Soluções para a crise deverão dominar campanha para eleições europeias

As campanhas para as eleições europeias são muitas vezes "contaminadas" por temas da política interna dos Estados-membros
As campanhas para as eleições europeias são muitas vezes "contaminadas" por temas da política interna dos Estados-membros Direitos de autor AP Photo/Bob Edme
De  Lauren ChadwickIsabel Marques da Silva
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A União Europeia (UE) está a enfrentar os impactos de várias crises: pandemia, inflação, gestão da migração. Sendo problemas de amplitude comunitária, será que as campanhas para as eleições europeias, dentro de um ano, não serão tão centradas na política interna como é habitual?

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A um ano das eleições europeias (6-9 de junho de 2024), os partidos políticos já estão a começar a preparar os seus manifestos e a escolha de candidatos, dando início aos preparativos para as eleições.

Mas muito mudou nos quatro anos que decorreram desde as últimas eleições europeias, com as instituições a ocuparem cada vez mais o centro das atenções  dos cidadãos em cada um dos 27 Estados-membros, face aos impactos comunitários da pandemia de Covid-19 e da guerra na Ucrânia.

"As políticas nacionais têm sempre precedência sobre as políticas europeias", disse Camino Mortera-Martinez, diretora do escritório de Bruxelas do Centro para a Reforma Europeia, mas espera que a reação da UE às crises dos últimos anos possa alimentar "mais conversas sobre a Europa" neste ciclo eleitoral.

Os eurodeputados insistiram na adoção de regras eleitorais comuns e de listas transnacionais de candidatos (políticos de várias nacionalidades na lista de um determinado grupo político), numa  votação de medidas de reforma no ano passado. Mas a questão não foi abordada pelo Conselho Europeu e é pouco provável que haja grandes mudanças, antes de 2024, que ajudem a dar uma identidade mais europeia às eleições.

"As campanhas eleitorais vão decorrer, principalmente, no contexto nacional de cada Estado-membro. Mas penso que haverá uma série de questões-chave que serão observáveis em toda a UE.
Johannes Greubel
Analista político, Centro de Política Europeia

Os últimos dados do Eurobarómetro, publicados a 6 de junho, revelam que existe uma maior sensibilização para as eleições europeias e um maior interesse nas mesmas em comparação com 2018, com os números a atingirem agora 45% e 56%, respetivamente.

Em 2019, a afluência às urnas aumentou 8 pontos percentuais, mas ficou em pouco mais de metade do eleitorado.

"As campanhas eleitorais vão decorrer, principalmente, no contexto nacional de cada Estado-membro", disse Johannes Greubel, analista político sénior do Centro de Política Europeia. "Mas penso que haverá uma série de questões-chave que serão observáveis em toda a UE."

Eis um resumo dos temas europeus que poderão ser objeto de debate nas camoanhas.

A influência da guerra da Ucrânia

A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, no ano passado, provocou uma reação rápida da UE, que apoiou financeiramente a Ucrânia e impôs vários pacotes de sanções à Rússia.

A guerra reforçou os impactos da pandemia de Covid-19 e conduziu a uma crise energética no inverno passado, quando a UE deixou de importar gás da Rússia.

A guerra também resultou na aceleração do pedido de adesão da Ucrânia ao bloco, com o país a tornar-se um candidato oficial à adesão à UE.

Olivier Matthys/AP Photo
A guerra na Ucrânia vai dominar o debate sobre necessidades de defesa da UEOlivier Matthys/AP Photo

"O que vai ser interessante é ver como os diferentes líderes políticos vão lidar com as crises do último ano. Por exemplo, se olharmos para os líderes em funções que poderão estar a concorrer às eleições, penso que muitos deles vão fazer uso do papel que desempenharam durante a crise", disse Greubel.

"Por exemplo, se von der Leyen decidir recandidatar-se (a presidente da Comissão Europeia), penso que poderá apresentar-se como uma líder, uma personalidade forte que enfrenta crises, quer tenha sido a Covi-19 ou guerra na Ucrânia", acrescentou.

Mortera-Martinez salienta que muitos partidos políticos europeus não divergem na sua opinião de que o bloco deve apoiar a Ucrânia e que existem outras questões que virão à tona - como a energia, o alargamento da UE, a defesa e a extensão da autonomia da UE.

