Velislava Petrova-Chamova disse à Euronews que as sanções da UE à Rússia devem ter impacto financeiro, não ser apenas simbólicas, e que, por isso e por outras razões, Sófia defendeu retirar o líder da Igreja Ortodoxa russa do 21.º pacote de sanções.
A ministra dos Negócios Estrangeiros da Bulgária, Velislava Petrova-Chamova, afirmou em declarações exclusivas à Euronews que o motivo pelo qual o seu governo se empenhou com veemência em retirar o líder da Igreja Ortodoxa russa, o patriarca Kirill, do 21.º pacote de sanções contra a Rússia proposto pela Comissão Europeia foi evitar alimentar o ceticismo em relação à UE.
“Quando se impõem sanções que têm um efeito puramente simbólico, sem qualquer consequência económica para a Rússia, corre-se o risco de, num país – um país de tradição ortodoxa oriental, como a Bulgária – se criar um terreno propício para o surgimento de retórica antieuropeia”, disse.
“Por isso não apoiamos essa medida e é por isso que ficámos realmente satisfeitos por, no fim, o nome ter sido retirado”, afirmou no programa da manhã de referência da Euronews, Europe Today.
A Igreja Ortodoxa búlgara e a Igreja Ortodoxa russa são igrejas autónomas, com patriarcas diferentes. Mas ambas pertencem à comunhão ortodoxa oriental, partilham as mesmas crenças e doutrinas fundamentais e mantêm laços culturais e históricos profundos.
O executivo comunitário propôs, a 9 de junho, o 21.º pacote de sanções contra a Rússia pela sua invasão em grande escala da Ucrânia.
“Concentramos-nos nos setores com maior impacto: energia, serviços financeiros e criptoativos, comércio – incluindo, pela primeira vez, as pescas – e estamos a proibir a entrada de antigos combatentes russos na União Europeia”, declarou então a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
A proposta incluía também sanções contra o patriarca Cirilo, que qualificou a invasão em grande escala como uma “guerra santa” e foi acusado de tolerar os combates. O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros búlgaro Daniel Mitov afirmou que Cirilo tem usado a sua posição de autoridade religiosa para justificar a agressão russa e a morte de civis.
A pedido da Bulgária, o seu nome foi retirado com sucesso da proposta preliminar no domingo, numa reunião em que participaram embaixadores europeus.
Polémica em torno do teto ao preço do petróleo
Depois de o pacote de sanções ter falhado a aprovação numa reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros realizada na capital belga, na segunda-feira, será renegociado numa reunião de emergência no final da tarde de terça-feira, na expectativa de ser concluído.
Se não for aprovado, o mecanismo de teto ao preço do petróleo da UE – que poderá subir de 44 para 58 euros por barril – pode acabar por beneficiar o Kremlin, numa altura em que a guerra no Irão faz disparar o preço do crude.
A data em que o mecanismo de teto ao preço do petróleo será revisto em alta ou em baixa, caso fique inalterado, 15 de julho, coincide com a viagem de Petrova-Chamova à capital ucraniana, Kiev, para discutir a segurança energética com altos responsáveis do governo do presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy.
A ministra afirmou não estar “com receio” de chegar de mãos vazias ou, pior ainda, com um mecanismo que acabe por beneficiar o governo russo.
“Estou mais preocupada em saber como podemos trabalhar mais em conjunto para ajudar a Ucrânia a enfrentar os desafios que tem pela frente, que vão ser ainda maiores à medida que se aproxima o inverno”, disse.
Comércio com colonatos israelitas ilegais
A reunião do Conselho de Assuntos Externos de segunda-feira centrou-se também num documento de duas páginas com opções apresentado pela Comissão Europeia sobre como restringir o comércio entre a UE e os colonatos israelitas ilegais, revelado em primeira mão pela Euronews.
Um parecer consultivo do Tribunal Internacional de Justiça de 2024 considerou estes colonatos ilegais, posição também assumida pela União Europeia. O tribunal e vários governos internacionais instaram Israel a reverter os colonatos e a proteger a população palestiniana nos territórios ocupados.
A chefe da política externa da UE, Kaja Kallas, afirmou que estes colonatos minam as perspetivas de paz e da solução de dois Estados e que os ministros europeus dos Negócios Estrangeiros, nas discussões à porta fechada de segunda-feira, manifestaram um apoio esmagador à limitação do comércio.
Petrova-Chamova disse não poder afirmar com segurança se apoia alguma das propostas, por considerá-las pouco claras.
“Na realidade não são propostas, são opções, e isso é um pouco diferente, porque não há um acordo muito claro entre o serviço jurídico da Comissão e o do Conselho quanto à possibilidade de as adotar por unanimidade”, explicou.
Caberá agora aos embaixadores da UE dar corpo aos planos iniciais da Comissão.
Kallas adiantou ainda que poderá ser convocada uma reunião extraordinária de ministros dos Negócios Estrangeiros para garantir novos avanços. O próximo encontro ministerial formal está previsto para outubro, poucas semanas antes das eleições legislativas em Israel, e vários diplomatas receiam que este calendário sensível possa dificultar ainda mais qualquer progresso.