This content is not available in your region

Sete bancos russos de fora do sistema SWIFT. Dois escapam

Access to the comments Comentários
De  Jorge Liboreiro
Sete bancos russos de fora do sistema SWIFT. Dois escapam
Direitos de autor  Pavel Golovkin/Copyright 2022 The Associated Press. All rights reserved

À medida que a guerra se intensifica na Ucrânia, a União Europeia (UE) oficializou a lista de bancos russos que serão expulsos do SWIFT, o sistema de alta segurança que permite transações financeiras e sustenta a economia global.

Na mira da lista final estão sete bancos que se considera ter ligações estreitas com o regime do presidente russo Vladimir Putin e vistos como cúmplices, direta ou indiretamente, no financiamento da guerra contra a Ucrânia.

No entanto, a proibição exclui duas das maiores instituições bancárias do país, Sberbank e o Gazprombank.

Os dois bancos foram poupados porque lidam com a maior parte dos pagamentos relacionados com as exportações de gás e petróleo, de que a UE depende para produzir energia. Cerca de 40% do gás consumido pelo bloco comunitário vem da Rússia.

A decisão mostra que, embora a unidade da UE tenha sido consistentemente forte ao longo da crise, ainda esbarra em limites quando confrontada com a questão crucial do abastecimento de energia.

Os bancos expulsos do sistema SWIFT são o VTB Bank, o Bank Otkritie, o Novikombank, o Promsvyazbank, o Rossiya Bank e o Sovcombank, bem como o VEB, o banco de desenvolvimento da Rússia.

A lista foi adotada por unanimidade pelos Estados-membros, esta quarta-feira, e entrará em vigor dentro de dez dias, para permitir que o SWIFT e as empresas da UE se adaptem às medidas.

"A decisão de hoje de desligar os principais bancos russos da rede SWIFT enviará mais um sinal muito claro a Putin e ao Kremlin", sublinhou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em comunicado.

Como a SWIFT (Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais) é uma empresa sediada na Bélgica e, por isso mesmo, sujeita à lei da UE, as sanções significam que os sete bancos estarão completamente proibidos de usar o sistema para enviar mensagens de pagamento para qualquer outro banco ou instituição conectada ao SWIFT, em qualquer parte do mundo.

Atualmente, o sistema conecta mais de 11 mil instituições financeiras em mais de 200 países e territórios. Envia mais de 42 milhões de mensagens por dia que facilitam negócios domésticos e internacionais.

Apesar de o sistema ser, de longe, o principal intermediário para transações financeiras mundiais, não é o único.

Entre as alternativas contam-se o sistema CIPS da China, o SFMS da Índia e o SPFS da Rússia, bem como métodos mais rudimentares, como impostos e mensagens telefónicas, que consomem tempo e apresentam riscos de segurança.

Cerca de 50% dos bancos da Rússia estão conectados e usam o sistema SWIFT, enquanto outros contam com o sistema russo SPFS e outros instrumentos bilaterais.

Tudo ou nada

Os Estados-membros da União Europeia passaram os últimos dias a discutir que entidades incluir na lista negra do SWIFT e como minimizar o golpe económico sobre o bloco comunitário.

Durante as negociações, mais de metade dos Estados-membros queriam que o Sberbank e o Gazprombank, o primeiro e o terceiro maiores bancos da Rússia, fossem igualmente expulsos do sistema eletrónico, mas o consenso não pôde ser alcançado, porque algumas capitais manifestaram preocupação, de acordo com o que a Euronews apurou.

A seleção foi feita como uma questão de compromisso e em coordenação com os EUA e o Reino Unido. A lista negra será expandida, "a curto prazo", se a situação na Ucrânia se deteriorar ainda mais, ressalvou a Comissão Europeia.

Falando em condição de anonimato, uma fonte europeia disse que a a expulsão de bancos do sistema SWIFT é uma questão de tudo ou nada: a UE não pode pedir ao sistema que proíba certas transações financeiras enquanto poupa outras, como as que envolvem exportações de gás. Um banco é ou expulso ou integrado no SWIFT.

Isto significa que, por enquanto, os Estados-membros poderão continuar a comprar gás russo sem grandes interrupções, a menos que o Kremlin decida retaliar, cortando o fornecimento.

Um corte de energia infligiria grande dor aos consumidores e cidadãos europeus, mas também à própria economia da Rússia: o petróleo e gás representam 60% das exportações da Rússia, com mais de metade destinada à Europa.

O setor representa um terço da receita do orçamento federal.

A guerra já está a pressionar o mercado de gás: os preços estão novamente acima do limite dos cem megawatt-hora no Dutch Title Transfer Facility, a principal referência da Europa.

Embora extremamente elevado, o preço não é uma surpresa para os Estados-membros, que têm vindo a lidar com uma crise de energia persistente desde o final do verão, bem antes das tensões na fronteira com a Ucrânia começarem a aumentar.

"Uma medida sem entusiasmo"

Os efeitos da expulsão do SWIFT, agravados por outras sanções financeiras aplicadas à Rússia, serão sentidos pela primeira vez pelos bancos russos e os respetivos clientes.

O valor do rublo caiu para o nível mais baixo de todos os tempos, os custos dos empréstimos dispararam e o mercado de ações continua fechado para evitar um colapso total.

Paralelamente, os cidadãos russos fazem fila em frente a caixas multibanco numa tentativa desesperada de recuperar as economias antes que sejam congeladas ou desapareçam, à medida que a ameaça de hiperinflação está cada vez mais presente.

Mas poupar o Sberbank e o Gazpromban da lista final de entidades bancárias excluídas do sistema SWIFT pode prejudicar o impacto da proibição do mesmo. Os números de 2021 mostraram que os dois bancos tinham ativos no valor de 37,50 biliões e 7,53 biliões em rublos, respetivamente.

Em comparação, os bancos penalizados possuem muito menos, exceto o VTB, que é o segundo maior banco do país, com 18,59 biliões de rublos. Com exceção do VEB, que é um banco de desenvolvimento, as seis instituições expulsas representam apenas 25% do sistema bancário russo, disse um alto funcionário da UE.

As medidas também devem atingir a economia da UE, atendendo aos consideráveis ​​fluxos comerciais com a Rússia, mas o alcance dos danos ainda não está claro e pode ser "limitado" e "gerível", disse Niclas Poitiers, investigador do Instituto Bruegel, um think tank de Bruxelas.

"Fiquei surpreso com o fato de a lista não ser maior. Comparada a outras sanções, parece uma medida tímida", disse Poitiers, em entrevista à Euronews. "Não tenho certeza para que propósitos é que isso serve".

Na prática, as sanções podem ser fáceis de contornar porque os operadores podem simplesmente mudar as contas para um banco que não foi sancionado, ressalvou Poitiers.

A proibição do SWIFT surge na sequência de uma longa série de sanções financeiras que a UE e os respetivos aliados aplicaram rapidamente à Rússia com o objetivo de paralisar a máquina de guerra do Estado.

As medidas adicionais incluem, entre outras coisas, o congelamento das reservas estrangeiras detidas pelo Banco Central da Rússia, o corte do acesso russo aos mercados de capitais da UE e a proibição de fornecer notas de euros.

Algumas das sanções também afetarão o Sberbank e o Gazprombank. No conjunto, a Comissão Europeia diz que as medidas terão como alvo entre 70% a 80% do sistema bancário russo.