Temos razões para sermos cautelosamente otimistas em relação à opinião pública da União Europeia, porque a maioria das sondagens indica que existe uma confiança crescente na União Europeia.
Péter Krekó
Ddiretor-executivo, Political Capital

"O meu palpite é que a questão da defesa e de como defender a Europa será uma questão proeminente na campanha", disse.

"Mas não vai necessariamente mudar muito, porque a maioria dos partidos tradicionais tem a mesma opinião de que a Europa deve investir mais na defesa."

Péter Krekó, diretor executivo do grupo de reflexão Political Capital, sediado em Budapeste, afirma que os principais partidos políticos europeus podem beneficiar de uma maior confiança na União Europeia durante a guerra.

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"Temos razões para sermos cautelosamente otimistas em relação à opinião pública da União Europeia, porque a maioria das sondagens indica que existe uma confiança crescente na União Europeia", referiu.

Christian Charisius/Pool via AP
A viragem para as enegrias renováveis é uma das apostas para lidar com a crise climáticaChristian Charisius/Pool via AP

As alterações climáticas sempre presentes

Segundo os analistas, é provável que as alterações climáticas voltem a ser uma parte importante dos debates dos políticos e dos partidos nestas eleições.

A UE chegou, recentemente, a acordo sobre grande parte do seu vasto pacote "Objetivo 55", mas ainda há muito trabalho a fazer para que o bloco esteja em conformidade com os objetivos da legislação: reduzir as emissões da UE em pelo menos 55% até 2030, em comparação com os níveis de 1990.

Ville Niinistö, eurodeputado finlandês do Partido Ecologista "Os Verdes", disse à Euronews que é importante que o seu partido se concentre nas soluções ecológicas para a economia, o emprego e a indústria.

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"O que é interessante é que temos cada vez mais a comunidade empresarial do nosso lado, por isso podemos ter uma discussão com os partidos de direita moderada (Partido Popular Europeu) sobre se estão a perder a vantagem sobre o rumo dos negócios, porque as empresas estão a olhar para as soluções ecológicos", disse Niinistö.

As alterações climáticas foram uma questão proeminente nas eleições de 2019 e também o deverão ser no contexto da recente crise energética da UE, com os líderes europeus a insistirem numa maior autonomia sobre o cabaz energético do bloco.

A quota de energia de fontes renováveis na UE foi de 22,2% em 2021, crescendo apenas modestamente a partir de 2020, de acordo com a Agência Europeia do Ambiente.

"O cumprimento da nova meta de 40%, recentemente proposta, exigiria uma profunda transformação do sistema energético europeu", afirmou a agência, em outubro do ano passado.

A migração será um dos principais temas debatidos?

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A política de migração será um tema importante para os partidos discutirem durante as campanhas eleitorais, disse um responsável do PPE à Euronews.

O partido disse recentemente que a construção de vedações nas fronteiras externas "deve ser elegível para financiamento da UE", se necessário, uma vez que vários Estados-membros da UE pediram financiamento para vedações como parte do controlo das fronteiras.

"Precisamos de um sistema que nos dê os instrumentos necessários para nos opormos ao comportamento desprezível de países como a Turquia e a Bielorrússia, que instrumentalizam a migração e utilizam as pessoas para os seus próprios jogos políticos", afirmou Jeroen Lenaers, eurodeputado neerlandês do PPE, numa declaração em fevereiro.

Até à data, a Comissão Europeia tem afirmado que não vai financiar arame farpado ou muros.

A migração através do mar Mediterrâneo também tem estado no centro das atenções recentemente, com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a adoptar uma linha dura em relação à imigração desde a sua eleição no ano passado.

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Na chamada rota do Mediterrâneo Central, o primeiro trimestre de 2023 foi o mais mortífero para os migrantes que atravessaram o mar, nos últimos seis anos.

No mês passado, o Parlamento Europeu aprovou três propostas sobre migração que podem ajudar a chegar a um acordo sobre a questão.

Mortera-Martinez disse que os governos daUE vão, provavelmente, tentar chegar a um acordo sobre a migração antes das eleições, para que o tema não domine também as campanhas.

Krekó, por seu lado, afirmou que o tema continuará a ser importante nas eleições do próximo ano, com o presidente do Partido Popular Europeu, Manfred Weber, a dar início a "uma política de linha dura do PPE em matéria de migração".

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