Os ministros dos Negócios Estrangeiros do Grupo dos Sete condicionaram a missão de proteger o Estreito de Ormuz à cessação das hostilidades no Médio Oriente.
O G7 concordou em proteger a passagem pelo Estreito de Ormuz, uma rota crítica para as exportações de energia, mas apenas após o fim da guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão.
Este compromisso conjunto dos ministros dos Negócios Estrangeiros surge num momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, está a aumentar a pressão sobre os países europeus para ajudarem a proteger a via navegável que, desde o início das hostilidades há quase um mês, Teerão manteve praticamente fechada.
"Há um consenso muito alargado na comunidade internacional para preservar o bem comum que é a liberdade de navegação", afirmou Jean-Noël Barrot, ministro dos Negócios Estrangeiros francês, no final da reunião do G7, da qual foi anfitrião.
"Está fora de questão viver num mundo em que as águas internacionais estão fechadas à navegação, especialmente no contexto de conflitos que não dizem respeito aos países que dependem desta navegação para continuarem a existir."
Barrot acrescentou ainda que uma missão internacional de escolta de navios atuará "assim que a calma for restabelecida" e "numa postura estritamente defensiva", de acordo com o direito internacional.
"De uma forma ou de outra, isso acontecerá necessariamente", disse, evocando o direito do mar.
"A cada dia que passa, a situação agrava-se devido à falta de tráfego marítimo do Golfo Pérsico para o resto do mundo".
Trump tem criticado repetidamente os países europeus e a NATO por se recusarem a criar uma missão marítima ao largo de Ormuz, o que implicaria riscos elevados para todos os exércitos envolvidos.
"Estou muito desiludido com a NATO, porque isto foi um teste para a NATO. Foi um teste. Podem ajudar-nos", disse na quinta-feira. "Vamos lembrar-nos disto."
Antes de partir para a reunião em França, o secretário de Estado, Marco Rubio, insinuou que, devido à recusa da Europa em participar, a Casa Branca poderia abandonar os esforços para pôr fim à invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, num comentário entendido como uma ameaça de retaliação.
"A Ucrânia não é uma guerra dos Estados Unidos da América e, no entanto, contribuímos mais para essa luta do que qualquer outro país do mundo. Por isso, será algo a examinar que o presidente terá de ter em conta no futuro", afirmou Rubio.
A temperatura arrefeceu quando Rubio se juntou aos seus homólogos na abadia de Vaux-de-Cernay, nos arredores de Paris, numa reunião dominada pela situação no Médio Oriente.
O responsável norte-americano esclareceu que os EUA estavam a pedir aos aliados que preparassem a missão multinacional para o dia seguinte à guerra, e não para uma intervenção imediata no meio de um conflito violento. Rubio afirmou que a sua mensagem foi bem recebida durante as conversações.
"Sempre a encarámos como uma necessidade pós-conflito", declarou Rubio à saída.
"Os primeiros petroleiros que atravessarem o estreito após o fim da operação vão querer uma escolta ou não conseguirão obter seguro", acrescentou, avisando que Teerão poderá impor um encerramento permanente após o fim das hostilidades.
"É bom que o mundo dê um passo em frente e faça alguma coisa. Especialmente os países que mais dependem do estreito: países ricos, países poderosos, países capazes."
Johann Wadephul, ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, avaliou positivamente as discussões, afirmando que o ambiente na sala era "de trabalho".
"A Alemanha está certamente disposta a desempenhar um papel após o fim das hostilidades no que respeita a garantir a segurança da navegação no Estreito de Ormuz", afirmou Wadephul. "O meu objetivo aqui é garantir que alargamos a base comum que partilhamos nesta disputa."
Mais de 30 países de todo o mundo, incluindo Portugal, Alemanha, o Reino Unido, a França, a Itália, o Canadá e o Japão, subscreveram uma declaração onde expressam a sua "disponibilidade para contribuir para os esforços adequados para garantir uma passagem segura" através de Ormuz.
