A prática de cobrar preços diferentes para a mesma atração turística estende-se, agora, a França.
O Museu do Louvre, em Paris, aumentou os preços de entrada, na quarta-feira, para a maioria dos visitantes não europeus. Esta constitui uma tentativa de reforçar as finanças após greves repetidas, sobrelotação crónica e o roubo das Joias da Coroa francesa que abalou a instituição.
Segundo o museu, a subida de 45%, de 22€ para 32€, integra uma política nacional de “preços diferentes” anunciada no início do ano passado, que está a entrar em vigor em grandes atrações culturais, incluindo no Palácio de Versalhes, na Ópera de Paris e na Sainte-Chapelle.
Sindicatos franceses contestaram a mudança na bilheteira do Louvre, alegando que contraria a missão universal do museu mais visitado do mundo.
A alteração abrange visitantes da maioria dos países que não integram a União Europeia (UE), incluindo os Estados Unidos, que costumam representar a maior fatia dos turistas estrangeiros do Louvre.
Pela nova estrutura, quem não seja cidadão nem residente da UE, ou da Islândia, Liechtenstein e Noruega, pagará a tarifa mais alta.
O novo preço aplica-se a visitantes individuais fora da Europa. Grupos com guia vão pagar 28€, com visitas limitadas a 20 pessoas “para manter a qualidade da visita”, disse o museu.
Ainda assim, alguns turistas questionaram a lógica de cobrar mais aos visitantes. “Em geral, para turistas as coisas deviam ser um pouco mais baratas do que para os locais porque temos de viajar para vir até aqui”, disse Darla Daniela Quiroz, vinda de Vancouver.
Mesmo quem não é abrangido pelo aumento dos preços manifestou reservas.
“A cultura deve estar aberta a todos, sim, ao mesmo preço”, disse Laurent Vallet, de visita a Paris vindo da Borgonha.
Outras pessoas disseram que pagariam na mesma. “É uma das principais atrações aqui em Paris... vamos lá na mesma”, afirmou Allison Moore, turista canadiana de Terra Nova.
A CGT Culture denuncia a política, argumentando que transforma o acesso à cultura num “produto comercial” e cria desigualdades no acesso ao património nacional.
Algumas categorias mantêm entrada gratuita, incluindo menores de 18 anos.
O último aumento nos preços das entradas ocorreu em janeiro de 2024, quando a entrada padrão passou de 17€ para 22€.
França introduz preços diferentes para as principais atrações
O Louvre não está sozinho. Versalhes e outras atrações emblemáticas também adotaram preços diferentes, este mês.
Em Versalhes, o bilhete “Passe” vai custar 35€ em época alta para visitantes que residam fora da UE, Islândia, Liechtenstein e Noruega, face aos 32€ para visitantes que sejam cidadãos ou residentes desses países.
Na Sainte-Chapelle, o bilhete sobe para 22€ para visitantes que residem fora da UE contra 16€ para os que vivem nos países do bloco, segundo responsáveis do património.
Esta diferenciação nos preços de bilhetes ou taxas turísticas já está em vigor em alguns países da Europa e no resto do mundo.
A taxa para visitantes de um dia de Veneza, aplicada em fins de semana e dias de maior afluência nos últimos anos, custa até 10€ para turistas. Já os residentes de Veneza ou da região envolvente do Véneto não têm de pagar.
As autoridades dizem que o sistema de taxa de acesso é crucial para aliviar a pressão que as multidões de visitantes exercem sobre os serviços e a infraestrutura da cidade.
“É uma ferramenta útil para gerir fluxos turísticos e garantir melhor equilíbrio entre residentes e visitantes”, afirma o vereador Michele Zuin.
Ainda assim, os dados mostram que a medida ainda não contribuiu para a redução do número de visitantes.
Em toda a Itália, museus e atrações são muitas vezes gratuitos para residentes, incluindo os Jardins de Boboli, em Florença, e os Museus Capitolinos, em Roma, bem como a taxa prestes a ser introduzida para chegar perto da Fontana di Trevi.
No Quénia, "preços diferentes" é algo comum, há muito tempo, nas taxas dos parques de safari. A 1 de outubro do ano passado, a entrada para não residentes e não cidadãos da África Oriental aumentou para até 90 dólares (77€) em alguns parques, face a apenas 800 xelins quenianos (5€) para cidadãos da África Oriental.
As autoridades dizem que os preços mais altos serão usados para “reforçar a sustentabilidade financeira da conservação da vida selvagem” e melhorar a experiência dos visitantes.
A 1 de janeiro deste ano, a administração do presidente Donald Trump aumentou em 100 dólares (86€) a taxa de entrada para turistas estrangeiros nos parques nacionais dos EUA, como parte da sua política “America First”.
Na Índia, o Taj Mahal cobra aos visitantes estrangeiros 1 300 rupias indianas (12€), cerca de cinco vezes o preço doméstico.
Japão: restaurantes com preços diferenciados
Defensores dos preços diferenciados sustentam que cidadãos e residentes que pagam impostos devem ter acesso facilitado a atrações culturais e naturais, sobretudo em países onde a diferença de riqueza entre turistas e locais pode ser extrema.
Mas alguns casos de “taxa para estrangeiros” têm sido considerados injustos.
No Japão, preços diferenciados aplicam-se em vários locais turísticos, incluindo no novo parque temático Junglia, em Okinawa, e nas estâncias de ski de Niseko, em Hokkaido.
Mas a recente introdução em alguns restaurantes gerou críticas.
Um restaurante buffet de marisco no distrito de Shibuya, em Tóquio, foi alvo de contestação no Reddit e no X, no ano passado, após começar a cobrar aos turistas estrangeiros mais 1 100 ienes (6€) do que aos nacionais e residentes japoneses pelo seu menu “tudo o que conseguir comer”.
Os funcionários verificavam a elegibilidade, ao pedirem aos clientes que falassem japonês ou mostrassem o cartão de residência.
“Considerando a subida dos custos de trabalho devido aos custos de serviço e ao tempo despendido a atender [clientes estrangeiros], não temos outra opção senão definir preços diferentes”, disse o proprietário do Tamatebako ao The Japan News.