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Praça Tahrir, cinco anos depois

Praça Tahrir, cinco anos depois
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Foi há exatamente cinco anos: A praça Tahrir, no Cairo, enchia-se de gente para exigir a saída do presidente Hosni Mubarak, depois de trinta anos no poder.

A transição foi mal gerida pelos militares.

O dia 25 de janeiro acabaria por ser chamado o Dia da Revolução. Para este quinto aniversário, não foi organizada qualquer cerimónia. As manifestações foram proibidas. Só as forças da ordem são visíveis. Alguns apoiantes do presidente Sissi puderam ir à praça.

O Movimento 6 de abril, essencial para o movimento popular de 2011, foi proibido e alguns dos dirigentes estão presos.

São raros aqueles que ainda podem falar livremente: “Nunca imaginei que chegássemos ao estado em que estamos. Se tínhamos 1% de liberdade ou 1% de poder económico antes da revolução, agora não temos nada. Isso é por causa do atual regime, não por causa da revolução”, diz a ativista Dolly Bassiouny.

Abdel Fattah al-Sissi tornou-se no homem-forte do país em julho de 2013, depois do golpe de Estado militar que afastou do poder o presidente islamita Mohamed Morsi.

O verão de 2013 foi marcado por uma repressão implacável contra a oposição islamita. Uma repressão que depois se alargou aos movimentos laicos e de esquerda. As prisões e a tortura tornaram-se correntes.

Na véspera deste 25 de janeiro, o presidente fez uma pequena comunicação ao país: “O Egito de hoje não é o Egito de ontem. Estamos a construir, juntos, um Estado laico e moderno, que defende os valores da democracia e da liberdade”, disse Sissi aos egípcios.

Nestes últimos dias, a polícia multiplicou as rusgas a opositores do regime e a todos aqueles que poderiam vir a descer às ruas no dia 25 de janeiro. Há dias, a polícia apareceu na sede da editora Merit, no Cairo: “Vamos continuar a desempenhar o nosso papel. Vamos continuar a sonhar com a liberdade para o nosso povo. Liberdade de todos os tipos de opressão, da discriminação e do fascismo, seja militar ou religioso. Vamos continuar a dizer aquilo em que acreditamos. Não faz sentido oprimir as pessoas e as liberdades seja com que motivação for – religiosa, nacional ou política”, diz Mohamed Hashem, dono da editora.

À desilusão política junta-se um agravamento da situação económica e social. O setor turístico, um dos mais importantes do país, está a sofrer com a instabilidade e a violência jiadista.

Entrevista

Falamos agora com Hasni Abidi do Centro de Estudos do Mundo Árabe de Genebra:

Mohamed Abdel Azim, euronews:
Em 2011, a praça Tahrir estava repleta de gente e gritava: “o povo exige a queda do regime”. Hoje, o Egito assinala em silêncio o aniversário da revolução. Porquê?

Hasni Abidi
É o paradoxo do Egito da atualidade. A praça Tahrir foi mesmo o símbolo de toda a oposição, era uma verdadeira Ágora, a praça histórica da oposição ao totalitarismo, não só para os egípcios mas também para o mundo árabe, e diria mesmo para o mundo inteiro.

E se esta praça conseguiu, apesar de tudo, transformar as ruas egípcias num verdadeiro partido político, hoje, esta praça revela a desilusão do povo egípcio, cinco anos depois. Diria mesmo que, hoje, o povo sofre com este paradoxo, pois o dia 25 de janeiro é uma jornada, em princípio, de comemoração da revolução e, ao mesmo tempo, o poder proibiu todas as manifestações. É o paradoxo egípcio.

euronews:
Desde 2012 que o dia 25 de janeiro foi batizado como o “dia da revolução”. Mas ao vermos ruas vazias e as redes sociais silenciosas, podemos dizer que estamos perante um sinal de resignação?

Hasni Abidi:
É verdade que a praça Tahrir está vazia, mas o silêncio não é absoluto, mesmo se o poder tenta impor esse silêncio. Há um medo instalado no local, mas também no espírito das pessoas, que é o mais inquietante, é a indiferença. Os egípcios não saíram às ruas para manifestarem-se, não arriscaram a vida para manifestar-se. Para uma grande parte da população, à exceção da classe média, este gesto já não tem sentido.

euronews:
Em 2011, os egípcios estavam orgulhosos por terem vencido o medo imposto por Mubarak. O medo parece ter regressado, talvez com mais intensidade. O que é que se passou nestes 5 anos?

Hasni Abidi:
Trata-se antes de mais do fracasso desta transição democrática, difícil e perigosa, levada a cabo por um presidente saído da Irmandade Muçulmana, Morsi, que, infelizmente, por falta de tempo e de experiência, não conseguiu unir toda a sociedade. Zangou-se com o chamado “Egito profundo”. O fracasso de Morsi abriu caminho a outra força, que nunca desapareceu, o exército, que regressou ao centro do poder. Eu diria que a transição, mal gerida pelos militares após a queda de Mubarak, é responsável pela situação difícil e delicada de uma transição que se encontra paralisada hoje em dia no Egito.

euronews:
Os egípcios exigiam pão, liberdade e justiça social. Que leitura é que faz do estado atual dos direitos e liberdades no país?

Hasni Abidi:
Hoje não é apenas a situação das liberdades públicas e privadas que está em regressão, o segundo elemento, a economia, também se encontra totalmente parado. A estes dois elementos junta-se um terceiro, ao qual o presidente Al-Sissi não parece dar importância, e que é a reconciliação nacional. O Egito está distante da reconciliação e enquanto não se atacar a este desafio uma grande parte da sociedade egípcia, da construção política à reconstrução económica, vai ser difícil que o Egito consiga regressar à serenidade, mas também que consiga olhar para o futuro com serenidade.