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"O peixe está podre" no Senegal e a culpa - dizem - também é da União Europeia

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De  Valérie Gauriat
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Quando, após quatro horas de viagem de carro, a partir de Dakar, a capital do Senegal, chegámos à cidade costeira de Saint Louis, não pude deixar de sorrir com antecipação. As memórias da minha visita anterior, há cerca de 20 anos, a este marco turístico, mas também um ponto de atração para a pesca, ainda estavam vivas na minha mente.

Lembrava-me de múltiplas pirogas coloridas a desembarcar na costa de areia branca. Dezenas de tripulações de pescadores, os mais reputados do Senegal, a descarregar caixotes repletos de peixe até às bordas. Mulheres seguidas por crianças alegres, a disputar a sua parte, para arranjar ou vender no local.

Mas as minhas recordações eram mesmo de outra era.

"Os barcos deles acabaram com a pesca!"

Comida pela erosão e coberta de lixo, a faixa de areia de Barbarie foi desde então abandonada pelos barcos de pesca, que agora desembarcam as suas capturas nas margens do rio Senegal.

A agitação ainda lá está. Mas o contentamento a que tinha assistido há tanto tempo foi substituído pela revolta. "O peixe está podre! Os barcos estrangeiros estão a poluir o nosso mar, olhem para isto!" gritava uma peixeira. "Vamos embora tal como viemos, sem nada", dizia outra, mostrando os baldes vazios com que teria de voltar para casa.

Os pescadores queixam-se de os recursos estarem esgotados e apontam o dedo a quem consideram ser culpado. "Os barcos estrangeiros dificultam a pesca, poluem o mar, e apanham tudo o que costumávamos pescar", denuncia Kala, capitão de uma das embarcações de pesca artesanal, antes de partir para o mair com a sua tripulação.

Moustapha Dieng, um pescador reformado e herói local é hoje dirigente de dois sindicatos de pescadores.

Crítico das práticas ilegais de muitos navios chineses que operam na região, está ainda mais revoltado com a destruição resultante do acordo de pesca entre a União Europeia e o Senegal, que permite aos navios europeus pescar atum e pescada, para além da zona das 6 milhas náuticas (12 km) reservada à pesca artesanal.

Os europeus que pescam atum têm de comprar peixes jovens para serem usados como isco vivo, quando estes deviam ser deixados a crescer para poderem povoar os oceanos. E os barcos que pescam pescada são de arrasto e isso é proibido na Europa. São estes acordos que levam todo o peixe e criam uma concorrência desleal para a pesca tradicional", defende.

Quando, no dia seguinte, nos voltamos a encontrar com com Kala, após a faina, somos recebidos com frustração.

"Nada, não há nada. Havia muitos barcos de arrasto, não muito longe de nós. Navios espanhóis e chineses. Alguns estão a apenas sete quilómetros da costa. Isso não está bem".

Europa à vista

A falta de peixe no Senegal também transformou a vida de Amina, uma tradicional processadora de peixe que se mudou para Saint Louis com a família em busca de uma vida melhor. Tudo em vão.

"Para além de hoje, em dois meses não conseguimos processar nenhum peixe. Estamos tão cansados", suspira. "Se dependesse de nós, íamos procurar ajuda contra estes barcos. Para que eles sejam travados, e possamos voltar a ter peixe. Já não há peixe. Até enviámos os nossos filhos em barcos para a Europa. Alguns foram para Espanha, uns conseguiram, outros não"

Amina viu três filhos partir de rumo à Europa. O percurso, feito de forma clandestina, através das ilhas Canárias, parte do território espanhol, é perigoso Apenas um dos filhos chegou a Espanha, outro está desaparecido. Há quatro meses, foi informada de que o terceiro tinha morrido no mar.

A embaixadora da União Europeia em Dakar, Irène Mingasson, conhece demasiado bem as queixas das comunidades pesqueiras. Mas insiste que o acordo de pesca apoia a sustentabilidade.

"Este acordo baseia-se na existência de um excedente de recursos; se este não existir, o acordo de pesca não poderá ser implementado. O segundo ponto é que a pescada e o atum, não são espécies pescadas por pescadores artesanais senegaleses. Portanto, não há concorrência", alega a embaixadora.

As resposta não atenuam a revolta dos pescadores em Saint Louis. Os jovens queixam-se e deixam no ar uma promessa. "Quando se vende o peixe, não resta quase nada. Não há lucro! E não temos outro emprego, desde que nascemos que só conhecemos o mar, dependemos dele. Ninguém vai ficar aqui, vamos todos para Espanha!".

Em busca de um futuro mais promissor

Os programas financiados pela União Europeia para ajudar a encontrar emprego no setor privado visam dar uma alternativa ao crescente número de jovens que querem partir para a Europa.

Abibou Ka recrutou vários jovens nessa mesma situa4ão, depois de os ter aceitado como estagiários no seu restaurante, Darou Salam. Para o empresário, ainda é possível haver futuro para os jovens no seu próprio país.

"Queremos transmitir-lhes o que temos, transmitir-lhes a vontade, a energia, para alcançar algo. O que eu quero é que, antes de o restaurante celebrar 10, ou 15 anos, tenham saído daqui vários empresários".

O sonho é partilhado por Younouss, um dos seus protegidos e sous-chef no restaurante. Também o jovem correu atrás do sonho europeu, até o barco onde seguia ter sido detido pela guarda costeira. O momento é hoje recordado como um golpe de sorte.

"Tenho amigos que viram o barco virar, no ano passado.Isso afetou-me muito. Não tenho arrependimentos, porque agora tenho a minha própria vida. Tenho planos para ter algo meu", revela.

Ter algo seu é ainda uma oportunidade reservada a uma minoria de jovens em Saint Louis.

É também a razão pela qual o capitão Kala, um homem robusto e calmo na casa dos trinta anos, diz querer que todos os seus filhos vão à escola, para não terem de seguir a tradição familiar. Para que em sua casa, nunca se oiça o lema, proferido, no dialeto wolof, por todos os que sonham em fazer a travessia para a Europa: "Barça mba barzakh" ("Barcelona ou morte!").