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Maternidade adiada, poucos filhos e população envelhecida: o retrato das famílias em Portugal

Uma família a olhar para o horizonte
Uma família a olhar para o horizonte Direitos de autor  Fotografia de Mike Scheid na Unsplash
Direitos de autor Fotografia de Mike Scheid na Unsplash
De Ema Gil Pires
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No Dia Internacional da Família, a Euronews detalha alguns dos principais desafios que se colocam aos agregados familiares portugueses, fruto de um envelhecimento da população motivado, também, por baixos níveis de natalidade.

A tendência é generalizável a outros países da União Europeia, mas em Portugal é particularmente expressiva: as famílias têm poucos filhos hoje em dia, fator que contribui para um envelhecimento da população que se tem vindo a acentuar, também, devido a níveis mais baixos de mortalidade do que em épocas anteriores.

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Segundo dados do Eurostat citados num estudo realizado por Luísa Loura, diretora da base de estatísticas Pordata, intitulado De Portugal para a Europa –Visão Geral da Crise de Natalidade e Consequências do Inverno Demográfico, a taxa de fecundidade em Portugal fixava-se em 1,41 em 2024, abaixo dos 3,16 registados em 1960. Em causa está, portanto, o número médio de filhos tidos por uma mulher ao longo da sua idade reprodutiva.

Em declarações à Euronews, a investigadora detalhou que isso significa que, se há mais de 50 anos "apenas 5% das mulheres não tinham filhos", atualmente a percentagem ronda os 25%, já que "uma em cada quatro mulheres não tem filhos nem virá a ter", se o atual "padrão de fertilidade não se alterar". Adicionalmente, "um terço" das mulheres "terá apenas um filho", com base nos indicadores mais recentes.

Contas feitas, "mais de metade" destas "terão, no máximo, um filho" - incluindo-se aqui aquelas que não terão descendência -, elucidou Luísa Loura, que é também docente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Uma realidade que não difere da registada na globalidade da União Europeia, onde "a tendência recente é de uma forte diminuição da taxa de fecundidade", na sequência de um "período de estabilização entre 2008 e 2020". De acordo com a análise de Luísa Loura, com base em dados do Eurostat, a taxa de fecundidade na UE fixava-se em 1,53 em 2020, tendo baixado para 1,34 em 2024. Mas o facto é que, durante a última década, Portugal tem figurado sempre entre os países com fecundidade mais baixa.

Números que permitem concluir que, atualmente, "nenhum país da União Europeia tem assegurada a substituição de gerações", explica, por sua vez, Maria João Valente Rosa, demógrafa e investigadora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH).

"Para que a substituição de gerações esteja assegurada, ou seja, para que cada mulher no período fértil garanta uma futura mãe, é preciso que, em média, essas mesmas, no final do período fértil, tenham 2,1 filhos". Algo que não está a acontecer na Europa, mas também "em larga parte do planeta Terra", com a exceção de alguns casos, em particular, de "regiões menos desenvolvidas", aponta a especialista.

"A questão em Portugal está na transição para o segundo filho"

O caso português conta ainda, nas palavras de Maria João Valente Rosa, com "uma especificidade". É que "comparativamente a outros países do norte da Europa, a maioria da população em período fértil até gostaria de ter filhos, homens e mulheres". E facto é que, segundo mostram os dados citados anteriormente, acabam mesmo "por ter o primeiro". Porém, "a questão em Portugal está na transição para o segundo filho".

Se "em outros países da Europa existem muito mais pessoas que não querem, de todo, ter filhos", regista-se também que "aquelas que querem" acabam frequentemente por transitar "para o segundo e para o terceiro".

Já em Portugal, é muito comum um indivíduo "realizar-se com o primeiro filho", de um modo contrastante. "Porque, muitas vezes, nas escolas e nas creches o apoio à primeira infância não é como seria desejável", o que faz com que muitos pais se questionem sobre onde vão "deixar o filho se os avós não estiverem por perto".

E é por isso que um maior apoio à primeira infância "poderá ajudar alguns casais que estão a adiar o seu projeto de parentalidade", de modo a que "não tenham que adiar tanto", ou até mesmo a expandi-lo, em alguns casos.

