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Trabalhadores reclamam de abuso chinês em fábrica europeia

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De  Francisco Marques
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Trabalhadores reclamam de abuso chinês em fábrica europeia
Direitos de autor  Darko Vojinovic/Copyright 2021 The Associated Press. All rights reserved.

Meio milhar de pessoas estão a trabalhar num estaleiro em condições muito adversas em Zrenjanin, no norte da Sérvia. Estão a construir o que se diz ser a primeira fábrica chinesa de pneus na Europa, mas a viver em estruturas pobres e sem serem devidamente pagos.

A larga maioria são vietnamitas, alguns viajaram com a promessa de um contrato de trabalho com uma empresa alemã, mas acabaram com o passaporte e os documentos de identificação retidos pelo empregador chinês.

Algumas organizações não governamentais (ONG) defensoras do ambiente e dos direitos humanos têm denunciado o projeto da fábrica da companhia chinesa Shangdong Linglong Tyre pelos eventuais danos ecológicos na região e pelas condições em que albergam os trabalhadores imigrantes.

Um relatório publicado por duas ONG, a A11 e a ASTRA, denuncia que "um vasto número de factos comprovados indicam a possibilidade de que os trabalhadores estejam a ser vítimas de tráfico humano para fins de exploração laboral".

O relatório, já citado nas redes sociais pelo eurodeputado eslovaco Vladimír Bilčík, diz ainda que os  trabalhadores vietnamitas estão instalados em estruturas sem eletricidade nem sistema de esgotos.

"Estamos a testemunhar uma violação de direitos humanos neste momento. Estes trabalhadores vietnamitas estão a viver em condições terríveis. Os passaportes e os documentos de identificação estão na posse dos empregadores chineses. Os trabalhadores estão aqui desde maio e ainda só receberam um salário", afirmou Miso Zivanov, da ONG "Zrenjanin Action", em declarações à Associated Press.

A falta de pagamento motivou quarta-feira a segunda greve dos trabalhadores em seis meses, mas a construção desta primeira fábrica europeia da Linglong continua.

Os trabalhadores dormem em beliches sem colchões nuns barracões onde garantem não haver aquecimento nem água quente e, este fim de semana, por exemplo, enfrentam temperaturas entre os 4 e os 12 graus centígrados, em Zrenjanin.

"Trabalho muito difícil"

Na sexta-feira, o presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, esteve na inauguração de uma outra fábrica, uma aposta alemã no país, e, diante de investidores alemães, foi questionado pela situação dos trabalhadores em Zrenjanin, onde está a nascer um dos primeiros frutos da parceria empresarial entre a Sérvia e a China.

"Vamos tentar ajudar os trabalhadores vietnamitas e todos os outros, mas não vamos dispersar os investidores porque é um trabalho muito difícil trazer investimento para o nosso país. Um trabalho muito difícil", reforçou Aleksandar Vucic, alegadamente algo atrapalhado pela pergunta diante dos investidores europeus.

A ideia de "trabalho muito díficil" do Presidente sérvio será certamente muito diferente da que têm estas pessoas, deslocadas da terra natal, a trabalhar num país aspirante a fazer parte da União Europeia (UE) e onde se sentem enganadas.

"É inaceitável que um aspirante a membro da UE pareça tolerar esta situação no respetivo território e se mantenha em silêncio em casos de eventual trabalho forçado na Europa", afirmou Viola von Cramon, uma eurodeputada alemã, em declarações à France Press.

Pelas redes sociais, Von Cramp reforçou ser "completamente inaceitável que a Sérvia tolere a construção e a manutenção de uma fábrica que alegadamente recorre ao tráfico humano e a trabalho forçado no seu território".

"O trabalho decente e os direitos humanos têm de ser respeitados e defendidos por todos", concretiza a eurodeputada.

A companhia chinesa que detém a fábrica rejeita responsabilidade, alega que o pessoal foi contratado por um subempreiteiro chinês e responsabiliza ainda agências de trabalho vietnamitas.

A Linglong prometeu devolver os documentos de identificação, que garante ter solicitado apenas para tratar dos respetivos vistos de trabalho e residência, garantiu ter exigido melhores condições para os trabalhadores, entende que os mesmos estejam a viver sem condições mínimas e assegura ter pago os salários mensais de acordo com as horas trabalhadas.

Esta sexta-feira, terá sido distribuído pelos imigrantes um documento para assinarem, declarando ter acordado de forma voluntária e em consciência trabalhar neste estaleiro.

Outras fontes • AP, AFP