"Não vai haver um tratado de paz em relação às alterações climáticas", diz comissário europeu

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A Semana Verde da União Europeia decorre, este ano numa altura em que os objetivos ambientais estão a ser colocados em causa. Virginijus Sinkevicius, comissário europeu para o Ambiente falou com a Euronews sobre as metas ambientais da UE e o empenho dos Estados-membros para as cumprir.

Grégoire Lory, Euronews: A prioridade ambiental parece ter ficado em segundo plano, quando ouvimos o Presidente francês ou o Primeiro-Ministro belga falar de uma pausa regulamentar...

Virginijus Sinkevicius: Penso que o presidente francês, se ouvirmos todo o discurso, fez um discurso muito bom e que não se destinava a ir contra qualquer uma das propostas atuais que já foram apresentadas. 

O objetivo é mais manter uma abordagem equilibrada e garantir que a competitividade das nossas empresas é a prioridade. E só posso reafirmar que esta foi a posição da Comissão desde o início, que o Pacto Ecológico não é possível sem a participação de todos. 

Mas não devemos esquecer que não vai haver um tratado de paz em relação às alterações climáticas ou à perda de biodiversidade. E estas crises e as suas consequências já estão a ter um enorme impacto na nossa vida no que diz respeito à insegurança alimentar, às inundações ou às secas, que não só representam custos para os cidadãos europeus, mas também a perda de vidas humanas. E, claro, temos de evitar que essas catástrofes se multipliquem por toda a Europa.

Não podemos limitar-nos a lidar com os temas com que a sociedade está preocupda neste momento
Virginijus Sinkevicius.
Comissário da União Europeia para o Ambiente

G.L.: Não é esta pausa algo que as pessoas querem ouvir, por não verem no dia a dia os efeitos destas políticas ambientais e terem outras preocupações?

V.S.: É sempre mais fácil detetar a crise imediata. De uma guerra como a que está a decorrer na Ucrânia há mais de um ano, tem-se uma imagem clara. Mas, por exemplo, a degradação do nosso solo, é muito mais difícil vermos. Provavelmente, os primeiros a ver e a compreender são os nossos agricultores, que têm de lidar com o solo todos os dias e que dependem diretamente da sua fertilidade. 

Mas, mesmo assim, nós, como políticos, se somos responsáveis, temos de tomar decisões orientadas para o futuro. Não podemos limitar-nos a lidar com os temas com que a sociedade está preocupda neste momento. 

Se voltarmos a 2019, todos os partidos políticos estavam na corrida para o Pacto Ecológico, a ver quem é que era o mais ambicioso. Hoje, essa preocupação está a diminuir. Mas a crise climática, a perda de biodiversidade, ou as pressões da poluição não se foram embora. Estas políticas e a mudança que estamos agora a fazer no que diz respeito à nossa economia, à nossa transição energética, aos transportes, etc., são uma maratona, apesar das pressões do exterior.

50% do PIB mundial está efetivamente ligado aos ecossistemas. Se os perdermos, não vai haver nenhuma tecnologia que os possa substituir com sucesso
Virginijus Sinkevicius.
Comissário da União Europeia para o Ambiente,

G.L.: Os Estados-membros ainda estão envolvidos? E o Parlamento? Porque o centro-direita está a pedir uma moratória (sobre vários textos importantes do Acordo Verde). Ainda existe uma maioria a favor da política ambiental?

V.S.: Em primeiro lugar, é claro que os Estados-membros estão totalmente envolvidos. E o mesmo se aplica ao parlamento. Sim, há sempre vozes, essa é a beleza da democracia e do parlamento. Mas, de um modo geral, é preciso ver se o trabalho está a avançar. E eu vejo que o trabalho está a avançar. 

Eu sempre quis avançar mais depressa. Por isso, temos de garantir que estamos prontos, que estamos preparados para um amanhã que parece sombrio. E, antes de mais, parece sombrio para os agentes económicos que dependem diretamente dos ecossistemas: os nossos agricultores, os nossos pescadores, os nossos silvicultores. 50% do PIB mundial está efetivamente ligado aos ecossistemas. Sei que é algo que tomamos como garantido, mas a certa altura, se os perdermos, não vai haver nenhuma tecnologia que os possa substituir com sucesso.

G.L.: A guerra em curso na Ucrânia está a exercer pressão sobre a ambição e o investimento a favor das políticas ambientais?

V.S.: Diria que é preciso dividir em duas partes. Por um lado, teve um efeito muito positivo nas nossas políticas energéticas. 

Todos os nossos objetivos em matéria de energias renováveis, o nosso trabalho no que diz respeito ao pacote REpowerEU, de desenvolvimento de projetos renováveis, foram adotados com uma rapidez espantosa. E isso mostrou realmente que esta incerteza e o aumento dos preços da energia nos levaram a procurar alternativas que nos permitissem não estar dependentes de regimes incertos e não democráticos. 

Agora, no que diz respeito às políticas de biodiversidade, só posso assegurar que não queremos os silvicultores fora da floresta, nem queremos os pescadores fora do mar, nem os agricultores fora da terra. Pelo contrário, queremos que o façam durante muitos e muitos anos, de forma a que seja compensador para eles, que seja rentável e que não prejudique o ecossistema, de modo a assegurarmos a sustentabilidade a longo prazo.

G.L.: O texto vai estar totalmente concluído antes do final do mandato?

V.S.: Se olharmos para os dossiês que tenho a meu cargo: economia circular, dossiês ambientais, estou otimista de que estamos a avançar rapidamente e espero que possamos concluir com sucesso. Como já disse, temos de o fazer. Precisamos de manter a nossa posição de liderança a nível mundial, porque fomos a força motriz por trás dos acordos globais e temos degarantir um futuro viável para as gerações vindouras.

G.L.: Neste contexto difícil, que metas foram de facto alcançadas e vão afetar os cidadãos?

V.S.: Penso que, antes de mais, fizemos um trabalho tremendo no que diz respeito ao pacote climático e ao pacote "Fit for 55", que está quase concluído. E isso é um grande feito. 

Já apresentámos todas as políticas fundamentais no que diz respeito à economia circular e à passagem de um modelo linear para um modelo mais circular. E estou muito satisfeito com o apoio dos co-legisladores. 

E se olharmos para a política de produtos após este mandato, ela será irreconhecível, com todas as mudanças que apresentámos. E estou muito orgulhoso disso. Estou contente por termos conseguido concluir cedo o nosso dossiê sobre as baterias. Prevemos que a produção de baterias até 2030 aumente 14 vezes. 

Portanto, há uma série de grandes realizações. Mas, como já foi dito, quando falamos do Pacto Ecológico, trata-se de uma mudança horizontal complexa. Não se trata de uma iniciativa única que possa ser designada como Pacto Ecológico. E ainda temos muito trabalho pela frente.

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