Loader
Encontra-nos
Publicidade

Europa: pode a construção modular resolver a falta de habitação?

Edifício modular
Edifício modular Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Evi Kiorri
Publicado a
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google
Partilhar Close Button

A Europa enfrenta uma crise da habitação e um setor da construção que não consegue dar resposta. Será a construção modular, com casas feitas em fábrica e montadas no local, a solução para ambos?

Os governos esgotaram a maioria das soluções rápidas e o setor da construção enfrenta dificuldades em modernizar-se. A construção modular, que privilegia a produção em fábrica, pode ser parte da resposta.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

A UE enfrenta uma falta de até 10 milhões de fogos habitacionais, cerca de 3,5 por cento do parque total. A Alemanha precisa de 400 mil novas casas por ano, mas está longe de cumprir essa meta. Em França, 2,8 milhões de agregados familiares estão inscritos nas listas de espera para habitação social. Nos Países Baixos, é preciso construir cerca de 1 milhão de casas até 2031. E, em toda a União, a construção efetiva cobre apenas cerca de metade do ritmo necessário.

A construção modular, em que as casas são produzidas em fábrica e montadas no local, está a ganhar peso político e industrial.

O que é a construção modular?

A construção modular consiste em pré-fabricar partes do edifício, como quartos, paredes ou módulos de pavimento, num ambiente fabril controlado, que depois são transportadas e montadas em obra. Esta abordagem encara a habitação como um produto fabricado em linha de montagem.

Este tipo de construção oferece vantagens importantes face aos métodos tradicionais. Os projetos podem ser concluídos entre 50 e 90 por cento mais depressa, já que o trabalho em fábrica e a preparação do terreno decorrem em paralelo. Os desperdícios baixam para 10 a 15 quilogramas por metro quadrado, contra 25 a 30 quilogramas nas construções convencionais. O carbono incorporado pode ser reduzido até 45 por cento, o que aproxima a construção modular dos objetivos de sustentabilidade da UE.

Perante a escassez crónica de mão de obra no setor da construção na Europa, a possibilidade de trazer trabalho especializado para dentro de portas e escalar a produção é crucial. O mercado europeu de construção modular está avaliado em cerca de 31 mil milhões de euros em 2025 e deverá ultrapassar os 40 mil milhões em 2030.

Quem lidera na Europa?

A Suécia lidera o setor, com cerca de 45 por cento das novas habitações a recorrerem a métodos de pré-fabricação ou construção modular. Tal reflete anos de apoio político, processos de licenciamento eficientes e uma aceitação cultural da construção industrializada. O projeto Stockholm Wood City, um grande empreendimento em madeira modular, funciona como modelo para outras cidades europeias.

A Alemanha é o segundo maior mercado, com 26 por cento das novas casas unifamiliares e bifamiliares pré-fabricadas em 2024, apoiadas por subsídios federais para habitação eficiente em termos climáticos. A forte tradição de produção de precisão no país favorece a adoção da construção em fábrica.

Os Países Baixos estão a expandir rapidamente a construção modular para cumprir o objetivo de erguer 1 milhão de novas casas até 2031. Os promotores estão a integrar o Building Information Modelling (BIM) com sistemas modulares para acelerar o desenho e a aprovação dos projetos.

Espanha e Portugal surgem como mercados em crescimento, com regras de ordenamento mais simples e incentivos públicos crescentes que atraem empresas de construção modular interessadas em expandir-se no sul da Europa. A Polónia, que enfrenta uma falta de 1,5 milhões de fogos, também está a captar esses promotores, sobretudo para projetos de habitação social.

As casas modulares cumprem as normas da UE?

Em resumo: sim, mas o quadro regulamentar é fragmentado e essa fragmentação é, por si só, um entrave à escala.

Ao nível da UE, o Regulamento dos Produtos de Construção (RPC) exige marcação CE para os componentes de construção, e as normas de edifício com necessidades quase nulas de energia (nZEB), previstas na Diretiva sobre o Desempenho Energético dos Edifícios, aplicam-se tanto à construção modular como à tradicional. As casas modulares cumprem geralmente com margem esses requisitos nZEB, graças à precisão do isolamento e da estanqueidade da envolvente garantidas em ambiente fabril.

Mas os códigos de construção nacionais variam bastante. A Alemanha aplica exigentes normas estruturais DIN 1055 e desenvolveu orientações específicas para a pré-fabricação. As regras BBR da Suécia incluem disposições para cargas elevadas de neve. O regulamento RE 2020 de França impõe verificações detalhadas de energia e carbono, o que torna o licenciamento mais lento do que no modelo nórdico. Na Irlanda é necessário licenciamento urbanístico completo para casas modulares permanentes, embora reformas previstas para 2025 avancem no sentido de aliviar as regras para unidades mais pequenas.

Um problema estrutural central é o facto de módulos certificados num país da UE não poderem ser usados automaticamente noutro. O comércio transfronteiriço exige certificações nacionais separadas, criando obstáculos para fabricantes que pretendem expandir-se dentro da União.

A UE começou a abordar esta questão. O RPC revisto (UE 2024/3110) introduz Passaportes Digitais de Produto para componentes de construção, registos legíveis por máquina que incluem materiais, pegada de carbono, marcações CE e desempenho energético. Pretende-se assim reduzir tempos de aprovação e permitir verificações regulamentares automatizadas à escala transfronteiriça. As autoridades podem ler um código QR ou etiqueta NFC e verificar de imediato a conformidade, em vez de aguardarem semanas por uma análise em papel.

Os obstáculos que persistem

A construção modular tem limitações. A flexibilidade de desenho é mais reduzida e alterações após a produção em fábrica fazem disparar os custos. São necessários terrenos planos e acesso para gruas. Os elevados custos iniciais de instalação de fábricas podem também afastar promotores que não tenham uma carteira segura de projetos.

O principal obstáculo sistémico, porém, é regulamentar. Requisitos de certificação nacionais fragmentados impedem as economias de escala transfronteiriças que poderiam tornar a construção modular substancialmente mais barata em toda a Europa. Associações do setor e a Comissão Europeia defendem a harmonização dos Eurocódigos e a criação de Avaliações Técnicas Europeias normalizadas, desenhadas especificamente para sistemas modulares.

A construção modular não resolve por si só a crise da habitação na Europa. Mas é uma das poucas abordagens capazes de acelerar de forma significativa a oferta de casas sem exigir mais trabalhadores, mais solo urbano ou prazos mais longos.

A Suécia mostra o potencial quando governos alinham políticas, contratação pública e regras de planeamento para apoiar a construção industrializada. A Alemanha segue o mesmo caminho. A grande questão para o resto da Europa é saber se a vontade política consegue acompanhar o ritmo do progresso tecnológico e se Bruxelas será capaz de resolver o mosaico regulamentar antes de mais uma década de escassez habitacional.

Com milhões de agregados familiares na UE impedidos pelos preços de aceder à habitação, em listas de espera ou a viver em casas sobrelotadas, a pressão para encontrar essa resposta não vai desaparecer.

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google

Notícias relacionadas

União Europeia aprova plano para habitação: será suficiente para resolver a crise?

Conheça o plano recentemente aprovado pela UE para resolver a crise da habitação na Europa

Escassez de casas, investimento estrangeiro e aumento dos preços: poderá a UE resolver a crise da habitação?