia Central.
A procura de novas oportunidades de investimento e de corredores comerciais esteve no centro do Investment Outlook Forum, integrado nas Reuniões Anuais do Grupo do Banco Islâmico de Desenvolvimento (IsDB), que juntaram decisores políticos, investidores, instituições de financiamento do desenvolvimento e líderes empresariais para concretizar negócios e participar em mesas‑redondas.
Os 57 países membros reuniram‑se, num sinal de determinação em reforçar a coesão regional. Debateram também de que forma o Azerbaijão e o conjunto da região podem atrair investimento de longo prazo e desbloquear novas fontes de crescimento.
A pressão para desviar as rotas comerciais da Rússia e a necessidade de enfrentar a incerteza económica estão a redefinir decisões de investimento em todo o mundo.
Para muitos investidores, os mercados tradicionais continuam a ser importantes.
Mas cresce o interesse por regiões emergentes que oferecem posições geográficas estratégicas, mercados consumidores em expansão e um potencial significativo em matéria de infraestruturas.
Cooperação regional ganha destaque
Khalid Khalafalla, diretor executivo da Islamic Corporation for the Insurance of Investment and Export Credit (ICIEC), afirmou que a “troca de ideias” deverá traduzir‑se em “soluções práticas” e explicou porque considera que os países islâmicos precisam de trabalhar em conjunto.
“Agora, face à incerteza global, é sem dúvida o momento certo para os nossos países membros se juntarem”, sublinhou.
Acrescentou: “Em termos de integração financeira entre os nossos países membros, usamos diferentes instrumentos para mobilizar liquidez ao serviço do desenvolvimento.”
Ismail Ersahin, diretor executivo da World Association of Investment Promotion Agencies (WAIPA), afirmou que a vontade de colaborar demonstra um espírito de solidariedade.
“Nas regiões onde há conflitos em curso não é a melhor altura para os investimentos fluírem de um ponto para outro”, afirmou.
“Mas aqui as pessoas estão juntas, mostram solidariedade e colaboram.”
Apoiar os países em necessidade também faz parte do debate, como explicou Muhammad Humair Karim, secretário no Ministério dos Assuntos Económicos do Paquistão.
_"_A conectividade regional pode contribuir para o desenvolvimento, porque esse desenvolvimento não pode ser assegurado apenas por um interveniente ou por um país”, afirma.
“Creio que tem de ser uma responsabilidade coletiva para garantir um desenvolvimento mais eficaz.”
O fórum centrou‑se na afetação de capital, nas tendências de investimento e nas oportunidades que estão a surgir no Azerbaijão, no sul do Cáucaso, na Ásia Central e no Médio Oriente.
Investimento transfronteiriço, desenvolvimento industrial, infraestruturas, energias renováveis e o papel crescente do financiamento ao desenvolvimento na mobilização de capital privado foram alguns dos temas em agenda, com o Azerbaijão a procurar posicionar‑se no centro destas conversas.
Ulvi Mansurov, presidente do conselho de administração do Azerbaijan Business Development Fund (ABDF), defende que atrair investimento exige mais do que capital, sublinhando a importância de mecanismos de apoio às empresas, do desenvolvimento industrial e da criação de um ambiente em que os negócios possam crescer e ganhar escala.
“Não se trata apenas de discutir integração económica ou crescimento, mas também de partilhar experiências e conhecimentos”, afirmou.
Acrescentou que considera importante reunir tantos países “com tantas práticas, atitudes e abordagens em relação ao negócio e à governação”.
Azerbaijão reforça ambições de investimento
Situado na encruzilhada entre a Europa e a Ásia, o país tem investido fortemente em infraestruturas de transporte, corredores logísticos e projetos de ligação energética.
Os responsáveis políticos defendem que a posição do Azerbaijão no Corredor do Meio, que liga a China e a Ásia Central à Europa através do sul do Cáucaso, lhe confere uma vantagem estratégica numa altura em que as empresas procuram rotas comerciais alternativas e cadeias de abastecimento mais resilientes.
Apesar dos recursos naturais abundantes, de uma população em crescimento e de mercados em expansão, muitos países da região continuam a disputar capital internacional.
As reformas, os enquadramentos regulatórios e os mecanismos de financiamento foram identificados como áreas a melhorar para reduzir as preocupações dos investidores, reforçar a confiança e atrair o tão necessário investimento de longo prazo.
As instituições de financiamento ao desenvolvimento têm desempenhado um papel crucial, com os seus representantes a analisarem de que forma o financiamento misto, as parcerias soberanas e a cooperação público‑privada podem ajudar a desbloquear investimento em setores que vão das infraestruturas e da indústria transformadora à tecnologia e à energia limpa.
A integração regional foi outro tema recorrente, tal como as energias renováveis e a diversificação.
Na sequência da COP29 e das ambições do Azerbaijão de aumentar a produção de energia renovável, os delegados quiseram explorar oportunidades de investimento ligadas à energia solar e eólica, às exportações de energia e a mecanismos de financiamento verde.
Para os críticos, o desafio continua a ser saber se as economias da região conseguem avançar com rapidez suficiente para enfrentar barreiras regulatórias, melhorar o acesso aos mercados e criar as condições necessárias para atrair investimento internacional de grande escala.
A questão não é, portanto, saber se existem oportunidades, mas se o Cáucaso e a Ásia Central conseguirão transformar esse potencial estratégico em crescimento económico sustentável e afirmar‑se como um dos próximos grandes destinos para o investimento global.