A ministra palestiniana dos Negócios Estrangeiros disse à Euronews que Israel, como potência ocupante, devia proteger os palestinianos na Cisjordânia mas apoia a violência dos colonos, e que a guerra com o Irão marginalizou ainda mais a aspiração a um Estado palestiniano.
Israel não faz o suficiente para proteger os palestinianos da violência de colonos e chega mesmo a apoiá-la, disse a ministra palestiniana dos Negócios Estrangeiros à Euronews.
"Os colonos contam com um forte apoio das forças de ocupação israelitas, que têm a obrigação de proteger a população ocupada", afirmou Varsen Aghabekian Shahin ao programa de entrevistas da Euronews 12 Minutes With.
"Mas o que vemos é que ou ficam a olhar e nada fazem, ou participam diretamente nos próprios ataques terroristas, e isso tem de parar. É muito grave", disse Aghabekian.
A violência de colonos judeus contra palestinianos na Cisjordânia disparou desde os atentados terroristas de outubro de 2023, liderados pelo Hamas, no sul de Israel, com um aumento assinalável desde o início da guerra com o Irão e da ofensiva israelita no Líbano, segundo a ONU (fonte em inglês).
No mês passado, num gesto inesperado, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, deu instruções ao exército e à polícia para travarem os "crimes nacionalistas" na Cisjordânia.
Em paralelo, o chefe do Estado-Maior do exército israelita retirou um batalhão do Líbano para o destacar na Cisjordânia, qualificando as ações dos colonos judeus como "moral e eticamente inaceitáveis".
Elementos radicais do movimento de colonos judeus sentem-se encorajados pela presença de políticos de linha dura no governo israelita, como o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir.
Mesmo a administração dos Estados Unidos, habitualmente silenciosa sobre a rápida expansão dos colonatos sob Netanyahu, afirmou estar "preocupada", nas palavras do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, numa cimeira do G7 no fim de março.
Questionada sobre se tinha notado melhorias no terreno após o anúncio de Israel de que iria combater a violência dos colonos, Aghabekian afirmou que a medida era necessária, mas insuficiente, "porque é preciso mudar a política".
"A política serve-se dos colonos para semear o terror entre os palestinianos. Isso tem de mudar. Não chega falar sobre o assunto, não chega chamá-los terroristas. O que precisamos é de ver ações concretas no terreno para travar o que estes colonos terroristas estão a fazer", explicou Aghabekian.
Cerca de 700 mil colonos vivem na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, a par de 3,8 milhões de palestinianos que esperam ali criar um futuro Estado. Ambos os territórios são considerados ocupados ilegalmente à luz do direito internacional, embora Israel conteste essa qualificação.
Pena de morte é "ilegal" e "discriminatória"
Sobre a decisão de Israel, no final do mês passado, de repor a pena de morte para autores de atentados terroristas mortais contra cidadãos judeus, medida que na prática visa os palestinianos sem os mencionar, a ministra palestiniana afirmou: "Faz parte de uma política sistemática de apagamento do outro."
"E esta lei não tem qualquer fundamento jurídico. É profundamente discriminatória, porque se aplica aos palestinianos e apenas aos palestinianos", explicou Aghabekian.
Aghabekian acrescentou que os palestinianos que cometem crimes violentos devem ser julgados no contexto da ocupação israelita dos territórios palestinianos.
"O nosso povo é morto há décadas, quer dizer, temos sido sujeitos à pena de morte pelos israelitas há décadas", afirmou.
"Os assassínios extrajudiciais nas nossas ruas continuam. O que é preciso é olhar para a ocupação e para as causas profundas desta ocupação e ver de que direitos dispõem as pessoas sob ocupação."
A pena de morte "é algo que foi abolido em todo o mundo e a sua reposição, hoje em dia, deve ser posta em causa e contestada", acrescentou.
Irão: palestinianos sofrem com a guerra
Segundo Aghabekian, um dos efeitos colaterais da guerra com o Irão tem sido a marginalização da questão palestiniana e das aspirações a um Estado próprio. As negociações formais de paz israelo-palestinianas terminaram em 2014.
Netanyahu opõe-se firmemente à criação de um Estado palestiniano. O governo dos Estados Unidos, liderado pelo Presidente Donald Trump, através do recém-criado Conselho de Paz, dá prioridade à reconstrução e governação de Gaza, sem garantia de um Estado palestiniano no futuro.
No entanto, Trump afirmou que não permitirá que Israel anexe a Cisjordânia.
Os palestinianos sofrem também o peso económico do conflito, tanto mais que Israel, lembrou Aghabekian, está a reter os impostos indiretos e direitos aduaneiros que cobra em nome da Autoridade Palestiniana (AP) ao abrigo do chamado Protocolo de Paris de 1994.
Israel não transfere quaisquer receitas fiscais para a AP desde maio de 2025, segundo o Banco Mundial, o que paralisa a capacidade do governo palestiniano para prestar serviços e pagar salários públicos. Estas receitas são a principal fonte de financiamento da AP.
Aghabekian disse à Euronews que há "milhares de milhões de shekels parados em bancos israelitas", o equivalente a 4,5 mil milhões de dólares (3,8 mil milhões), segundo a AP.
"Hoje, a Autoridade Palestiniana é incapaz de satisfazer as necessidades básicas da população. Se falarmos de educação, cuidados de saúde, água, eletricidade, estamos a atravessar tempos muito, muito difíceis", disse Aghabekian.
O ministro israelita das Finanças, Smotrich, supervisiona estas transferências e declarou que estão a ser retidas como medida punitiva porque a AP "incentiva o terrorismo" ao compensar as famílias de prisioneiros, incluindo os que atacaram e mataram israelitas.