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Porque é que tantos países do hemisfério sul apoiam a Rússia e não a Ucrânia?

Sírios exibem fotografias de Bashar al Assad e bandeiras russas, durante uma marcha de agradecimento à Rússia pelasua intervenção na Síria, em 2015.
Sírios exibem fotografias de Bashar al Assad e bandeiras russas, durante uma marcha de agradecimento à Rússia pelasua intervenção na Síria, em 2015. Direitos de autor Uncredited/AP
Direitos de autor Uncredited/AP
De  Joshua Askew com Maria Barradas
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Porque é que o sul apoia a Rússia? As diversas visões do conflito Rússia-Ucrânia e as diferenças de perceção entre o norte Global e o sul Global.

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Nem todos são contra Putin.

Embora o ocidente se tenha mobilizado em grande parte no apoio à Ucrânia, comprometendo-se a fazer o que for preciso para ajudar a afastar as tropas russas, muitos no sul Global têm uma visão bastante diferente.

É claro que o sul Global é muito vasto. As atitudes face à guerra devastadora - agora no seu 14º mês - variam consideravelmente na América Latina, África, Ásia e Oceânia.

Contudo, sondagens de opinião em lugares como a China, Índia e Turquia mostram uma clara preferência pelo fim da guerra agora - mesmo que isso signifique que a Ucrânia tenha de desistir de parte do seu território.

"Se se tirar a fotografia global, o apoio à luta da Ucrânia e do Ocidente contra a Rússia não é completamente sólido - muito longe disso", disse Paul Rogers, Professor de Segurança Internacional na Universidade de Bradford.

"Antiamericanismo''

Paul Rogers diz que, no Médio Oriente, as intervenções militares passadas dos EUA e dos seus aliados criaram um clima de cinismo em relação às ações do ocidente na Ucrânia. 

Contudo, em vez de se traduzir num apoio à Rússia, que "poucos países têm a nível de liderança ou público", Rogers diz que os combates são vistos mais como uma "duas pragas".

"Não é simplesmente visto como  os bons do ocidente contra os maus da Rússia", disse ele à Euronews. "Há questões em que [a invasão de Moscovo] não é diferente do que os países ocidentais têm feito".

Ebrahim Noroozi/Copyright 2018 The AP. All rights reserved.
Manifestantes iranianos queimam bandeiras americanas e israelitas, em Teerão, no dia do Al-QudsEbrahim Noroozi/Copyright 2018 The AP. All rights reserved.

Mais de 929.000 pessoas foram mortas em zonas de guerra após o 11 de setembro em todo o Afeganistão, Iraque, Síria e outros lugares onde as forças armadas ocidentais desempenharam um papel significativo na violência catastrófica.

Especialistas estimam que o número de mortes provavelmente se multiplica várias vezes devido aos efeitos reverberantes da guerra.

"Memórias do colonialismo"

Questões mais profundas e históricas também têm impacto na forma como a guerra da Ucrânia é vista noutros lugares.

"Em grande parte do sul Global, particularmente na África Subsaariana, a Rússia não é vista como uma das grandes potências coloniais que as controlou durante séculos", ao contrário de outras potências europeias, explicou Rogers.

Ainda assim, diz: "Grande parte do mundo simplesmente não está consciente da extensão do comércio de armas, do poder e, francamente, da corrupção que há na Rússia".

Embora o legado colonial não crie um sentimento pró-russo - com a maioria das pessoas perfeitamente conscientes de como a guerra tem sido "dolorosa" para os ucranianos - Rogers sugeriu que isso significava que havia "menos simpatia pela posição ocidental".

O legado do colonialismo é altamente controverso. Os críticos apontam as atrocidades incalculáveis, racismo e exploração cometidos pelos europeus em todo o mundo, enquanto os defensores afirmam que a presença europeia trouxe desenvolvimento económico e político.

Muitos afirmam que o controlo da Rússia sobre partes da Ásia Central e da Europa de Leste, incluindo a Ucrânia, sob a URSS, equivaleu ao colonialismo.

"A Rússia tem uma boa base geopolítica".

Mas o sul Global não está apenas a pensar com o coração, está também a usar a cabeça.

Embora não tanto como a China, Rússia forjou fortes laços económicos e parcerias estratégicas em grande parte do mundo nas últimas décadas.

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Países como o Brasil e a Índia estão a investir em boas relações com a Rússia porque acreditam que isso irá ajudar as suas próprias agendas internacionais.
Ivan Kłyszcz
Analista da Política Externa russa

"Os laços comerciais são importantes", disse Ivan Kłyszcz, um analista da política externoa russa. "Países como o Brasil e a Índia estão a investir em boas relações com a Rússia porque acreditam que isso irá ajudar as suas próprias agendas internacionais".

A opinião global está muito dividida quando se trata de aplicar sanções à Rússia. Em média, 45% apoiam a ideia de que o seu país deveria aplicar as sanções económicas mais rigorosas contra a Rússia, enquanto 25% se opõem a isso, de acordo com uma sondagem da IPSOS.

Muitos Estados têm-se abstido de votar resoluções da ONU que condenam Moscovo, apelando, em vez disso, a negociações.

Em outubro, a Coreia do Norte, Bielorrússia, Síria e Nicarágua votaram contra uma moção instando a Rússia a reverter imediatamente a sua anexação ilegal de quatro regiões ucranianas, enquanto 19 países africanos se abstiveram - incluindo a África do Sul - juntamente com a China, Índia, Paquistão e Cuba.

"O sul Global é impulsionado por um sentimento de urgência para que as hostilidades terminem... pelo menos não há combates e o comércio pode retomar como há um ano atrás", disse Kłyszcz à Euronews. "É uma realidade infeliz, e a guerra é contra os interesses destes países".

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"O sul Global é impulsionado por um sentimento de urgência para que as hostilidades terminem... Pelo menos não há combates e o comércio pode retomar como há um ano atrás. É uma realidade infeliz; a guerra é contra os interesses destes países".
Ivan Kłyszcz
Anaista da Política Externa Russa

"Eles estão a cuidar da sua própria segurança".

As pessoas comuns em África e no Médio Oriente têm sido fortemente afetadas pelo aumento dos preços dos alimentos, que atingiram níveis recorde em 2022 devido à guerra na Ucrânia e às alterações climáticas induzidas pela seca.

Embora sentido em todo o mundo, isto desencadeou uma crise global de segurança alimentar, empurrando milhões para a beira da fome.

Segundo Kłyszcz, a influência da Rússia é auxiliada por um "aparelho de comunicação muito sofisticado que ajuda a transmitir propaganda de guerra", enquanto "muitos países simplesmente não conhecem muito bem a Ucrânia".

Ao mesmo tempo, narrativas que apoiam a luta da Ucrânia contra a Rússia - sejam elas "democracia versus autocracia", "direitos humanos" ou "anti-imperialismo" - não têm sido "capazes de mover a  opinião pública assim tanto, fora do ocidente", acrescentou.

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"Coisas como segurança alimentar ou energética torna muito difícil  fazer as pessoas mudarem de opinião, porque a segurança da sua sociedade depende delas".

Apesar de representar a maior parte da humanidade, Rogers sugere que as opiniões do sul Global em relação à Ucrânia foram largamente marginalizadas nos "principais meios de comunicação social".

"Os ocidentais estão muito concentrados no mundo ocidental. Não têem uma grande preocupação com opiniões diferentes", continuou, concluindo: "Estas são as grandes questões".

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