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Podem os inaladores ecológicos reduzir pegada climática da saúde?

Enfermeiro Filipe Orfao ajusta máscara de oxigénio a um doente na unidade de doenças respiratórias do Hospital de Santa Maria, o principal hospital de Lisboa.
Enfermeiro Filipe Orfão ajusta uma máscara de oxigénio a um doente na unidade de doenças respiratórias do Hospital de Santa Maria, principal hospital de Lisboa Direitos de autor  Armando Franca/Copyright 2022 The AP. All rights reserved
Direitos de autor Armando Franca/Copyright 2022 The AP. All rights reserved
De Marta Iraola Iribarren
Publicado a Últimas notícias
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As alterações climáticas agravam doenças respiratórias. Médicos e laboratórios apostam em diagnóstico precoce e inaladores com baixas emissões de carbono para reduzir emissões na saúde e proteger doentes.

Para milhões de pessoas, as alterações climáticas já afetam a respiração: desde crises de asma provocadas pela poluição a lesões pulmonares causadas pelo fumo dos incêndios florestais, e os próprios sistemas de saúde que tratam estas doenças contribuem para o aquecimento global.

Extremos climáticos e má qualidade do ar estão a fazer aumentar as doenças respiratórias, sobretudo devido ao agravamento da poluição, ao calor, aos incêndios e a épocas de pólen mais longas.

Mais de 90% da população mundial respira ar com níveis de partículas acima das recomendações da Organização Mundial da Saúde e os especialistas sublinham que uma parte significativa das doenças respiratórias está ligada a fatores ambientais.

O aumento dos incêndios e da poluição do ar está a alterar o ar que se respira, elevando o risco de exacerbações, progressão da doença e, nalguns casos, do seu aparecimento.

Therese Laperre, diretora do serviço de pneumologia do Hospital Universitário de Antuérpia, alerta que as alterações climáticas multiplicam os fatores desencadeantes de crises de asma e de doenças respiratórias crónicas, e alteram os padrões das infeções respiratórias.

“Sabemos que as variações nas partículas em suspensão [partículas do ar nocivas para a saúde] têm impacto, dias depois, nas idas ao serviço de urgência de doentes com asma e doença pulmonar crónica”, disse

Um estudo da Agência Europeia do Ambiente estimou que mais de um terço das mortes por doenças respiratórias crónicas na Europa estão ligadas a fatores ambientais como poluição do ar, temperaturas extremas, fumo de incêndios e pólen alergénico.

Círculo vicioso

Em todo o mundo, calcula-se que entre 400 e 500 milhões de adultos vivam com DPOC (doença pulmunar obstrutiva crónica) e que mais de 250 milhões tenham asma.

A resposta das instituições de saúde a este fardo tem um custo climático próprio. A organização internacional sem fins lucrativos Health Care Without Harm estima que os serviços de saúde geram cerca de 5% das emissões globais de gases com efeito de estufa; se formassem um país, figurariam entre os maiores poluidores do mundo.

Sem ação, as emissões do setor da saúde poderão atingir seis gigatoneladas por ano até 2050, o equivalente a pôr mais de mil milhões de carros na estrada.

Os hospitais, em particular as unidades de cuidados intensivos (UCI), respondem por uma fatia importante deste impacto. Estão entre as áreas mais poluentes do sistema por doente, porque consomem muita energia, equipamentos e grandes volumes de materiais de uso único.

Especialistas em doenças respiratórias afirmam que o controlo precoce da doença crónica pelos profissionais de saúde não só beneficia os doentes, como é essencial para reduzir a pegada climática do setor

O diagnóstico mais precoce é uma medida climática, além de clínica, diz Philippe Tieghem, da associação francesa Sante Respiratoire.

“Se detetarmos mais cedo, controlamos mais cedo: é bom para os doentes, é bom para o carbono e é bom também do ponto de vista económico”, afirmou.

