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A história feliz de uma criança vítima do "daesh"

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O emotivo reencontro entre Afrim Berisha e o filho cinco anos depois
O emotivo reencontro entre Afrim Berisha e o filho cinco anos depois   -   Direitos de autor  DR
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Cerca de 70 mil mulheres e crianças passaram o fim de ano em dificuldades no sobrelotado acampamento de Al-Hawl para pessoas resgatadas ao grupo terrorista autoproclamado Estado Islâmico ("Daesh"/ ISIL/ ISIS).

Alvin Berisha, de 11 anos, não foi uma delas. O jovem albanês, levado para a Síria às escondidas pela mãe em 2014, foi resgatado no início de novembro e já pôde abraçar o pai, com quem a Euronews falou sobre todo o processo do reencontro.

Os repatriamentos destas pessoas que viveram no "califado" dos terroristas são complexos. Alguns Governos europeus, por exemplo, estão a demorar na avaliação dos pedidos de repatriamento, sobretudo, das mulheres.

Muitas delas, terão viajado para a Síria de livre vontade para se juntarem às fileiras do "Daesh".

É o caso da portuguesa Ângela Barreto, identificada no final de março no campo de Al-Hawl (ou Al Hol, como também é traduzido do árabe), com dois filhos, um rapaz e uma rapariga mais velha. No início de abril, a filha morreu vítima de um ferimento causado por uma bomba.

Ângela é uma de quatro mulheres com nacionalidade portuguesa que viajaram para a Síria para se juntar ao "daesh" e que agora se encontram em campos de detenção. À espera de uma segunda oportunidade.

Mais problemático, porém, é o caso das crianças. Algumas foram levadas para a Síria pelos pais. Outras nasceram mesmo no meio do conflito. Haverá pelo menos 20 de ascendência portuguesa entre as milhares que estão ainda pelos diversos campos de detenção.

Mais de quatrocentas crianças já terão morrido só no acampamento de Al-Hawl. A maior parte devido a subnutrição e doenças. Alvin Berisha não foi uma delas.

Do céu ao inferno e de volta ao céu

Alvin Berisha foi resgatado daquilo que muitos descrevem como "o inferno."

Há cinco anos, a mãe de Alvin converteu-se ao Islão e abandonou a casa da família, em Itália. Levou Alvin, foi para a Síria e juntou-se ao "Daesh".

O pai, Afrim Berisha, ficou em pânico. Este albanês lançou-se numa terrível viagem para tentar recuperar o filho.

"Só conseguia pensar no Alvin. Não queria saber de nada mais. Para mim, apenas existia o meu filho. Ponderei os riscos, mas o que é que podia fazer?", questiona, em entrevista à Euronews.

Conta-nos que "Alvin foi levado a 17 de dezembro" pela mãe. "A 01 de janeiro, eu estava na Síria. Andei por lá uma semana à procura dele. Não o consegui encontrar. Depois fui capturado pelo Estado Islâmico", recorda.

Afrim conseguiu comprar a liberdade. Por 500 euros, um compatriota albanês, combatente do "Daesh", aceitou libertá-lo. Mas ter estado frente-a-frente com o terrorismo, não o deteve.

Afrim voltou todos os anos à Síria, até que no ano passado recebeu uma carta. Uma prova de vida, assinada pelo filhos e com a localização de Alvin. Estava com a Cruz Vermelha internacional.

Após alguns obstáculos burocráticos e diplomáticos, Afrim falou pelo telefone com o filho e pouco depois pôde abraçar Alvin, que não via há quase cinco anos.

O advogado Darien Levani elogia a determinação do pai: "Ele assumiu a responsabilidade que os nossos governos não querem assumir. Encontrou o filho. Disse-lhes onde ele estava, foi ao acampamento e regressou com vídeos para que todos vissem."

Alvin foi encontrado ferido. Estava sozinho. A mãe tinha sido morta na batalha por Baghouz, o último bastião do "daesh" na Síria.

Alvin passou quase seis meses no acampamento de Al-Hawl, onde ainda se mantêm milhares de outras crianças europeias.

A Cruz Vermelha acredita que esta história pode ajudar a resolver os casos de mais crianças como Alvin.

"Alguns governos começaram a falar connosco sobre o repatriamento de outras crianças. É um processo tão complexo que os governantes não são capazes de dizer o que vai acontecer amanhã. Provavelmente, vai levar muito mais tempo. O contexto no Médio Oriente é muito volátil. A sensação que temos é que alguns governos percebem o que é possível fazer através dos canais da Cruz Vermelha", diz-nos Tommaso Della Longa, porta-voz da Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho internacionais.

Alvin passa ao lado do impacto que a sua história pode vir a ter na atitude dos governos.

Para já, este albanês de 11 anos está apenas preocupado em aproveitar esta segunda oportunidade, divertir-se com jogos de vídeo, contar as reações que vai recebendo nas respetivas publicações nas redes sociais da internet e recuperar pelo menos parte da infância que lhe foi roubada... pela mãe.