Ainda não é esta semana que Portugal vai poder respirar de alívio, a chuva vai continuar e com a saturação dos solos num nível preocupante, os riscos continuam elevados, principalmente para as zonas já afetadas pelas últimas tempestades.
Na terça e na quarta-feira são esperadas chuvas intensas no centro e no norte do país, devido à passagem de várias ondulações frontais associadas a depressões localizadas no Atlântico Norte.
Em Portugal continental, há nove distritos sob aviso amarelo e sete distritos sob aviso laranja.
"Na terça-feira, temos um período em que a precipitação será mais intensa e para além do aviso amarelo que iniciará às zero horas do dia de amanhã, a partir das seis da manhã temos um agravamento do aviso nos distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Vila Real, Aveiro e Viseu, que passam a aviso laranja, pela persistência da precipitação", explica Alexandra Fonseca, meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Estes períodos de precipitação contínua serão intercalados com alguns momentos de acalmia, sobretudo ao final do dia.
Na quarta-feira, a situação voltará a agravar-se devido às superfícies frontais, o que fará com que existam “períodos com picos de precipitação."
“A diferença [em relação a terça-feira] é que, na quarta-feira, haverá também uma intensificação do vento, com rajadas nas terras altas e também no litoral a norte”, acrescenta a metereologista, sendo por isso expectável a emissão de avisos amarelos em alguns distritos.
Estes avisos levam a Proteção Civil a manter todos os “riscos e preocupações” em vigilância.
“É um risco porque não para de chover. Os solos não têm tempo de escoar toda a água que vão recebendo e há sempre um acréscimo de cada vez mais água”, explica a meteorologista do IPMA.
Mário Silvestre, comandante nacional da Proteção Civil, em conferência de imprensa, reforçou também os conselhos e recomendações que têm estado vigentes nestas últimas semanas.
Na quinta-feira, a chuva dará algumas tréguas, com uma “situação de aguaceiros”, e “entra já um ar um pouco mais frio”, esclarece Alexandra Fonseca.
O fenómeno que faz chover dias a fio
Desde segunda-feira passada, com a chegada da depressão Leonardo, ocorre em Portugal um fenómeno designado por “rio atmosférico”, caracterizado pela “passagem contínua, sobre o mesmo local geográfico, de depressões alimentadas por humidade, ou vapor de água, provenientes de latitudes subtropicais ou tropicais”, como explica o climatologista Mário Marques.
Muito frequente na costa do Pacífico, como na Califórnia do Norte, o “rio atmosférico” acontece quando chove de forma contínua durante vários dias seguidos, “no mínimo uma semana”.
Mário Marques explica que se trata de um fenómeno normal quando ocorre uma vez, não sendo raro que aconteça duas vezes durante o inverno; no entanto, relembra que a “saturação dos solos” e a “debilitação das estruturas” fazem aumentar o risco com nova precipitação, sobretudo nas zonas já mais afetadas.
“Os solos saturados pesam muito. A terra pesa quatro ou cinco vezes mais quando está molhada do que quando está seca, exercendo uma grande pressão. O tipo de solo é muito importante para determinar a força que consegue suportar e entram aqui questões como deslizamentos, abatimentos e queda de blocos, uma vez que a sustentação das encostas é muito menor”, esclarece. “É um processo natural, resultante da gravidade face ao peso e à pressão exercidos pelo solo numa determinada inclinação”, acrescenta.
O climatologista não atribui responsabilidades apenas às alterações climáticas e relembra a situação de ocupação de território e ordenamento que não tem sido respeitada em muitos países e que, por isso, nos deixa "mais expostos.”
Mário Marques acredita que estes fenómenos serão mais intensos quando ocorrem devido a dois fatores principais. “Há mais energia na atmosfera: estamos mais quentes e existe mais vapor de água; e estamos também mais expostos, porque temos mais infraestruturas, mais estruturas e mais mobiliário urbano, como, por exemplo, os outdoors”.
Homem morre em acidente durante trabalhos na reposição da rede elétrica em Leiria
Um homem morreu e outro ficou ferido durante os trabalhos na rede elétrica em Leiria na manhã desta segunda-feira.
Fonte do Comando Distrital da Polícia de Segurança Pública adiantou à rádio Renascença que “tudo indica” que o trabalhador terá sofrido uma descarga elétrica, tendo o óbito sido declarado logo no local. O outro trabalhador foi encaminhado para o hospital. São mais duas vítimas na sequência do mau tempo, que deixou em Portugal um balanço já superior a uma dezena de fatalidades, seja por consequência direta ou indireta das depressões consecutivas que têm atingido o país.
O concelho de Leiria foi uma dos mais afetados pela passagem da depressão Kristin por Portugal continental, com grande parte da população a ficar sem eletricidade, água e comunicações.
Desde o início do ano de 2026, Portugal tem sido atingido por um verdadeiro “comboio” de tempestades. A primeira foi a Harry, em meados de janeiro, seguida da Kristin, no final do mês, que deixou um rasto de grande destruição. Já no início de fevereiro, passaram as depressões Leonardo e, mais recentemente, a Marta.