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Relógio do Apocalipse: fim da guerra de Trump às renováveis pode afastar a humanidade do abismo

Da esquerda, Jon B. Wolfsthal, Asha M. George e Steve Fetter, do Boletim dos Cientistas Atómicos, revelam o Relógio do Juízo Final, ajustado a 85 segundos da meia-noite
Da esquerda: Jon B. Wolfsthal, Asha M. George e Steve Fetter, membros do Bulletin of the Atomic Scientists, revelam o Relógio do Apocalipse a 85 segundos da meia-noite Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved.
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De Liam Gilliver
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Transição rápida das energias fósseis para energias limpas poderia ajudar a abrandar o Relógio do Apocalipse, à medida que se aproxima da meia-noite

Voltou a avançar o Relógio do Juízo Final, numa altura em que o mundo se aproxima de uma catástrofe global alimentada por armas nucleares, desinformação e alterações climáticas.

Criado pela organização sem fins lucrativos The Bulletin of the Atomic Scientists, o Relógio do Juízo Final nasceu em 1945, obra de Albert Einstein e J. Robert Oppenheimer, após a criação da bomba atómica.

Funciona como uma metáfora da ameaça das tecnologias criadas pelo ser humano, sendo a aproximação à meia-noite sinónimo de apocalipse.

No ano passado, o Bulletin alertou que o planeta estava “perigosamente perto” de uma catástrofe generalizada. Em vez de ouvir o aviso, potências como a Rússia, a China e os Estados Unidos tornaram-se mais agressivas e nacionalistas.

Atualizado todos os anos, o Relógio foi inicialmente fixado em sete minutos para a meia-noite e recuou oito vezes. Agora, está a apenas 85 segundos da meia-noite.

Como as alterações climáticas nos aproximam do Juízo Final

No ano passado, as concentrações globais de dióxido de carbono atmosférico atingiram um máximo histórico, subindo para 150% acima dos níveis pré-industriais. Estes gases que retêm calor fizeram subir as temperaturas globais, pondo à prova pontos de rutura críticos do planeta.

2025 foi o terceiro ano mais quente à escala global e assinalou o primeiro período de três anos com temperaturas acima do limiar de 1,5 °C previsto no Acordo de Paris. Na Europa, vagas de calor abrasaram o continente, alimentaram incêndios mortais e sujeitaram os cidadãos a sucessivas vagas de calor.

Uma análise do Imperial College London e da London School of Hygiene & Tropical Medicine concluiu que 68% das 24 400 estimadas mortes por calor no verão passado se devem às alterações climáticas, que elevaram as temperaturas em até 3,6 °C.

Por cada aumento de 1 °C na temperatura do ar, a atmosfera consegue reter cerca de mais 7% de humidade, o que pode levar a chuva mais intensa e abundante. Foi em parte por isso que milhares morreram em toda a Ásia após monções sobrepostas no outono passado.

As cheias repentinas, que destruíram centenas de casas e transformaram estradas em rios de lama, também evidenciaram os efeitos de desflorestação.

Na Indonésia, 1,4 milhões de hectares em Aceh, Sumatra do Norte e Sumatra Ocidental foram desflorestados entre 2016 e 2025. Estas florestas atuavam como travão natural às cheias, absorvendo o excesso de água e reduzindo o volume de escoamento. Sem elas, o país não consegue lidar com chuva extrema.

Apesar de 2025 ter sido marcado por fenómenos meteorológicos extremos, o progresso na saída dos combustíveis fósseis foi travado na cimeira COP30, em Belém. Embora fora da agenda oficial, o apoio a um roteiro para a transição para energia limpa ganhou rapidamente força durante as negociações.

Mais de 90 países, incluindo o Reino Unido, a Alemanha e os Países Baixos, apoiaram a ideia de um roteiro que permitiria a cada nação definir as suas próprias metas para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis. Lula da Silva, do Brasil, também foi voz ativa, apelando ao mundo para “começar a pensar em como viver sem combustíveis fósseis”.

Ainda assim, todas as referências a combustíveis fósseis foram retiradas do acordo final nas últimas horas da cimeira. A Carbon Majors apurou que 17 dos 20 maiores emissores em 2024 eram empresas controladas por países que acabariam por bloquear esse roteiro. Incluem-se a Arábia Saudita, a Rússia, a China, a Índia, o Iraque, o Irão e o Catar.

“As respostas nacionais e internacionais à emergência climática passaram de totalmente insuficientes a profundamente destrutivas”, afirma o Bulletin.

“Nenhuma das três cimeiras do clima mais recentes das Nações Unidas deu ênfase à eliminação progressiva dos combustíveis fósseis ou ao controlo das emissões de dióxido de carbono. Nos Estados Unidos, a administração Trump declarou, na prática, guerra às energias renováveis e a políticas climáticas sensatas, desmantelando sem tréguas os esforços nacionais para combater as alterações climáticas.”

Pode a energia renovável travar o Relógio do Juízo Final

Mesmo com os ponteiros do Relógio do Juízo Final a aproximarem-se da meia-noite, há ainda uma réstia de esperança. Segundo o Bulletin, a humanidade pode recuar da beira do abismo se o Congresso dos EUA rejeitar a guerra de Trump às energias renováveis.

Defende que fornecer “incentivos e investimentos” permitirá reduzir rapidamente o uso de combustíveis fósseis.

Avançar para energia limpa e reduzir a dependência de combustíveis fósseis é a única forma de cumprir as metas climáticas. Segundo a ONU, os combustíveis fósseis são, de longe, o maior contributo para as alterações climáticas globais.

Representam cerca de 68% das emissões globais de gases com efeito de estufa e quase 90% de todas as emissões de dióxido de carbono.

Num sinal mais positivo, 2025 assinalou um marco importante para as energias renováveis em toda a Europa. No ano passado, eólica e solar geraram, pela primeira vez, mais eletricidade na UE do que os combustíveis fósseis.

Um relatório do think tank de energia Ember concluiu que, nos últimos cinco anos, a energia fóssil desceu de 36,7% da eletricidade da UE para 29%, enquanto eólica e solar combinadas subiram para 30%, apesar de uma queda da eólica no ano passado face a 2024.

Dez países europeus, incluindo a Bélgica, a Noruega e o Reino Unido, prometeram ainda 9,5 mil milhões de euros para transformar o Mar do Norte no “maior reservatório de energia limpa” do mundo. A iniciativa visa abastecer cerca de 143 milhões de lares até 2050 e recorre a parques eólicos no mar ligados diretamente a mais do que um país através de interconectores multiusos (MPIs).

Ainda assim, Trump mostra-se determinado em reforçar os combustíveis fósseis e prosseguir os ataques às energias renováveis. Depois de prometer levar a sua mentalidade de “drill, baby, drill” às vastas reservas de petróleo da Venezuela, o Presidente dos EUA já suspendeu as concessões de todos os projetos eólicos offshore no país. A decisão já está a ser revertida, depois de um juiz federal ter dito, na terça-feira, que um projeto eólico offshore quase concluído em Massachusetts pode continuar.

Em Davos, na semana passada, Trump chamou “perdedores” aos países que usam turbinas eólicas, afirmando que a China não investe no setor das renováveis, apesar de o país ter construído o maior parque eólico do mundo.

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