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Exército europeu de “elfos” combate desinformação russa

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De  euronews
Protesto contra a invasão da Ucrânia em Vilnius, a 24 de fevereiro de 2022
Protesto contra a invasão da Ucrânia em Vilnius, a 24 de fevereiro de 2022   -   Direitos de autor  AP Photo/Mindaugas Kulbis

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, pela primeira vez, em 2014, um grupo de voluntários da Lituânia decidiu que era altura de começar a combater a campanha de desinformação de Moscovo.

O grupo chama-se “Os elfos”, uma referência às simpáticas criaturas míticas com poderes mágicos. Os nomes reais dos membros não são usados online para impedir que os trolls russos os localizem facilmente.

Segundo o líder do grupo, The Hawk (O Falcão), a Lituânia, antigo estado soviético que se tornou independente há cerca de 30 anos, é particularmente vulnerável à máquina de desinformação do Kremlin. 

O país de menos de três milhões de habitantes aderiu à UE e à NATO em 2004, o que lhe permitiu proteger-se melhor da influência política e militar da Rússia. Mas a guerra de 2014 na Ucrânia desencadeou uma investida de desinformação sem precedentes contra os países que não cumpriram a linha de Moscovo.

"Tivemos a sensação de que muitos trolls começaram a trabalhar contra a Lituânia e a espalhar as mentiras habituais: A NATO é um ocupante, a União Europeia é um projeto falhado, e a Lituânia é um país falhado", contou The Hawk à euronews.

Voluntários de vários países europeus

Os "Elfos" são voluntários não remunerados. Podem ser contabilistas, especialistas em comunicação ou tecnologias. Nos tempos livres, desenvolvem uma estratégia para combater a ameaça russa. Operam em quase uma dúzia de países na Europa. Monitorizam perfis falsos e páginas pró-Kremlin nos meios de comunicação social, em particular nas redes sociais, e desmascaram a desinformação através de explicações simples e memes.

O objetivo é conter os esforços concertados dos trolls russos para contaminar o mundo online ou, pelo menos, minimizar a influência desses grupos. O conteúdo deve ser simples, com informações acessíveis e facilmente compreensíveis.

"Fazemo-lo a um nível que seja compreensível para a média das pessoas. Tentamos explicar o que é a desinformação. Lutamos contra os trolls tóxicos, tentamos tirá-los das redes sociais, de forma organizada", contou The Hawk.

Uma das técnicas usadas pelos trolls é a denúncia em massa de certos conteúdos para que as contas dos utilizadores visados fiquem bloqueadas. Uma estratégia que permitiu encerrar contas de jornalistas e de ativistas da liberdade de expressão. Um caso famoso é o da jornalista finlandesa Jessikka Aro, que se tornou vítima da atividade dos trolls enquanto relatava e documentava os esforços de desinformação russos.

Os "Elfos" usam todas as ferramentas que possuem para combater a desinformação.  The Hawk considera que o mais importante é a verdade e que não há regras estabelecidas sobre a forma como a verdade deve ser divulgada.

O combate contra a desinformação

Desde o início da guerra, os Elfos lituanos participaram ativamente em ataques DDOS contra instituições estatais russas e bielorrussas.

Os ataques, que também contaram com a participação do Anonymous, um grupo de ativistas de pirataria informática, bloqueram o acesso aos sites de bancos privados, de canais de informação como a estação de televisão Russia Today e a agência Sputnik e do Ministério da Defesa russo, durante dias a fio.

De acordo com The Hawk, a luta que decorre online é uma forma de "apoiar os nossos irmãos na Ucrânia".

"É uma motivação adicional: divulgar informação sobre o que realmente se está a passar, e de alguma forma chegar à Rússia, para informar o povo russo de que esta guerra é uma verdadeira guerra, não é uma 'operação especial' sangrenta", disse o responsável.

Mas a tarefa não é simples. É uma luta diária na Lituânia e nos 11 países onde os "Elfos" marcam presença.

Desde que a invasão russa começou, a 24 de Fevereiro, o que antes era uma mensagem cuidadosamente elaborada a partir de Moscovo, transformou-se numa distorção total de factos e na criação de teorias da conspiração.

"Agora estão a espalhar mentiras absolutamente loucas. Nem sequer estão fazê-lo de uma forma profissional, é apenas uma desinformação absolutamente selvagem", declarou The Hawk.

"Eles estão bastante desorganizados e bastante desesperados. Mas isso não significa que não sejam agressivos. Continuam a investir muito dinheiro em desinformação e nos ciberataques também".

Heróis anónimos

A agressividade e a sensação de perigo asociada à missão que estão a desempenhar são as principais razões pelas quais os membros do grupo usam um pseudónimo.

Mesmo aqueles que estão fora dos círculos dos Elfos, como Dmitri Teperik, chefe executivo do Centro Internacional de Defesa e Segurança em Talin, foram confrontados com a agressividade de vozes pró-russas.

"Lembro-me de 2014, quando a Crimeia foi ocupada pela Rússia e a guerra no Donbass começou. Contratámos muitos ativistas civis na Estónia para apoiar a Ucrânia, e também tentámos eliminar a propaganda russa das nossas redes de comunicação social", recordou Teperik.

"Eu e os meus colegas fomos imediatamente intimidados, verbalmente atacados e rotulados de fascistas por procuradores pró-Kremlin e outros agentes de influência. A ameaça é real.  O melhor que podemos fazer é sermos muito cautelosos e identificar os trolls entre nós, para saber quais são as suas atividades e objetivos", acrescentou o responsável.

Enquanto na Lituânia os "Elfos" estão mais virados para o combate contra as fontes de desinformação, as pessoas da Estónia que lutam contra a propaganda do Kremlin estão empenhadas em compreender e aproximar-se das pessoas vistas como "informalmente vulneráveis".

"Na Estónia, prestamos sobretudo atenção aos grupos dentro da nossa sociedade cujos padrões de consumo dos meios de comunicação social são diferentes da corrente dominante, por vezes, são as comunidades russas locais, mas durante a crise da pandemia, houve também os ativistas anti-vacinação, por exemplo", explicou Teperik.

"Ainda há uma esperança ingénua entre os ocidentais"

A Estónia também partilha uma fronteira com a Rússia, e durante décadas, desde a independência do país, muitos sentiram que estavam sob ameaça direta de Moscovo.

O interesse global desencadeado pela última invasão da Ucrânia deu legitimidade a quem tem vindo a alertar o resto do continente e o mundo inteiro sobre o perigo que representa Vladimir Putin.

"Agora vemos que há uma maior compreensão da agressividade da Rússia, mas ainda há uma espécie de esperança ingénua entre os políticos ocidentais na Alemanha, na França e nos EUA de que talvez Putin possa ser convencido a afastar-se da Ucrânia e que seja possível retomar os negócios como antes", acrescentou o responsável.

"A decisão muito dura deve ser tomada já, agora, para garantir a segurança da União Europeia e da NATO, mas também para ajudar países como a Ucrânia, a Moldávia ou a Geórgia a não serem atacados pela Rússia agressiva", concluiu Teperik.