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As incertezas sobre os acordos de Ucrânia e Rússia para a exportação de cereais

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De  Francisco Marques
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Sergei Shogu, ministro da Defesa da Rússia, de pé, com o ministro da Defesa turco, Hulusi Akar
Sergei Shogu, ministro da Defesa da Rússia, de pé, com o ministro da Defesa turco, Hulusi Akar   -   Direitos de autor  Vadim Savitsky, Russian Defense Ministry Press Service via AP

Os acordos assinados sexta-feira por Ucrânia e Rússia com as Nações Unidas, mediados pela Turquia, para permitir a exportações sobretudo de cereais mantêm-se envoltos em muitas incertezas.

Logo à partida, se o Kremlin irá de facto cumprir o prometido, como nos antecipa Nikolai Petrov, analista da Euroásia na consultora "Chatham House".

Penso que os acordos, no geral, são muito frágeis e podem ruir a qualquer altura por diversas razões ou simplesmente por a Rússia decidir quebra-los alegando certos pretextos
Nikolai Petrov
Analista da Euroásia na consultora "Chatham House"

"A Rússia exigia que certas sanções fossem levantadas ou pelo menos aligeiradas. Até agora, desconheço os exatos detalhes destes acordos, mas percebe-se que o Kremlin não está interessado em permitir a exportação dos cereais ucranianos sem receber contrapartidas importantes", afirma o especialista de política russa e euro-asiática.

Com diversas razões para desconfiar do Kremlin, a Ucrânia recusou assinar o acordo diretamente com a Rússia, país que agora considera um "estado terrorista" devido à invasão iniciada a 24 de fevereiro e que se mantém sobretudo com bombardeamentos que continuam indiscriminadamente a matar civis.

As mudanças constantes de argumentação e ações contrárias às negociações diplomáticas reveladas pelo Kremlin, como o ataque já deste sábado ao porto de Odessa, levaram o governo de Kiev a exigir assinar um acordo com a ONU e a exigir à organização liderada por António Guterres a supervisão do cumprimento do agora ratificado em Istambul pelo governo russo.

Os acordos preveem, por um lado, um corredor seguro para a saída dos barcos ucranianos transportando cereais dos portos de Odessa, Chornomorsk e Yuzhny, num processo totalmente controlado pela Ucrânia e respetivos parceiros internacionais. Por outro, a circulação segura de barcos russos exportando cereais e fertilizantes pelo Mar Negro.

Para o Presidente Zelenskyy, a assinatura destes acordos "é mais uma demonstração de que a Ucrânia pode aguentar esta guerra".

"Mais importante, o nosso país tem de controlar todo o processo nas águas territoriais ucranianas. É claro para todos de que poderá haver provocações russas e tentativas de desacreditar os esforços ucranianos e internacionais, mas agora confiamos nas Nações Unidas. É responsabilidade da ONU e dos nossos parceiros internacionais garantir o cumprimento dos acordos", exigiu Volodymyr Zelenskyy.

Do lado russo, que agora mantém cativo boa parte da costa sul ucraniana e por conseguinte de portos onde estavam armazenadas toneladas de cereais ucranianos, como Mariupol, continua a culpar-se o ocidente pela agravada crise alimentar global.

"A assinatura do memorando entre a Rússia e a ONU vem uma vez mais sublinhar a natureza artificial das tentativas do ocidente de virar para a Rússia as culpas pela entrada dos cereais nos problemas dos mercados mundiais", argumentou Sergey Lavrov,

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia foi também notícia esta semana ao revelar que o objetivo do Kremlin afinal não é apenas defender os territórios rebeldes ucranianos que considera repúblicas independentes, no leste da Ucrânia, mas também conquistar o controlo de toda a costa sul ucraniana.

Entretanto, em África, onde a fome ameaça agravar-se em diversos países se os acordos não forem cumpridos, celebrou-se a assinatura na Turquia dos compromissos para permitir a exportação de cereais pelo Mar Negro.

África celebra

Os presidentes da Costa do Marfim e da África do Sul aproveitaram um encontro esta sexta-feira para se manifestarem agradados com os acordos que vinculam Ucrânia e Rússia à ONU para desbloquear a exportação de milhões de toneladas de cereais e outros produtos agrícolas, como fertilizantes russos, muito necessitados em África.

O costa-marfinense Alassane Outtara revelou ter manifestado ao presidente da Ucrânia o desejo de que "o continente africano seja tornado uma prioridade" nos destinos dos cereais.

O sul-africano Cyril Ramaphosa deixou um alerta aos líderes africanos para que coloquem "este conflito como um sinal de alarme" para a autossuficiência.

Os dois presidentes juntaram-se esta sexta-feira em Pretoria para assinarem um memorando bilateral de cooperação, nomeadamente em questões de segurança, e aproveitaram para celebrar e comentar os acordos entre Ucrânia e Rússia com as Nações Unidas.