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Seca severa na Etiópia: milhões de pessoas em insegurança alimentar

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De  Euronews
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Carcaças de animais na Etiópia
Carcaças de animais na Etiópia   -   Direitos de autor  AFP

O corno de África está confrontado com uma das piores secas de que há memória.

A situação está a atirar para uma situação de fome 20 milhões de pessoas.

Na região de Hargududo, no sudeste da Etiópia, a falta de água já dizimou milhões de cabeças de gado deixando comunidades inteiras sem alimentos, nem rendimentos.

"Não nos sobrou um único animal", queixa-se o pastor nómada, Abdi Kabe Adan.

As carcaças secas dos animais jazem por todo o lado. A maioria das famílias nómadas perderam tudo. Muitos partiram à procura de outros meios de subsistência. Com as secas cada vez mais frequentes, é toda uma forma de vida e de cultura que está a desaparecer.

Ali Nur Mohamed, gestor de Crise Humanitária, explica: "Em tempos normais, nós temos secas, é uma coisa cíclica, que vai acontecendo. Antigamente era de dez em dez anos, agora vem com mais frequência do que antes".

Não chove uma gota há 18 meses. No mês de abril, teoricamente um dos mais chuvosos do ano, o ar manteve-se quente e a terra seca e estéril.

Abdi Kabe Adan conta coisas terríveis: "Já vi cabras a comer as suas próprias fezes e camelos a comer outros camelos. Algo que eu nunca tinha visto em toda a minha vida".

Desde 2020 que as populações vivem em seca severa. Na Etiópia, a esta catástrofe humanitária junta-se o conflito no norte do Tigré.

A ONU estima que só na Etiópia, entre 5,5 e 6,5 milhões de pessoas estão em grave insegurança alimentar.

Segundo a agência noticiosa francesa, AFP, a seca atual matou quase 1,5 milhões de animais na Etiópia, quase dois terços dos quais na região da Somália, "e a condição física dos animais sobreviventes deteriorou-se seriamente, reduzindo o seu valor de mercado".

Para as populações nómadas ou semi-nómadas desta região árida e hostil, o gado fornece alimentos e rendimentos, mas também constitue toda a sua economia.

"Éramos puros nómadas antes desta seca: dependíamos dos animais para carne e leite e vendíamo-los", recorda Tarik Mohamed, um pastor de Hargududo, a cerca de 50 km de Gode, a principal cidade da zona administrativa de Shabelle.

"Mas hoje em dia, a maioria de nós" está a assentar, "não há mais futuro no pastoreio, porque não há mais rebanhos", continua amargamente, "a nossa vida nómada acabou".

Secando os poços e tornando os pastos escassos, o que estes pastores da região da Somália descrevem como a "pior seca de sempre" é a extinção do gado, a espinha dorsal do seu agora ameaçado modo de vida.

É toda uma sociedade está a desintegrar-se: as aldeias têm de ser deslocadas para a cidade, as famílias estão a separar-se, as crianças estão a ser negligenciadas porque têm de salvar o que resta dos animais, que são essenciais para a sobrevivência.

A alternância de estações secas e chuvosas - a curta entre março e abril; a longa entre junho e agosto - sempre pontuou a vida destes pastores.

"Antes desta seca catastrófica, sobrevivemos em tempos de seca graças aos restos de pasto deixados pelas chuvas anteriores", diz Tarik Muhamad.

Mas nenhuma das três últimas épocas de chuva chegou. E o quarto, esperado desde março, também parece estar a falhar.

Na África Oriental, "desde 2005, a frequência das secas duplicou de seis em seis para três anos" e "houve vários episódios de seca prolongada, especialmente nas zonas áridas e semi-áridas da região nos últimos 30 anos", escreve o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) da ONU no seu último relatório.

Já em 2012, um estudo da agência americana de ajuda ao desenvolvimento (USAID) concluiu que as regiões do sul da Etiópia estavam a receber menos 15 a 20% de precipitação do que nos anos 70. E as áreas que recebem os 500 mm de precipitação anual necessários para uma agricultura e produção pecuária viáveis estavam a diminuir.