Quem é Eva Kaili, eurodeputada no centro do escândalo da corrupção?

Licenciada em arquitetura, com estudos em engenharia civil e assuntos europeus, Eva Kaili começou a sua carreira como jornalista
Licenciada em arquitetura, com estudos em engenharia civil e assuntos europeus, Eva Kaili começou a sua carreira como jornalista Direitos de autor European Union 2022.
De  Jorge LiboreiroIsabel Marques da Silva
Partilhe esta notíciaComentários
Partilhe esta notíciaClose Button
Copiar/colar o link embed do vídeo:Copy to clipboardCopied

Após a detenção na sexta-feira, a eurodeputada foi expulsa do PASOK e suspensa do grupo S&D, e os seus bens pessoais foram congelados pelas autoridades gregas.

PUBLICIDADE

A deputada socialista grega no Parlamento Europeu, Eva Kaili, de 44 anos, foi detida, na sexta-feira, em Bruxelas, pela polícia belga como parte de uma "investigação importante" e foi acusada de "participação numa organização criminosa, branqueamento de capitais e corrupção".

Kaili é suspeita de lóbi (pressão por agentes externos) ilícito a favor de um Estado do Golfo Pérsico, que os meios de comunicação social belgas identificaram como sendo o Qatar, o controverso anfitrião do Campeonato Mundial de Futebol de 2022.

A parlamentar foi, alegadamente, "apanhada em flagrante", a única circunstância que desencadeia uma revogação imediata da imunidade parlamentar. O seu pai, Alexandros, e o seu companheiro, Francesco Giorgi, foram também interrogados pelo alegado papel no esquema, e estão detidos.

O escândalo desencadeou uma tempestade em Bruxelas, mas quem é Eva Kaili?

Licenciada em arquitetura, com estudos em engenharia civil e assuntos europeus, Eva Kaili começou a sua carreira como jornalista no Canal MEGA, na Grécia.

Em 2007, foi eleita para o Parlamento grego, como membro do PASOK, o partido socialista, que era então uma das principais forças políticas do país mediterrânico.

Dois anos mais tarde, o PASOK entrou no governo sob a liderança do primeiro-ministro George Papandreou, que enfrentou enormes críticas sobre a sua gestão da crise da dívida soberana.

Quando Papandreou enfrentou um voto de confiança em 2011, Kaili recusou-se inicialmente a apoiá-lo, mas mais mudou de ideias e todos os legisladores do PASOK apoiaram o primeiro-ministro.

Ida para Bruxelas

Com o agravamento da crise grega, Kaili candidatou-se ao Parlamento Europeu e foi eleita em 2014, juntando-se ao poderoso grupo Socialista & Democratas (S&D), a segunda maior formação do hemiciclo, e rapidamente adquiriua reputação de amiga dos media e acessível.

Kaili elevou o seu perfil como legisladora ao envolver-se na agenda digital, cada vez mais proeminente da UE, a nível de temas complexos como inteligência artificial, cibersegurança e cibermoeda.

Ao longo dos anos, fez parte de várias comissões parlamentares, inclusive como membro substituto na Delegação para as relações com a Península Árabe (DARP).

A partir de 2021, o seu salário líquido passou a ser 7.146 euros por mês, a que acresce um subsídio geral mensal de 4.778 euros e despesas de viagem reembolsadas.

A carreira de Kaili atingiu o auge em janeiro deste ano, quando foi nomeada uma das 14 vice-presidentes do Parlamento Europeu, posição que reflete o apreço entre os seus colegas socialistas.

Após a detenção na sexta-feira, a eurodeputada foi expulsa do PASOK e suspensa do grupo S&D, e os seus bens pessoais foram congelados pelas autoridades gregas.

A ligação ao Qatar

Os discursos e intervenções de Kaili foram objeto de escrutínio pela a imprensa, à procura de pistas que pudessem sugerir uma relação indevida com o Qatar.

Kaili viajou para esse país do Golfo, no início de novembro, e realizou reuniões de alto nível com o primeiro-ministro, ministro do Trabalho e ministro da Energia, entre outros.

PUBLICIDADE

Semanas depois, Kaili proferiu um discurso, no Parlamento Europeu, no qual elogiou as reformas laborais do Qatar e descreveu o país como "bom vizinho e parceiro".

"Hoje, o Campeonato do Mundo no Qatar é, na verdade, a prova de como a diplomacia desportiva pode alcançar uma transformação histórica de um país, com reformas que inspiraram o mundo árabe", disse.

Kaili acusou os europeus de terem dois pesos e duas medidas para o Qatar porque, na sua opinião, estão interessados em comprar o gás natural liquefeito (GNL) para mitigar a crise energética, mas apelaram a um boicote internacional ao Campeonato do Mundo por causa da situação dos imigrantes e a violação dos direitos LGBTQ+.

"Os qataris comprometeram-se com uma visão e abriam-se ao mundo. Ainda assim, alguns aqui apelam à sua discriminação. Essas pessoas intimidam-nos e acusam de corrupção a todos os que falam com eles. Mas mesmo assim, usam o seu gás e as suas empresas  lucram milhares de milhões de euros", disse a eurodeputada.

Em dezembro, Kaili participou numa votação da comissão das liberdades civis do Parlamento que se centrou na liberalização dos vistos para o Kuwait e o Qatar, que foi aprovada com 42 votos a favor e 16 contra. Kaili, no entanto, não era membro dessa comissão e não é claro porque é que lá esteve.

PUBLICIDADE

À medida que o escândalo se desenrola em Bruxelas e reverbera pelo continente, o governo do Qatar distanciou-se de Kaili. "Qualquer associação do governo do Qatar com as alegações relatadas é infundada e gravemente desinformada", disse a Missão do Qatar junto da União Europeia, numa declaração.

A equipa do Kaili não respondeu a vários pedidos de entrevista enviados pela euronews. O seu escritório em Bruxelas continua selado, com um papel afixado na porta declarando "acesso proibido".

Partilhe esta notíciaComentários

Notícias relacionadas

Vice-presidente do Parlamento Europeu detida por corrupção com o Qatar

UE e Reino Unido chegam a acordo sobre "grandes linhas políticas" relativamente a Gibraltar

"Estado da União": Acórdão sobre clima e acordo sobre migração