O governo polaco anunciou uma das maiores mudanças na organização da defesa desde o fim da Guerra Fria - um plano para criar umas forças armadas de 500 mil soldados, prontas a serem mobilizadas rapidamente em caso de crise.
O ministro da Defesa polaco, e vice-primeiro-ministro, Władysław Kosiniak-Kamysz sublinhou, numa conferência de imprensa no Estado-Maior, que o projeto "exército 500" reúne o exército profissional, as formações das Forças de Defesa Territorial e a nova reserva de alta prontidão.
É através desta reserva - voluntária e aberta a homens e mulheres - que a Polónia deverá ser capaz de reunir meio milhão de indivíduos treinados e aptos para o combate em caso de necessidade.
"O ano de 2026 será para todos nós o ano das reservas, o ano dos reservistas, o ano das mudanças nas reservas. A nossa ambição é um exército de 500 mil, em que uma grande parte será também constituída por aqueles que estarão na reserva de maior prontidão", afirmou o ministro da Defesa durante a conferência.
O ministro explica que esses milhares de militares estarão divididos em "reserva ativa e passiva". "Uma reserva ativa - a chamada alta prontidão, que se exercitará mais vezes, será útil mais vezes, mas também será um grande sinal para aqueles que querem ameaçar a nossa segurança", explicou.
"Exército 500" : Nova reserva e programa «wGotness»
A próxima grande edição do programa de formação geral de Defesa "wGotness" será lançada em março para preparar mais participantes para o serviço na reserva.
Trata-se de uma continuação do programa-piloto, que já formou mais de 16 mil pessoas em 2025.
No centro da estratégia estará a chamada "reserva de alta prontidão",uma fórmula concebida para combinar elementos de formação regular com formas flexíveis de serviço.
Os reservistas irão treinar numa base regular, mas de forma voluntária; receberão remuneração e acesso a cursos e formação para participarem em exercícios, e escolherão a data de formação e a unidade em que desejam servir que lhes seja conveniente.
O general Wieslaw Kukuła, Chefe do Estado-Maior do Exército, também salientou que a formação será adaptada às necessidades dos soldados na reserva.
Cada reservista terá de se submeter a, pelo menos, oito dias de formação por ano e, além disso, será submetido ao chamado controlo do dia de mobilização - um teste de prontidão para verificar se é capaz de se apresentar rapidamente a uma unidade com o equipamento necessário, se for chamado.
O ministério está também a planear a criação das chamadas escolas de cadetes para oficiais na reserva, que permitirão às pessoas que não estão profissionalmente ligadas ao exército obter uma formação adequada e o posto de segundo-tenente na reserva.
O processo de formação de um oficial na reserva deverá durar três anos e incluir pelo menos 139 dias de formação, incluindo a formação de base e a de oficial.
De acordo com o ministério da Defesa, a participação na reserva deverá combinar prestígio com benefícios tangíveis, proporcionando ao mesmo tempo espaço para a aquisição de novas competências e desenvolvimento.
Cerca de 40 mil polacos formados em 2026
Este é o primeiro empreendimento em tão grande escala na Polónia, que dá a todos os adultos a oportunidade de adquirir competências práticas necessárias em situações de emergência.
Cezary Tomczyk, secretário de Estado do ministério da Defesa, afirmou na conferência, que o seu objetivo é incorporar permanentemente a Formação Voluntária Comum em Defesa no sistema de segurança do Estado, implementada anualmente e reforçando sistematicamente o potencial de defesa da Polónia.
"Estas formações continuarão ao longo do ano e terminarão a 21 de novembro. Queremos multiplicar o número de pessoas que poderão receber formação este ano. No que diz respeito à formação individual, estimamos que serão formados cerca de 30 mil cidadãos adultos. No que diz respeito à formação em grupo, presumimos que serão formados cerca de 40 mil polacos", explicou.
Para o Estado polaco o mais importante é que todos os cidadãos, mulheres e homens, "um verdadeiro sentido de agência e de autoconfiança em situações de crise", diz.
O ministério desenvolveu a aplicação "Preparedness" - uma ferramenta gratuita que complementa a aplicação mCitizen. A nova aplicação oferece um pacote completo de informações e materiais educativos. É aqui que se encontram os chamados conhecimentos de defesa digital, ou seja, conhecimentos sobre a segurança e a resiliência do Estado.
Desafios estratégicos e demográficos
Kosiniak-Kamysz salienta que as alterações demográficas na Polónia significam que o recrutamento militar tradicional não é suficiente para manter o potencial de Defesa do país. Por isso desenvolveu-se a ideia de que o grosso das Forças Armadas deve basear-se precisamente em reservistas treinados e prontos para uma rápida mobilização.
Alguns peritos salientam que este modelo corresponde às tendências atuais da NATO, onde os países estão a tentar combinar forças permanentes profissionais com estruturas de reserva flexíveis. Outros salientam que o financiamento e a manutenção logística de um exército tão grande continua a ser um desafio, especialmente no contexto de uma modernização técnica intensiva.
A decisão de Varsóvia de aumentar as suas capacidades de Defesa insere-se num contexto mais vasto de tensões crescentes com a Rússia e de instabilidade na região da Europa Oriental.
A Polónia tem vindo a aumentar sistematicamente as despesas com a Defesa e a desenvolver a cooperação com os seus aliados da NATO, num esforço para criar capacidades de dissuasão.
O conceito do "Exército 500" destina-se, portanto, não só a reforçar a autodefesa, mas também a enviar um sinal estratégico aos potenciais adversários de que a Polónia está preparada e é capaz de mobilizar forças significativas num curto espaço de tempo.