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Crimes de guerra na Ucrânia começam a ser confirmados até agosto

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De  Francisco Marques
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Equipas forenses recolhem cadáveres de vala comum em Bucha, Ucrânia
Equipas forenses recolhem cadáveres de vala comum em Bucha, Ucrânia   -   Direitos de autor  AP Photo/Efrem Lukatsky

As acusações de crimes de guerra e até de genocídio em curso na invasão russa da Ucrânia têm subido de tom. O Kremlin nega responsabilidades, mas as evidências estão a ser recolhidas e analisadas.

Entrevistado pela Euronews, o especialista forense português Nuno Duarte Vieira estima que até agosto pode começar a esclarecer-se a origem das valas comuns descobertas nos arredores de Kiev e as causas da morte das centenas de vítimas que continuam a ser exumadas.

"Em medicina legal as coisas não são como nas séries (de televisão) do CSI. Nas séries, passado umas horas já há conclusões seguras. Nós, em medicina legal, consideramos que não há atraso pericial até 60 dias. Portanto, vamos dar aqui um período de dois, três ou quatro meses. Dentro desse período já poderá haver conclusões bastante consistentes quanto aquilo que se passou em Bucha", prevê o também Presidente do Conselho Científico Consultivo do Procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI).

As primeiras "conclusões consistentes" para aferir o ocorrido até poderão surgir "provavelmente antes". "Tudo depende da celeridade e do número de profissionais que neste momento estiverem focados nessas investigações", acrescenta Nuno Duarte Vieira.

.As descobertas em Bucha e Borodianka, após a retirada das forças afetas ao Kremlin da região, chocaram o mundo. Para as equipas forenses, os cadáveres exumados representam testemunhas do que se passou nestas cidades durante a ocupação russa porque "os corpos preservam em si a memória daquilo que lhes aconteceu"

É possível pôr um corpo a falar e a contar o que lhe aconteceu, quem fez aquilo, quando o fez, em que circunstâncias e como é que as coisas se passaram.
Nuno Duarte Vieira
Professor de Medicina Forense e consultor do TPI

Nuno Duarte Vieira é professor de medicina legal em Coimbra, onde em outubro recebeu uma delegação forense ucraniana para lhes mostrar os métodos portugueses.

Antes, o também presidente da rede iberoamericana de laboratórios forenses já tinha estado na Ucrânia. Em 2014, a convite da Cruz Vermelha Internacional. "Cheguei num dia para uma palestra e no dia seguinte foi abatido o voo MH17. A Cruz Vermelha acabou por me pedir para ir ao local", recordou.

Em setembro e já no início deste ano regressou à Ucrânia. Os serviços de medicina forense ucranianos já estavam à espera de uma ofensiva russa, como se veio a verificar, e procuraram aprimorar os métodos de trabalho para recolha, preservação e análise dos vestígios de evenuais crimes de guerra.

A proximidade aos técnicos ucranianos permite a Nuno Duarte Vieira estar seguro da legitimidade do trabalho forense atualmente a ser realizado no terreno.

"Podemos ter confiança nas equipas forenses que estão a recolher as provas, mas sobretudo essas provas depois são sujeitas a contraperitagens e todos nós vamos ver ser as interpretações periciais que são feitas a partir dessas evidências são corretas ou não. E para além das equipas ucranianas, há também equipas internacionais no terreno", sublinhou o professor de medicina forense.

A invasão ordenada por Vladimir Putin a 24 de fevereiro está a ser "uma guerra especial", considera Nuno Duarte Vieira, devido ao facto de nos estar a entrar casa adentro através dos meios de comunicação, mas também a ser partilhada pelas redes socais, o que facilita por outro lado a desinformação de parte a parte.

O pior, no entanto, é a informação sobre as ocorrências nos territórios ucranianos controlados pelas forças russas, de onde não é possível às equipas de investigação verificar de forma imparcial o que é relatado.

"Uma das especulações que tem corrido é a de que as tropas russas terão avançado com camiões crematório que permitem queimar os corpos logo no final, o que é algo problemático porque permite fazer desaparecer os tais corpos que falam e que podiam contar as histórias", alerta Nuno Duarte Vieira sem no entanto poder confirmar o uso desse recurso pelas forças do Kremlin.

Ainda assim, são já milhares de testemunhas. Mortas ou vivas porque também os sobreviventes de abusos sexuais ou de outros tipos de torturas são acompanhadas pelas equipas forenses para análise dos vestígios desse tipo de crimes de guerra denunciados. A maior parte das vítimas serão civis.

As equipas do TPI já estão na Ucrânia, nomeadamente o próprio procurador, o britânico Karim Khan, a analisar os alegados crimes cometidos nesta nova guerra na Europa, para muitos impensável até há apenas dois meses.