Segundo o Censos 2021, divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), os casais sem filhos equivaliam, à data, a cerca de 25% dos agregados domésticos privados em Portugal, exibindo uma trajetória crescente, salientou a docente da FSCH-NOVA. Uma tendência inversa registava-se ao nível dos casais com filhos, que correspondiam a 32% do total de agregados. Isto numa altura em que 28% eram agregados sem núcleo, 12% eram famílias monoparentais e 3% eram famílias com dois ou mais núcleos.

O contributo da imigração

Apesar de tudo, o estudo realizado por Luísa Loura conclui que a "**tendência na última década é de aumento", depois de atingida "**a taxa de fecundidade mínima em 2013". É que "o índice [média de filhos por mulher], neste momento, está em 1,34, mas já esteve em 1,21". Algo que também pode ser explicado pela imigração, na medida em que as populações que têm chegado ao país têm, habitualmente, "mais filhos do que quem já está em Portugal".

Também a investigadora Maria João Valente Rosa sublinhou que as mulheres de naturalidade estrangeira "têm contribuído de uma forma muitíssimo interessante para os nascimentos em Portugal". De facto, dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que o número de nascimentos em Portugal aumentou 3,7% em 2025, para 87.764 crianças, sendo que aproximadamente um terço dessas são filhos de mães estrangeiras. De uma forma mais detalhada, isto significa que tal já corresponde a "35% dos nascimentos ocorridos em Portugal".

Houve apenas um "ligeiro aumento dos nascimentos entre 2024 e 2025", elaborou a demógrafa, mas que teria sido "muito mais ligeiro, ou praticamente inexistente, se só contássemos com mães de naturalidade portuguesa". De facto, as mães de naturalidade portuguesa foram responsáveis por 56.691 nascimentos em 2024 e por pouco mais - 56.804 - no ano seguinte, citou a investigadora. "Estamos a falar praticamente da mesma ordem de grandeza."

Dados que permitem concluir que, em Portugal, "dependemos cada vez mais de pessoas com uma naturalidade diferente da portuguesa para termos alguma 'folga' no que diz respeito aos nascimentos". Mas essa "realidade não é apenas referente ao país", estando aliás "espelhada pelos países da Europa".

"A Europa está cada vez mais dependente das migrações positivas [mais entradas do que saídas] para ter alguma dinâmica demográfica [...]. Os nascimentos, se aumentam na Europa neste momento, são essencialmente devidos a populações imigrantes", referiu também.

A especialista faz, no entanto, uma ressalva: naquilo que é esta tendência recente de nascimentos, "não se sabe se os pais têm naturalidade estrangeira ou não"; apenas se sabe a origem das mães. Em causa estão, portanto, "dados que não nos podem fechar em caixas, como se não houvesse aqui cruzamento" entre pessoas de diferentes naturalidades, já que "muitas vezes os pais nasceram aqui", neste caso, em Portugal.

Mulheres esperam mais tempo para ter o primeiro filho

O estudo De Portugal para a Europa –Visão Geral da Crise de Natalidade e Consequências do Inverno Demográfico salientou ainda, com base em dados do Eurostat referentes a 2024, que nesse ano "Portugal fazia parte do grupo de 10 Estados-membros onde a idade média das mães ao primeiro filho já tinha ultrapassado os 30 anos".

O país figurava, à data, "na oitava posição" da tabela das nações europeias nas quais as mulheres mais adiavam o primeiro filho, elaborou Luísa Loura. "Itália está no topo", sendo o Estado-membro com a idade média mais avançada. "Depois, Luxemburgo, Espanha, Irlanda, Grécia, Países Baixos, Dinamarca e Portugal".

E por que é que isso acontece? Porque, hoje em dia, "as pessoas ponderam muito [a hipótese de] ter um filho, porque têm de ter assegurados uma série de fatores", como "ter uma habitação com um mínimo de condições" e preocupações relativas "à primeira infância" dos seus descendentes, acrescentou Maria João Valente Rosa.

Mas facto é que Portugal está "muito em linha, do ponto de vista da fecundidade, com os outros países da União Europeia". Portanto, justificou a especialista, se a adoção de medidas para combater o custo de vida fosse a forma de combater a baixa natalidade, "todos os países que andam preocupados com a fecundidade tinham já lançado programas especialíssimos para apoiar o nascimento das crianças". Por outras palavras, defendeu, "o dinheiro é uma parte da equação, mas não é a solução".

A demógrafa sustentou, desta forma, que a "estabilidade no emprego" é "mais importante ainda" do que esta dimensão, com "a conciliação de tempos" entre as dinâmicas pessoais e profissionais a ser motivo de reflexão acrescida por parte dos futuros pais.

