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Líbano: ouro de 42,4 mil milhões de euros, tábua de salvação ou último recurso

Joalheiro libanês organiza ornamentos de ouro na montra da sua loja no bairro de Bourj Hammoud, em Beirute, Líbano, 2 de fevereiro de 2026. (Foto AP/Bilal Hussein)
Ourives libanês arruma adornos de ouro na montra da sua loja no bairro de Bourj Hammoud, em Beirute, Líbano, segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026. (Foto AP/Bilal Hussein) Direitos de autor  AP Photo
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De Euronews com AP
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Com a confiança nos bancos a evaporar-se, cidadãos correm a comprar moedas e joias, enquanto responsáveis discutem se devem libertar as vastas reservas do país.

Pequeno em território, o Líbano assenta sobre uma das maiores reservas de ouro do Médio Oriente e o governo pondera se pode recorrer a esse tesouro para reanimar uma economia paralisada, enquanto os cidadãos veem no ouro uma forma de proteger ativos já muito castigados.

A economia libanesa entrou em 2026 com inflação persistente, degradação do Estado e sem reformas à vista para combater a corrupção.

O sistema bancário colapsou no final de 2019, numa crise financeira que evaporou as poupanças dos depositantes e atirou cerca de metade da população de 6,5 milhões de habitantes para a pobreza, após décadas de corrupção generalizada, desperdício e má gestão.

O país acumulou perdas de cerca de 70 mil milhões de dólares (59,4 mil milhões de euros) no setor financeiro, agravadas por mais 11 mil milhões de dólares (9,3 mil milhões de euros) na guerra de 2024 entre Israel e o grupo xiita Hezbollah.

O preço do ouro disparou recentemente para um máximo histórico de 5 354 dólares (4 540 euros), antes de recuar para menos de 5 000 dólares (4 242 euros), movimento impulsionado pela instabilidade geopolítica e pelas dúvidas em torno da vontade do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de baixar as taxas de juro, o que acabaria por desvalorizar o dólar.

Os bancos centrais de todo o mundo têm estado entre os compradores mais ativos. Também os preços da prata dispararam, impulsionados pela procura industrial e pela atratividade de um metal muito mais barato do que o ouro.

O banco central do Líbano, em Beirute, mantém desde a década de 1960 uma reserva de 286 toneladas de ouro, cerca de nove milhões de onças. Só o banco central da Arábia Saudita detém mais ouro na região.

O governo estuda a possibilidade de usar parte destas reservas para resgatar os bancos e reembolsar depositantes que ficaram sem nada.

Uma decisão desse tipo iria contra o precedente histórico e violaria ainda uma lei aprovada na década de 1980.

Entretanto, muitos desses depositantes procuram compensar parte das perdas comprando ouro e prata, na esperança de que os preços recuperem da correção dos últimos dias e voltem a atingir novos máximos.

Ativo intocável do Líbano

Em determinado momento, o valor das reservas de ouro do Líbano chegou aos 50 mil milhões de dólares (42,4 mil milhões de euros), mais do dobro do próprio PIB libanês.

Depois de anos de crise económica e de resistência a reformas de fundo que tornem o país novamente viável, volta a colocar-se uma questão sensível: estará a chegar a altura de mexer nesta reserva de ouro?

Um alto responsável bancário disse à Associated Press que alguns bancos propõem recorrer às reservas de ouro para ajudar a reembolsar os depositantes que perderam dinheiro na crise cambial, na prática usando o único ativo público sólido do país para um resgate parcial da banca.

O responsável falou sob anonimato, como exigem os regulamentos.

Em 1986, em plena guerra civil, o Líbano proibiu a venda do seu ouro para proteger os ativos do Estado numa fase de extrema instabilidade.

As reservas nunca foram tocadas, nem após o fim da guerra civil de 15 anos, em 1990, nem depois das várias guerras com Israel.

Alguns economistas propõem utilizar uma pequena percentagem do ouro, em paralelo com reformas profundas, para reparar o debilitado setor da eletricidade ou dar novo fôlego aos sistemas de educação e de saúde públicos, em benefício da população.

Qualquer utilização das reservas teria de ser aprovada em votação no Parlamento. A medida é largamente impopular e não se espera que avance tão cedo, sobretudo a poucos meses de eleições legislativas.

Quando o tema do ouro foi levantado numa sessão na semana passada, o presidente do Parlamento, Nabih Berri, apressou-se a pôr fim à discussão. «Não é viável», afirmou secamente.

Um projeto de lei para colmatar a falha orçamental, que estabelece um quadro para compensar parte das perdas dos depositantes, está parado no Parlamento, enquanto continua o debate sobre quem deve suportar os prejuízos: os bancos, já muito fragilizados e pouco dispostos a assumir responsabilidades, ou um Estado endividado e gastador.

A maioria dos libaneses desconfia das autoridades, que durante anos adiaram reformas significativas para combater a corrupção, reduzir o desperdício e melhorar os serviços públicos. Face a esse historial, muitos defendem que o ouro deve permanecer intacto para as gerações futuras.

Atenuar o choque financeiro

Enquanto as autoridades discutem o futuro do ouro do país, muitos depositantes libaneses que perderam grande parte das suas poupanças nos bancos recorrem agora ao ouro e à prata para deter algo mais tangível, esperando até recuperar uma parcela das perdas.

Nos arredores norte de Beirute, filas de pessoas acumulavam-se recentemente à porta do principal negociante de metais do país, ansiosas por entrar e comprar moedas, medalhas e barras de ouro e prata.

Deixaram de confiar nos bancos e tentam sobreviver numa economia de numerário caótica, marcada por inflação descontrolada e sem reformas de fundo no horizonte.

«Para quem tenta compensar perdas, o ouro não é um porto seguro, é o único porto», afirma Chris Boghos, diretor-geral da Boghos SAL Precious Metals.

O negócio vai em alta: os clientes pagam antecipadamente para receber o metal meses depois, tal é a procura.

O Líbano tem uma história conturbada numa região volátil, com inúmeros conflitos e choques económicos, e pouca confiança de que os problemas estruturais venham a mudar.

«Sempre houve esta tendência dos libaneses para comprar ouro como proteção contra uma possível inflação, porque é um país que já passou por vários episódios de hiperinflação», explica Sami Zoughaib, economista no think tank de Beirute The Policy Initiative.

Zoughaib acrescenta que a transição é fácil, tendo em conta a longa tradição na região de o noivo ou a família oferecerem à noiva joias de ouro, como património próprio, mesmo entre famílias de baixos rendimentos.

Essa tradição mantém-se em grande medida, apesar de muitas mulheres terem entretanto entrado no mercado de trabalho.

À porta de um dos mercados de ouro de Beirute, Alia Shehade passeia diante das montras.

Diz que, como mulher, a coleção de joias de ouro a faz sentir-se mais segura em plena crise financeira, citando um ditado árabe que se traduz por «adorno e tesouro».

«Se uma mulher estiver numa situação difícil, pode vender o ouro. E quando o preço do ouro sobe, é ela quem ganha», afirma. Ainda assim, recusa vender qualquer peça.

Perante a relutância em vender ouro, tanto por parte dos cidadãos como das autoridades, Zoughaib comenta: «Isto mostra bem a importância que o ouro tem na psicologia das pessoas.

Nem conseguem imaginar outra utilização para além de servir de proteção», diz.

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