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O duro rasto de morte e destruição no Afeganistão

O duro rasto de morte e destruição no Afeganistão
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Os números são o espelho da dura realidade que se vive no terreno. De acordo com o Watson Institute (Brown University), estima-se que 147 mil pessoas morreram nos últimos 18 anos de guerra no Afeganistão. Os talibãs e os grupos armados de um lado. O Governo afegão, apoiado pela NATO, do outro.

No ano passado, quase 11 mil civis morreram ou foram feridos, acrescenta a UNAMA, Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão. Um número que quase duplicou em nove anos.

A mesma missão sublinha que o aumento de ataques suicidas por parte de insurgentes e de ataques aéreos por forças pró-governamentais teve um impacto direto no crescimento das mortes de civis registado no ano passado.

Cabul, o epicentro dos números negros

Cabul, a capital afegã, é uma cidade sitiada. A qualquer momento pode acontecer um ataque e os "incidentes de segurança" fazem parte do dia-a-dia. Quase metade dos ataques suicidas de insurgentes aconteceu na capital, no ano passado.

O centro cirúrgico da organização-não governamental (ONG) internacional "Emergency", em Cabul, é um porto seguro para as vítimas da guerra de todo o país. Dezenas de pacientes pedem apoio diariamente e as noites quase nunca são tranquilas. A entrada no turno da manhã traz com ela uma longa lista casos complexos relacionados com a guerra.

A unidade de cuidados semi-intensivos nunca está vazia.

"Normalmente os pacientes chegam com uma lesão torácica, com a região abdominal massacrada por balas ou objetos. Fazemos laparatomias, que consistem numa incisão na cavidade abdominal", sublinha Mohammad Abed Faizi, cirurgião da ONG Emergency.

No ano passado, quase mil crianças foram mortas no Afeganistão. Também houve duas mil crianças feridas. Cerca de metade foi tratada no centro cirúrgico da Emergency. Mustafa, de 12 anos, foi apanhado no fogo cruzado. Ficou com as pernas paralisadas e fraturou duas vértebras. A reabilitação diária começa a mostrar alguns resultados e os médicos dizem que dentro de um mês deverá voltar a caminhar.

"Estava a trabalhar no campo fui atingido por uma bala. Fui atingido no lado direito e a bala ficou bloqueada no lado esquerdo do meu ombro. A primeira coisa que quero fazer é regressar à escola", diz Mustafa.

Uma equipa de quase 400 pessoas incluindo médicos, cirurgiões, fisioterapeutas e enfermeiros trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana, para dar resposta às situações mais graves.

Há dois anos, 130 pessoas deram entrada em conjunto na sequência de uma explosão. O centro foi alargado e os recursos humanos treinados para gerir o número crescente de baixas em massa.

"Todos os órgãos podem ter ferimentos e precisam de uma decisão atempada e de ação. É preciso um hospital para tratar de tudo ao mesmo tempo. Por exemplo, numa situação normal os hospitais têm diferentes departamentos. Com os feridos de guerra não é possível fazer isso. Demora tempo e podemos acabar por perder o paciente. Um traumatologista pode gerir tudo ao mesmo tempo", sublinha Hedayatullah Heydayat, cirurgião da Emergency.

Alguns sobreviventes de guerra terão as marcas do conflito no corpo para sempre. Abdul Whahab, pai de sete filhos, viajava num autocarro que transportava funcionários da administração quando um carro explodiu perto do veículo. O ataque suicida aconteceu no início de junho, em Cabul.

"Percebi que tinha perdido as minhas pernas. Rastejei e sai para fora do autocarro. O meu irmão, que estava sentado na parte de trás conseguiu escapar. Pedi-lhe para me ajudar porque estava a queimar-me. Ele salvou outras três vidas naquele dia. Não o meu tio. Vi-o a morrer queimado", lamenta Abdul.

A Europa apoia os serviços de salvamento de vidas no país. A ajuda humanitária da União Europeia intensificou o apoio ao tratamento traumático e facilita o acesso a cuidados de saúde em áreas em que os serviços regulares estão condicionados.

"Cerca de 25% do nosso orçamento global é atualmente destinado a serviços de trauma de guerra", lembra Esmee de Jong, das operações de ajuda humanitária europeias.

Monica Pinna, euronews - Até que ponto é difícil prestar este tipo de assistência num país como o Afeganistão?

"É cada vez mais difícil. A missão da saúde está realmente debaixo de fogo neste momento. Desde o início do ano percebemos que mais de cem instalações foram atacadas o que significa que muitas pessoas perderam o acesso a essas instalações. Para os trabalhadores do setor da saúde é cada vez mais perigoso trabalhar nessas circunstâncias", acrescenta de Jong.

A tecnologia e a especialização permitem alcançar impossíveis. Attagul perdeu parte do crânio numa explosão mas depois de várias intervenções cirúrgicas está a recuperar. No entanto, os utentes com deficiências terão de sobreviver num país sem assistência social, em que 55% da população vive na pobreza.