Na manhã de sexta-feira, as yields das obrigações soberanas europeias aliviaram após uma forte venda no início da semana, enquanto as yields dos Treasuries dos EUA atingiam novos máximos de várias décadas e as taxas hipotecárias americanas chegavam a 7%, o valor mais alto desde o regresso de Donald Trump ao cargo
O alívio nos mercados de obrigações europeias, na manhã de sexta‑feira, é limitado e surge após uma das mais acentuadas vendas de dívida dos últimos anos.
A rendibilidade da OAT francesa a 10 anos negociava em torno de 4,67% na manhã de sexta‑feira, abaixo dos cerca de 4,7% registados anteriormente, enquanto a rendibilidade do Bund alemão a 10 anos se situava perto de 3,59%, descendo de 3,61%.
O diferencial entre os custos de financiamento franceses e alemães a 10 anos, o indicador mais claro do prémio de risco que os investidores associam a Paris, ultrapassou esta semana os 110 pontos base, o nível mais elevado desde a crise da dívida da zona euro em 2012.
O movimento reflete a preocupação dos investidores com a dívida francesa e os riscos eleitorais, agravados pela descida da notação de França pela agência de rating Scope. Os investidores ponderam também o risco de uma segunda volta presidencial em 2027 entre a extrema‑direita e a extrema‑esquerda. O custo de seguro contra incumprimento da dívida francesa atingiu igualmente o valor mais alto em quase uma década.
Mas o foco principal esteve nos Estados Unidos.
A rendibilidade das Treasuries a 30 anos subiu esta semana para o nível mais elevado desde 2004, tocando cerca de 5,5%, numa altura em que uma nova subida dos preços do petróleo reforçou os receios de inflação persistente e de aumento da dívida pública.
A rendibilidade das Treasuries a 10 anos, que serve de referência para as taxas das hipotecas nos EUA, atingiu valores que não se viam desde 2007.
Quem compra casa nos Estados Unidos está a sentir a subida generalizada dos custos de financiamento: a taxa média das hipotecas a 30 anos chegou esta semana a 7%, cerca de um ponto percentual acima do nível anterior ao início da guerra com o Irão, e alcançou o valor mais alto desde que o presidente norte‑americano Donald Trump tomou posse em janeiro de 2025.
Por que obrigações e ações caem em simultâneo
O aspeto invulgar é que as obrigações deixaram de funcionar como refúgio seguro precisamente numa altura em que as ações vacilam.
“As obrigações e as ações estão a cair por causa da inflação”, afirmou Nick Saunders, presidente executivo da plataforma de investimento online Webull UK.
Choques energéticos e guerra empurraram os preços para cima enquanto o crescimento abrandou e, em circunstâncias normais, a queda das ações levaria os investidores para as obrigações. Desta vez, num contexto em que as taxas de juro não descem, “o tradicional ativo de refúgio” torna‑se menos apelativo.
Saunders recordou o início da década de 1970, quando uma combinação semelhante de choques energéticos e pressões salariais fez disparar as rendibilidades dos gilts britânicos enquanto as ações recuavam 73%, embora tenha sublinhado que, hoje, as economias são muito menos intensivas em petróleo e os mercados de trabalho têm mais margem para absorver uma inflação gradual.
Os títulos indexados à inflação, o ouro e outros ativos pouco correlacionados com as ações oferecem alguma proteção, referiu Saunders, embora “não faça sentido abandonar por completo as obrigações”.
A Oxford Economics tem uma visão mais calma deste movimento.
“Consideramos que o pico das taxas de juro será sobretudo temporário, refletindo em grande medida uma reavaliação das respostas de política monetária à forte subida dos preços da energia”, afirmaram os economistas‑chefes Ricardo Amaro e Daniel Kral. Acrescentaram que a maioria dos orçamentos públicos consegue acomodar taxas mais altas, dado o prazo médio longo da dívida.
No entanto, França e, em menor grau, Itália são exceções. Num cenário severo, ambos “teriam de apertar a política orçamental em mais de um ponto percentual do PIB para compensar subidas persistentes dos custos de juros”, referiram os economistas. Espanha, Grécia e Portugal estão em melhor posição para suportar esta pressão.