Primeiro-ministro português pediu que Estados Unidos e Irão voltem a sentar-se à mesa das negociações, considerando "inaceitável" a posição de Teerão, com "consequências para o comércio internacional". Montenegro convergiu com Merz no apoio à Ucrânia e no reforço do pilar europeu da NATO.
O primeiro-ministro Luís Montenegro fez um apelo, esta terça-feira na Alemanha, à retoma das negociações entre Estados Unidos e Irão, tendo em vista o fim da guerra no Médio Oriente, iniciada a 28 de fevereiro na sequência de ataques israelo-americanos.
"Temos defendido e concretizado o princípio de que a via diplomática e negocial tem de ser absolutamente respeitada e incrementada", afirmou Montenegro, ao lado do chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, na Chancelaria Federal, sede do governo, em Berlim.
O chefe do executivo português insistiu que "os conflitos não se resolvem com o avolumar da divisão", antes "quando há capacidade de diálogo entre as partes envolvidas". É preciso "convencer aqueles que estão errados do erro que estão a cometer" e levá-los a "realinharem as suas decisões", defendeu.
Feito o apelo à diplomacia, Montenegro não deixou de criticar a posição do Irão, que tem usado o Estreito de Ormuz como arma, fechando a navegação nesta área por onde passa um quinto do comércio mundial do petróleo e, dessa forma, fazendo subir os preços da energia em todas as latitudes.
"Aquilo que o Irão está a fazer é absolutamente inaceitável nas consequências para o comércio internacional", sublinhou o primeiro-ministro, que condenou igualmente a retaliação de Teerão contra os países do Golfo Pérsico, em "ataques que não obedecem a critério que se compreenda".
O mais importante é "garantir a regularidade das trocas comerciais", indicou Montenegro a propósito da participação de Portugal no movimento internacional para reabrir o Estreito de Ormuz. O foco tem de estar na "paz" e não em "polémicas que não resolvem conflito nenhum", acrescentou.
Mais sanções para forçar negociação
No final de abril, o chanceler alemão já tinha instado os parceiros europeus a aumentarem as sanções a Teerão e renovou essa mensagem na receção ao homólogo português.
Na perspetiva do líder do governo federal germânico, é necessária maior pressão sobre o regime iraniano para obrigá-lo a negociar e pôr fim à perturbação do tráfego marítimo, sob pena de se agravar o custo de vida dos cidadãos do bloco europeu.
"O bloqueio iraniano no Estreito de Ormuz afeta as economias alemã e portuguesa e temos de nos empenhar para que as vias marítimas fiquem desimpedidas", observou Friedrich Merz, citado pela agência Lusa.
Autonomia estratégica da Europa
Ainda no plano internacional, o líder do executivo luso disse estar em sintonia com a Alemanha e o resto da Europa no apoio dado à Ucrânia na frente política, económica e militar.
Para Montenegro, a Europa deve continuar ao lado de Kiev, porque só assim conseguirá assegurar o seu próprio futuro, através da "salvaguarda dos direitos" dos seus cidadãos, e da sua "capacidade de desenvolvimento económico".
Montenegro e Merz convergiram também quanto ao reforço do pilar europeu da NATO. O primeiro-ministro português lembrou que, no ano passado, Lisboa antecipou "em quatro anos" a concretização da meta dos 2% do PIB em investimento no setor da defesa.
"Foi um esforço acrescido do ponto de vista da mobilização dos recursos, mas era naturalmente a transposição para o terreno do compromisso que assumimos na cimeira da NATO", destacou.
Exportações tecnológicas para a Alemanha
Além de consolidar o "debate político", um dos principais objetivos da visita-relâmpago de Luís Montenegro a Berlim passou pelo aprofundamento das relações comerciais com a Alemanha, "um dos principais parceiros económicos de Portugal".
Entre 2021 e 2025, as exportações portuguesas de bens e serviços para o mercado alemão aumentaram, em média, 12,9%, com as importações a registarem uma subida de 7,1%.
A Alemanha é o terceiro principal destino de exportação de Portugal e o segundo fornecedor de bens e serviços para o mercado português.
Montenegro mencionou, em particular, a evolução das exportações tecnológicas, as quais, no ano passado, cresceram 150% face a 2024. "Revela bem o estreitamento da nossa relação económica e comercial sob um dos pontos mais fulcrais para alicerçar o nosso futuro coletivo, dos nossos países e também da União Europeia", salientou.
O primeiro-ministro esteve pouco tempo em solo alemão. Após a receção e reunião na Chancelaria Federal, ao final da tarde, seguiu, acompanhado de Merz e da comitiva portuguesa, para o Wirtschaftstag (último ponto da agenda), uma das maiores conferências económico-políticas da Alemanha com cerca de três mil empresários.