A presidente da Comissão Europeia defendeu, em Munique, que a UE ative a sua cláusula de defesa mútua e tome decisões de segurança por maioria qualificada. Von der Leyen apostou em estreitar laços com o Reino Unido e outros parceiros num contexto de crescente volatilidade global.
Ursula von der Leyen foi direta na Conferência de Segurança de Munique. "A Europa deve tornar-se mais independente, não há outra opção", começou a sua intervenção. A presidente da Comissão falou de ameaças que vão desde territórios a tarifas, passando por regulamentações tecnológicas. Uma referência pouco velada aos Estados Unidos, mas também à agressão russa na Ucrânia.
Para Von der Leyen, essa independência deve abranger a defesa, a energia, a economia, o comércio, as matérias-primas e a tecnologia digital. Ela rejeitou a ideia de que apostar na autonomia europeia enfraqueça os laços transatlânticos: "Uma Europa independente é uma Europa forte. E uma Europa forte torna a aliança transatlântica mais sólida".
Os dados que forneceu sobre as despesas com a defesa apontam nessa direção. Desde o início da guerra na Ucrânia, o investimento europeu nesta área cresceu quase 80%. As projeções indicam que, em 2028, as despesas do continente em equipamento militar ultrapassarão o que os Estados Unidos destinaram no ano passado. "Um verdadeiro despertar europeu", como ela mesma o chamou.
Decisões rápidas e sem vetos
Mas gastar mais não é suficiente. Von der Leyen insistiu que a Europa deve tomar decisões mais rapidamente, e isso pode implicar recorrer à maioria qualificada em vez de exigir unanimidade. "Não precisamos de alterar o Tratado para isso. Precisamos de usar o que temos", sublinhou.
A presidente também pediu que fosse aplicado o artigo 42.7 do Tratado da UE, a cláusula de defesa mútua. "Não é opcional para a UE. É uma obrigação", lembrou. Trata-se do princípio "um por todos e todos por um", mas von der Leyen advertiu que este compromisso só tem peso se for construído com base na confiança e na capacidade real.
Leyen também propôs formalizar colaborações de segurança que até agora têm sido pontuais, como a Força Expedicionária Conjunta liderada pelo Reino Unido ou a Coligação de Voluntários para a Ucrânia. "A Europa e, em particular, o Reino Unido deveriam aproximar-se mais em matéria de segurança, economia e defesa das nossas democracias", afirmou, citando também a Noruega, a Islândia e o Canadá como parceiros prioritários.
Rubio defende uma Europa forte e critica o "status quo"
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, também interveio em Munique com um discurso repleto de referências históricas. Ele evocou o nascimento da conferência em 1963, quando a Alemanha estava dividida e a linha entre o comunismo e a liberdade dividia o continente em dois.
Rubio criticou o que considera «delírios pós-guerra» partilhados pela Europa e pelos Estados Unidos: ceder soberania a instituições internacionais, criar estados de bem-estar social à custa da capacidade de defesa, abrir as portas a uma imigração massiva que ameaça a coesão social. Para o chefe da diplomacia americana, organismos como a ONU mostraram-se «impotentes» em conflitos como Gaza ou a Ucrânia e precisam de reformas urgentes.
Apesar da dureza da mensagem, Rubio tentou tranquilizar os aliados europeus. Os Estados Unidos não querem "separar-se", mas sim "revitalizar" uma velha amizade, afirmou. "A nossa casa é no hemisfério ocidental, mas seremos sempre filhos da Europa". Insistiu que Washington não quer aliados fracos, mas sim capazes de se defenderem por si próprios, orgulhosos da sua cultura e herança, e dispostos a proteger, em conjunto, a civilização que partilham.
Sobre a Ucrânia, Rubio afirmou que as diferenças entre a Rússia e a Ucrânia "diminuíram", embora permaneçam "as questões mais difíceis de responder". Ele rejeitou a ideia de que Moscovo não esteja interessada em negociar e insistiu que os Estados Unidos "avançaram" nas conversações. O secretário de Estado não compareceu ontem a uma reunião informal sobre o conflito, da qual participaram vários líderes europeus.
Quando questionada sobre a sua opinião acerca do discurso proferido anteriormente pelo secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, a presidente da Comissão Europeia respondeu que se sentia "muito tranquila".
Von der Leyen descreveu Rubio como "um bom amigo, um aliado forte" e disse que entende que "na administração [americana] alguns têm um tom mais duro sobre este assunto, mas o secretário de Estado foi muito claro: queremos uma Europa forte na aliança e é por isso que estamos a trabalhar intensamente na UE".