O texto não especifica como e quando esta disponibilidade para atuar se concretizará na prática.
A secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Yvette Cooper, afirmou que se trataria de uma "ação defensiva" para garantir "a proteção da navegação internacional" em termos mais gerais.
"O Irão não pode manter a economia mundial refém", afirmou Cooper na sexta-feira de manhã. "Precisamos de proteger a nossa economia global de países que querem transformar a nossa economia numa arma contra nós".
Uma operação de alto risco com poucas garantias
Em condições normais, o Estreito de Ormuz é uma passagem crítica que transporta um quinto do abastecimento mundial de petróleo e gás. A sua geografia é complexa, com águas pouco profundas e terreno elevado, o que favorece as táticas de guerra do Irão, incluindo o uso de mísseis e drones. Os navios que se atrevem a atravessá-lo enfrentam múltiplos riscos que nem os proprietários nem as seguradoras estão dispostos a aceitar.
Os europeus opõem-se amplamente à tentativa de proteger o estreito no meio de um conflito armado, temendo ser arrastados para um confronto imprevisível. Os cidadãos europeus são altamente contrários a ataques americano-israelitas ao Irão, o que dissuade ainda mais qualquer governo de empenhar meios militares numa operação cujo sucesso está longe de ser certo.
Além disso, o continente ainda está a recuperar da tentativa de Trump de confiscar a Gronelândia à Dinamarca no início deste ano, o que quase fez colapsar a solidariedade da NATO.
A decisão da Casa Branca de aliviar as sanções ao petróleo russo transportado por via marítima, numa tentativa de acalmar os mercados agitados, aumentou o desânimo.
Ao chegar a França, a alta representante, Kaja Kallas, salientou o fator russo que une as guerras no Irão e na Ucrânia. Moscovo está alegadamente a fornecer ao seu aliado Teerão drones e serviços de informação para ajudar a atingir os bens americanos.
"Estas guerras estão muito interligadas", afirmou Kallas na quinta-feira. "Se os Estados Unidos da América querem que a guerra no Médio Oriente acabe, que o Irão deixe de os atacar, devem também pressionar a Rússia, para que esta não os possa ajudar neste processo".
Rubio disse mais tarde aos jornalistas que o abrandamento das sanções não representa uma mudança "permanente" na política dos EUA. Mas alertou para o facto de as armas de fabrico americano atribuídas à Ucrânia poderem ser desviadas "se tivermos necessidade de reabastecer os nossos stocks".
"Vamos estar sempre em primeiro lugar", afirmou.
A necessidade de diplomacia foi um tema proeminente na sexta-feira, com os ministros dos Negócios Estrangeiros a instar as partes beligerantes a negociar uma saída para o conflito, que se está a alargar e deixou os mercados energéticos em desordem.
Embora a Europa não dependa do petróleo e do gás do Médio Oriente tanto quanto a Ásia, os efeitos em cascata desencadeados pelo conflito podem infligir um verdadeiro sofrimento ao continente.
Na sexta-feira, o preço do petróleo Brent voltou a subir para 110 dólares por barril, enquanto o TTF, o principal centro de gás da Europa, rondou os 54 euros por megawatt-hora (MWh).
Num encontro à parte, o comissário europeu para a Economia, Valdis Dombrovskis, alertou que um conflito prolongado poderia mergulhar a economia europeia num cenário de estagflação, afetar negativamente o crescimento em 0,4 pontos percentuais e provocar um aumento da inflação em um ponto percentual.
No domingo passado, Trump deu 48 horas ao Irão para reabrir a via navegável, ameaçando atacar as infraestruturas energéticas do país caso contrário. Mas, na quinta-feira, prorrogou o prazo por 10 dias, alegadamente em resposta a um pedido do governo iraniano.
Entretanto, Teerão disse às Nações Unidas que garantiria a passagem segura a navios "não hostis". A oferta, no entanto, pouco serviu para convencer os navios desconfiados.