Inaladores: exemplo perfeito

Um produto que ilustra bem este dilema é o inalador, usado sobretudo no tratamento de doenças pulmonares de longa duração como a DPOC e a asma.

Os dispositivos mais comuns são os inaladores pressurizados de dose medida, pequenos aerossóis que usam um gás para expelir o medicamento diretamente para os pulmões

Os propelentes destes inaladores são, em geral, hidrofluorocarbonetos, gases fluorados com efeito de estufa e elevado potencial de aquecimento global.

Estimativas recentes indicam que os inaladores pressurizados emitem cerca de 4 a 5 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano na Europa e cerca de 16 a 17 milhões de toneladas a nível global, cerca de 0,03% do total das emissões de gases com efeito de estufa.

O NHS, o serviço nacional de saúde do Reino Unido, estima que estes inaladores representem cerca de 3% da sua própria pegada de carbono.

Apesar de representarem uma pequena parte das emissões globais, os números são suficientes para que serviços de saúde e fabricantes façam dos inaladores uma prioridade de descarbonização, adaptando os dispositivos tradicionais para usarem gases mais “verdes”.

Para já, só um destes produtos de nova geração chegou aos doentes: o inalador para DPOC reformulado da AstraZeneca, aprovado para utilização no Reino Unido e na União Europeia

Contém os mesmos três princípios ativos e usa-se da mesma forma que o anterior, mas o propelente foi substituído: do antigo HFA-134a para um novo gás, o HFO-1234ze(E).

A mudança reduz o impacto de aquecimento do inalador em cerca de 99,9% face ao gás antigo, uma diminuição de cerca de mil vezes no potencial de aquecimento global.

Os novos inaladores da AstraZeneca estão a ser produzidos na unidade da empresa em Dunquerque, França.
Os novos inaladores da AstraZeneca estão a ser produzidos na unidade da empresa em Dunquerque, França. AstraZeneca/ Cleared

Novos esforços para reduzir o impacto ambiental

A farmacêutica britânico-sueca também se comprometeu a reduzir as suas emissões em 98% até 2026 e começa pelos inaladores, abordando as emissões de âmbito 3 ligadas a fornecedores e ao uso do produto

“Temos uma missão, trabalhar na prevenção em deteção precoce, diagnóstico precoce e tratamento precoce, para garantir que usamos os nossos medicamentos para manter os doentes controlados na comunidade e libertar capacidade hospitalar, que tende a ser muito mais dispendiosa e crítica, sobretudo em situações agudas”, disse Pablo Panella, vice-presidente sénior para doenças respiratórias, à Euronews.

Outras grandes farmacêuticas também prometeram reduzir as suas emissões e a sua pegada ambiental.

A Pfizer assumiu um plano climático para atingir a neutralidade carbónica até 2040; a Johnson & Johnson tem o mesmo objetivo para 2045.

Melhor controlo da doença crónica traduz-se em menos internamentos de urgência e menor necessidade de cuidados que consomem muitos recursos.

É o que a farmacêutica chama um “doente verde”: alguém cuja doença está suficientemente controlada para evitar agudizações repetidas, internamentos e intervenções com elevada pegada carbónica.

Para a indústria, a tecnologia é apenas parte da equação. A outra é saber se a regulação facilita ou dificulta levar opções de baixo carbono aos doentes.

O último pilar, acrescenta Panella, é uma regulação que apoie a inovação, sobretudo a que responde ao impacto ambiental.

“As regras precisam de ser acolhedoras e facilitadoras. Por vezes, quanto mais complexa e pesada for a regulação, mais pode significar que, mesmo desenvolvendo a tecnologia, ela demora muito tempo a chegar efetivamente aos doentes”, disse Panella.

Quanto à regulação com preocupação climática, disse que a questão não é saber se segue esse caminho, mas como a desenhar para que a indústria tenha um ecossistema favorável a continuar a investir e a trazer inovação.

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