Já a investigadora Luísa Loura disse acreditar que, numa tentativa de inverter esta tendência de baixa fecundidade, o caminho poderá eventualmente passar por "incentivos diretos à natalidade", mas especialmente por "incentivos ao nível do mercado de trabalho".

Por outras palavras, tal deverá passar por dar "mais condições para as mulheres terem filhos sem que sejam prejudicadas na carreira", combatendo um "desequilíbrio na perceção" entre géneros neste campo, porque esse é precisamente um fator que acaba por condicionar essa decisão, indicou.

Igualdade entre géneros e "paridade de responsabilidades"

Segundo elaborou a diretora da Pordata, Luísa Loura, como a "economia, hoje em dia, precisa de toda a gente", é por isso que "o mercado de trabalho faz pressão" para contar também com a participação das mulheres. Sendo que, para as próprias trabalhadoras, o facto de estarem inseridas no meio profissional também as dota de "uma independência" que não tinham há décadas.

"[No passado], para comprar qualquer coisa, tinham de pedir autorização ao marido. Nenhuma mulher, hoje em dia, vai querer voltar a passar por isso, tanto em países mais pobres como nos ricos", explicou Luísa Loura. Só que "independentemente de tudo isso, o esforço, o número de horas disponíveis para tomar conta e calcular a logística dos filhos, pesa sempre muito mais sobre a mulher do que sobre o homem", o que acaba por levar as mulheres "a adiar cada vez mais" a maternidade.

E ao protelar-se cada vez mais essa decisão, "a probabilidade de engravidarem também diminui", já que a "fertilidade diminui muito com a idade". O que acaba também por fazer com que, em última análise, "as pessoas acabem por ter menos filhos", acrescentou a investigadora Luísa Loura.

No que diz respeito a esta maior presença do sexo feminino no mercado laboral, comparativamente a outros períodos históricos, isso aconteceu "não apenas porque era preciso completar o rendimento familiar", como no passado, mas essencialmente porque as mulheres "têm ambições de carreira" e "afirmaram-se do ponto de vista público", elaborou Maria João Valente Rosa.

No entanto, defendeu que essa transição não foi devidamente acompanhada pelo sexo oposto: "Eu costumo dizer que as mulheres entraram em força no espaço público, mas os homens não entraram com a mesma força no espaço privado".

E se a evidência científica aponta que "a experiência do primeiro filho é particularmente penalizadora para ambos, para o pai e para a mãe, porque o apoio à primeira infância é escasso", facto é que "as mulheres ficam particularmente penalizadas" no mercado laboral "quando têm um filho". Já que, perante situações de "incompatibilidade", são elas que, na grande maioria dos casos, acabam por ter de priorizar as responsabilidades familiares, lembra ainda a demógrafa.

Sendo, por isso, necessário fomentar uma "igualização entre os papéis do homem e da mulher dentro da esfera doméstica" para colmatar esta que é ainda uma realidade, numa missão que deve começar "nas escolas", para "trabalhar as gerações futuras numa ótica de partilha de responsabilidades".

Alterações climáticas e instabilidade global

Mas num contexto cada vez mais marcado pelas consequências das alterações climáticas e das tensões geopolíticas globais, muitos são aqueles que "não querem ter filhos" também por esses motivos, elucidou a investigadora Maria João Valente Rosa.

"Quando pensamos em ter um filho, pensamos no seu futuro [...]. E há estudos que revelam que os medos em relação ao futuro do planeta, e quando falo do futuro do planeta, falo também do clima, das guerras e da instabilidade, muitas vezes, fazem com que as pessoas desistam do projeto" e optem por dar prioridade a outros "projetos ou causas sociais", descartando a possibilidade de serem pais, elaborou.

E concluiu com um exemplo: "Na Finlândia, que se diz que é um dos países mais felizes do mundo, os níveis de fecundidade estão bastante baixos, caíram de um momento para o outro. E parte da explicação, do que se sabe neste momento, tem a ver precisamente com esse fator das alterações climáticas e dos problemas decorrentes de um excesso eventual de população".

