'Poder da Linguagem': 5 maneiras diferentes como os cérebros multilingues funcionam

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Sabia que falar mais do que uma língua pode ajudá-lo a envelhecer melhor? Um novo livro lançado esta semana explora a investigação sobre o multilinguismo.

Como é que falar várias línguas afeta a mente?

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Durante décadas, esta questão foi posta de lado, uma vez que os investigadores consideravam o cérebro "padrão" aquele que conhece apenas uma língua. Mas agora, mais do que nunca, esta suposição é extremamente imprecisa.

Atualmente, a maioria da população mundial fala pelo menos duas línguas. Na Europa, dois terços da população é totalmente bilingue ou multilingue.

"Há muitas pessoas que são bilingues e multilingues", diz a psicolinguista moldavo-americana Viorica Marian. "Ajudaria a compreender como funciona essa mente multilingue, porque muito provavelmente é esse o futuro da humanidade, especialmente se considerarmos as línguas artificiais e outros sistemas simbólicos como línguas".

A Professora Marian foi uma das pioneiras no campo da psicolinguística e tem vindo a estudar cérebros multilingues desde os anos 90. No seu novo livro, "The Power of Language: Multilingualism, Self and Society" (em português, "O Poder da Língua: Multilinguismo, Identidade e Sociedade"), Marian explora o corpo de investigação sobre o multilinguismo — incluindo algum do seu próprio — explicando-o em termos simples e compreensíveis.

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De acordo com esta investigação, o cérebro multilingue funciona de forma muito diferente do cérebro "padrão" monolingue quando se trata de memória, tomada de decisões, criatividade, envelhecimento, etc.

"As pessoas que falam mais do que uma língua ou dialeto têm arquiteturas linguísticas, cognitivas e neurais diferentes das pessoas que falam apenas uma língua", escreve Marian no livro.

"Para nós, estudar a mente desta forma abstrata como se esta fosse monolingue — apenas uma língua e uma mente — é na prática uma oportunidade perdida e dá-nos uma compreensão imprecisa de como a mente funciona", afirmou à Euronews Culture.

Aqui estão cinco maneiras como os cérebros bilingues e multilingues funcionam de forma diferente, descritas por Marian no seu livro.

1. Os multilingues podem ter personalidades diferentes em línguas diferentes

As pessoas fluentes em mais do que uma língua descrevem frequentemente a sensação de serem pessoas diferentes em cada uma delas, uma vez que aspetos distintos da sua personalidade se tornam mais fortes dependendo da língua que está a ser usada.

Em testes que avaliam aquilo a que os psicólogos chamam os "Cinco Grandes" traços de personalidade — abertura, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo — as pessoas multilingues pontuam frequentemente de forma diferente nas línguas nativas em relação às segundas línguas.

Para Marian, este fenómeno traduziu-se diretamente na capacidade de escrever o seu livro. A autora, que cresceu na Moldávia a falar romeno e russo, diz que não conseguia imaginar escrever "The Power of Language" em nenhuma outra língua além do inglês, que aprendeu na escola.

Marian escreve: "Escrever em inglês liberta-me das restrições impostas pelos papéis de género associados à minha língua materna, permitindo-me ser a pensadora, escritora e cientista que as mulheres em muitas línguas não têm a oportunidade de ser".

"Há um aspeto profissional, claro: é que não tenho vocabulário para falar sobre neurociência e ciência cognitiva em romeno e russo", disse à Euronews Culture. "Mas há também esta ligação pessoal, em que a língua funciona como um veículo de cultura. E a cultura romena — assim como a cultura do sudeste europeu em geral — ainda tem um caminho a percorrer quando se trata da representação das mulheres na ciência".

2. Um cérebro multilingue processa todas as línguas constantemente em todo o lado

Era comum a crença de que diferentes línguas eram armazenadas em diferentes partes do cérebro e cada uma delas ficava "ligada" quando estava a ser ativamente utilizada. Mas a investigação tem mostrado que esta teoria está absolutamente errada. Na verdade, um cérebro multilingue processa todas as línguas em paralelo, mantendo-as sempre coativadas.

"Quando o cérebro processa a linguagem, não é um lugar no cérebro que processa a linguagem", diz Marian. "É uma rede que está espalhada por todas as áreas do cérebro".

