Um meio de comunicação espanhol garante, com documentos do Registo Comercial, que Maricarmen Abascal foi administradora de duas sociedades imobiliárias.
Maricarmen, a idosa despejada do seu apartamento no bairro de Retiro e que se tornou símbolo dos protestos pela habitação em Espanha, fez parte, durante a década de 1990, do conselho de administração de uma sociedade que investia em imóveis. Ou pelo menos é isso que afirma o jornal “OkDiario” numa peça que, à hora de publicação desta notícia, ninguém contestou ou desmentiu.
O meio assegura que se baseia numa certidão simples do Registo Mercantil e no documento de identidade da falecida. De acordo com esta documentação, María del Carmen Abacal Martín foi nomeada conselheira da Jinur S.A. em 1 de julho de 1994 e exerceu o cargo de vice‑secretária até o conselho aceitar a sua saída, um ano depois. A identificação assenta no nome e numa data de nascimento, 1938, que coincide com os 87 anos que tinha quando foi despejada.
A Jinur tinha como finalidade investir em imóveis para a posterior exploração em regime de arrendamento e partilhava domicílio, na rua Pradillo, em Madrid, com a Fieba S.A., uma sociedade anónima dedicada à aquisição, gestão patrimonial e arrendamento de bens imóveis. Nesta última, segundo o OkDiario (fonte em espanhol), foi mesmo administradora única durante vários anos.
O objeto social da Jinur também incluía investimentos em imóveis, exploração e arrendamentos, urbanização, loteamento de terrenos, etc.
O artigo não explica em momento algum o que fez, na prática, como vice‑secretária nem indica que tivesse ações ou propriedades.
O “OkDiario” utiliza estes dados para rebater a versão atribuída a uma entrevista do jornal “El País”, de 2024, na qual a mulher terá contado que trabalhou como secretária do conselho de uma empresa farmacêutica. Nenhuma das sociedades que o jornal passa em revista tem esse objeto social, segundo o próprio diário. É possível que tenha trabalhado noutra empresa em algum momento da vida, mas o texto não entra nesse detalhe.
Espanha: despejo com sentença do Tribunal Supremo
Nada disto altera os factos que efetivamente ocorreram. Os pais de Maricarmen assinaram em 1956 o contrato de renda antiga do apartamento de Sainz de Baranda, que passou para ela em 2005, quando a mãe morreu. O despejo acabou por ser executado a 23 de setembro, à quarta tentativa, com meio país nas ruas a protestar e com um litígio com a empresa gestora do apartamento, a Urbagestión, que chegou ao Tribunal Supremo e que, em 2024, deu razão à empresa.
Maricarmen acabou por morrer a 7 de outubro no hospital Gregorio Marañón, onde se encontrava internada desde o despejo. Apesar do acordo alcançado para que regressasse a casa, nunca chegou a voltar a abrir a porta do seu prédio.
Mas à custa do fervor criado em volta de Maricarmen, o governo espanhol lançou os decretos com o seu nome, para travar despejos e especulação e proteger os inquilinos, reproduzindo a narrativa de que se trataria de uma simples pensionista idosa, vítima dos fundos abutres.