Uma população em envelhecimento

Perante estes factos, a investigadora da NOVA FCSH concluiu que o envelhecimento populacional, "em Portugal e em outros países", é um dado adquirido "pelo menos a médio prazo". E "não só" porque os "níveis de fecundidade são baixos" e "nascem poucas crianças, muito menos que no passado": se nos anos 60 "nasciam, em média, cerca de 200 mil crianças por ano, hoje o valor já está abaixo das 90 mil crianças por ano", como constatado anteriormente. Mas "associado a isto" está o facto de, atualmente, "a mortalidade ser baixa", pelo que "são cada vez mais as pessoas que atingem idades avançadas".

"Portanto, o envelhecimento está a acontecer, cada vez o peso estatístico das pessoas de idades superiores é maior", elucidou Maria João Valente Rosa. Mas isso é algo que não se deve interpretar unicamente sob um viés de negatividade, na sua ótica, já que também revela os "avanços incríveis que fizemos em relação à morte".

É que, nos anos 60, "Portugal era dos países menos envelhecidos do atual conjunto dos países da União Europeia". Mas isso devia-se "aos piores motivos": a mortalidade "era altíssima", pelo que "as hipóteses de as pessoas chegarem às idades superiores eram baixíssimas".

E foi também "em virtude de um desenvolvimento" da sociedade que se deu uma diminuição dos níveis de fecundidade da população portuguesa, detalhou ainda a demógrafa. Algo que se deveu a "vários fatores", relacionados com uma "maior escolaridade [dos indivíduos], uma menor mortalidade infantil, melhores condições de vida, a maior inserção das mulheres no mundo do trabalho e a alteração do papel e do valor da criança". Não esquecendo, também, "o desenvolvimento dos métodos contracetivos", que trouxe um "maior planeamento familiar" associado.

Um "inverno demográfico" com consequências

Contas feitas, acrescentou ainda a docente da NOVA FCSH, o saldo natural do país, que equivale à "diferença entre os nascimentos e os óbitos", tem sido "persistentemente negativo" ao longo dos últimos anos. Por outras palavras, os dados mostram que "desde 2009 têm vindo a morrer mais pessoas do que aquelas que nascem em Portugal".

Assim, com base em projeções sustentadas nos dados que existem atualmente, citados no estudo De Portugal para a Europa – Visão Geral da Crise de Natalidade e Consequências do Inverno Demográfico, a investigadora Luísa Loura explicou à Euronews que "perto de um milhão de pessoas idosas com mais de 75 anos em 2070" terão, em Portugal, "no máximo uma pessoa próxima para acautelar aqueles imprevistos que ocorrem quando se é mais velho". Um valor que equivalerá, portanto, a cerca de metade da população idosa do país. Algo que poderá "trazer imensas dificuldades" a estas faixas etárias "se não se acautelar já" esse cenário, alertou ainda a investigadora.

E numa situação como a descrita, a solução poderá passar precisamente por aquilo "que fizeram alguns outros países", onde "tradicionalmente o acompanhamento dos idosos não é tão feito por parte da família". "Os países do sul da Europa têm muito essa tradição e há muito esse espírito de uma grande entreajuda, tanto dos pais para os filhos como dos filhos para os pais. Mas há outros países que não têm essa tradição. E, ao não terem essa tradição, já têm alguns sistemas do Estado Social para dar apoio às pessoas idosas", descreveu a investigadora.

Citou, a este propósito, o caso dos Países Baixos, onde existem "edifícios que são pensados para alojar pessoas mais velhas, em apartamentos relativamente pequenos", mas onde é dado um apoio "em permanência" a estes indivíduos.

Além disso, considerou ser importante "haver um incentivo fiscal para que as pessoas tenham um fundo de poupança" para que, no futuro, possam ser capazes de responder a essa situação, "pois não havendo a família para dar este apoio direto, as pessoas vão ter que considerar ter algum respaldo financeiro para pagar esses serviços".

Já para a investigadora Maria João Valente Rosa, pensar na descendência como um fator de "segurança na velhice" trata-se de "uma visão ultrapassadíssima", que existiu noutros tempos, "quando o Estado Social era fraquíssimo". Nos dias que correm, sustentou, "pensa-se no filho como uma forma de realização emocional": até porque, "senão, tínhamos muitos filhos para [garantir] a segurança na velhice", o que difere do retrato que é apresentado pelos números.

Ainda assim, e sabendo que "cada vez mais vivemos mais tempo", os cidadãos precisam de se "preparar para este tempo a mais que estamos a viver", o que poderá passar também "por alargar as redes relacionais", nomeadamente ao nível das amizades, a título de exemplo.

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