É por este motivo que os cérebros bilingues têm mais caminhos que ligam diferentes palavras, conceitos e memórias em diferentes línguas. Na prática, isto significa que um bilingue franco-inglês verá mais semelhanças entre palavras não relacionadas como prego e nuvem, por exemplo, do que alguém que apenas fala inglês, uma vez que a palavra para prego em francês é clou.

Significa também que, se parte do cérebro for danificada, uma língua pode ser mais afetada do que outra. Marian faz a comparação com uma orquestra que perdeu um instrumento.

"Se danificar uma parte do cérebro, por exemplo se tirar um músico da orquestra, algumas peças musicais serão mais afetadas do que outras", observa Marian. "Uma peça que depende mais do violino será mais afetada por o violinista não estar presente do que a peça que depende menos".

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3. Os multilingues são mais criativos e divergentes do que os monolingues

A criatividade resume-se essencialmente às ligações que o cérebro faz entre coisas que aparentemente não estão relacionadas. É assim que surge a inspiração para a arte, música, escrita e até mesmo para a resolução criativa de problemas.

Como uma pessoa multilingue tem mais destas ligações fortemente ligadas ao cérebro através de diferentes línguas e culturas, tende a desempenhar melhor muitas das suas tarefas criativas e de pensamento divergente.

"A constante coativação de muitas línguas fortalece as ligações entre os sons, letras e palavras na mente de um bilingue, o que resulta em redes mais densas e ligações mais fortes no nível dos conceitos e significados", escreve Marian.

Aprender outra língua pode até tornar uma pessoa mais criativa, segundo Marian. Mas não esperemos milagres.

Marian escreve que "ainda que aprender outra língua não aumentará a criatividade de zero a cem, pode ainda assim ajudar a aumentá-la de zero para alguma, de alguma para mais, e pode finalmente dar a vantagem extra necessária se tivermos uma profissão criativa".

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4. As memórias são armazenadas e recordadas de forma diferente numa mente bilingue ou multilingue

A teoria da Memória Dependente da Língua sugere que as memórias são mais facilmente acessíveis se forem lembradas na mesma língua em que o evento original teve lugar.

Por exemplo, se um bilingue mandarim-inglês estiver a contar a história da sua vida em inglês, é mais provável que se concentre nas coisas que lhes aconteceram em inglês. Mas, se estiver a falar mandarim, acontece o oposto.

"Diferentes redes neurais são ativadas consoante as línguas e, com esta ativação, vêm à memória lembranças diferentes", diz Marian. "Por isso, a língua muda, de certa forma, por estar tão ligada à cultura, à memória e às experiências pessoais".

Isto também se manifesta academicamente. Por exemplo, se um bilingue espanhol-inglês for testado em inglês sobre algo que aprendeu em espanhol, o seu desempenho será pior do que se a língua de aprendizagem corresponder à língua do teste.

Usar uma língua que não se usa há algum tempo pode até desencadear uma torrente de memórias que se pensava ter esquecido.

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5. A aprendizagem de uma língua diferente pode ajudar o cérebro a envelhecer melhor

Falar línguas diferentes requer que o cérebro utilize muita energia, o que a longo prazo pode proteger contra algumas formas de declínio cognitivo.

A investigação demonstrou que os adultos mais velhos que sabem mais do que uma língua têm melhores memórias, e os estudos populacionais descobriram que os países multilingues têm menos casos de Alzheimer.

Outro estudo descobriu que o conhecimento de mais do que uma língua pode realmente atrasar a doença de Alzheimer e outros tipos de demência em quatro a seis anos, em média. E a boa notícia é que, assim que sabemos uma língua, nem sequer precisamos de a utilizar regularmente para colhermos os benefícios cognitivos.

"É uma boa maneira se estiver a pensar em competências ou maneiras de investir o seu tempo, aprender outra língua pode ser realmente útil e pode pagar dividendos a longo prazo à medida que envelhecemos", diz Marian.

Se quiser ler mais sobre o multilinguismo e os efeitos no cérebro e na sociedade, adquira o livro de Viorica Marian "The Power of Language," que foi lançado (em inglês) a 4 de Abril pela Penguin Random House.

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