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Escola aberta em tempos de guerra: crianças adaptam-se para aprender e até ajudar

O professor Oleksandr Pogoryelov começou a dar aulas na própria casa na região de Donetsk
O professor Oleksandr Pogoryelov começou a dar aulas na própria casa na região de Donetsk Direitos de autor Anatolii Stepanov / AFP
Direitos de autor Anatolii Stepanov / AFP
De  Francisco Marques
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Um professor junto à linha da frente abriu a porta de casa para continuar a dar aulas presenciais. Em Kiev, os alunos produzem doces e velas para ajudar na defesa à invasão russa

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Na semana em que se celebrou o Dia Internacional da Educação (24 de janeiro), chegou-nos da Ucrânia uma história de resistência e adaptação à guerra em nome do ensino.

O professor Oleksandr Pogoryelov trabalhava há mais de duas décadas na escola de Shandryholove, uma pequena localidade na região de Donetsk, onde está atualmente uma das linhas da frente da defesa ucraniana à invasão militar lançada pela Rússia a 24 de fevereiro do ano passado.

Um bombardeamento das forças afetas ao Kremlin destruiu a escola logo em abril, mas Pogoryelov, de 45 anos, não baixou os braços. Com as habituais salas de aula em ruínas, o professor decidiu abrir as portas da própria casa e transformou a própria sala de estar numa sala de aula, onde recebe alunos do 7.° anos e do 10.° ano.

"Ensino língua e literatura ucranianas, e literatura mundial. E também ensino biologia, geografia e história. Hoje, tivemos um pouco de ciência computacional", afirmou Pogoryelov à reportagem da France Press, que recebeu exatamente no Dia Internacional da Educação.

O professor costuma voltar às ruínas da escola, mas apenas em busca de materiais que estejam em condições para usar nas aulas que agora improvisa em casa.

Um médico têm de tratar as pessoas. Um professor tem de ensinar as crianças.
Oleksandr Pogoryelov
Professor na Ucrânia

"Quando a escola foi destruída, decidi começar a dar aulas em casa para que os estudantes possam interagir entre eles. É melhor dar aulas em presença do que aulas pela Internet", defende o stor Pogoryelov.

A guerra não se ficou apenas pelo leste da Ucrânia. Estendeu-se por todo o país, sobretudo com frequentes bombardeamentos russos com mísseis de longo alcance. Kiev tem sido desde o primeiro dia um dos alvos desses bombardeamentos, mas nem por isso as escolas que se mantém de pé pararam.

Depois de nos primeiros dias, a vida na capital ucraniana ter praticamente parado, aos poucos a normalidade possível foi sendo retomada, inclusive nas escolas onde os alunos, apesar de terem boa parte do país arrasado pela guerra, tentam criar um novo normal.

Nas escolas onde não existem abrigos de proteção contra bombardeamentos, as aulas passaram a ser remotas, mas nas escolas onde existem abrigos o ensino voltou a ser presencial e agora incluindo diversas atividades para fazer as crianças sentirem-se integradas.

A produção de geleias até poderia ser uma atividade divertida para alternar com a seriedade das aulas antes da invasão russa, mas agora a produção de doces é também um dos contributos possíveis das crianças ucranianas para o esforço de guerra da Ucrânia.

A Rádio Televisão Belga da Comunidade Francesa (RTBF) visitou uma escola em Kiev onde os alunos se dedicam a fazer compotas para enviar para os soldados que estão a combater na linha da frente.

"Temos uma colega que tem o pai a combater na linha da frente. Vamos enviar-lhe esta compota que estamos a fazer", conta um dos alunos à equipa de reportagem belga. Outro conta que o dia anterior "foi difícil".

"O pai do meu vizinho morreu na guerra. É terrível, mas não há nada que possamos fazer", lamentou.

Noutra sala de aula, alguns alunos mais velhos preparam velas para os soldados usarem nas trincheiras. É outra forma de contribuírem por pouco que seja, para o esforço de guerra da Ucrânia.

Invasão russa da Ucrânia

A Ucrânia foi invadida pelas forças militares afetas ao Kremlin na madrugada de 24 de fevereiro. Foi a concretização de uma estratégia iniciada três dias antes (21 de abril) com o decreto assinado por Vladimir Putin reconhecendo unilateralmente a independência dos territórios separatistas ucranianos nas regiões de Donetsk e Luhansk.

A ofensiva avançou por três frentes de batalha perante a incredulidade do resto do mundo, a assistir em direto pela televisão à invasão de um país soberano por uma das maiores potências militares e nucleares do planeta. Kiev pareceu ser o alvo principal, mas os ataques aconteceram a partir dos territórios separatistas, a leste, e pelo sul, a partir da Crimeia, a península autónoma ucraniana anexada unilateralmente em 2014 pela Rússia.

As forças russas revelaram muita dificuldade perante a forte resistência ucraniana, que teve as forças armadas apoiadas pelas chamadas unidades de defesa territorial, compostas por civis armados, e pela Legião Internacional, um grupo formado por combatentes estrangeiros que se alistaram para ajudar a Ucrânia contra a invasão ordenada por Putin.

A ofensiva do Kremlin tem-se feito sobretudo com recursos a mísseis, canhões, raides aéreos e tanques, mas também com algumas operações terrestres, incluindo mercenários chechenos e membros do grupo mercenário privado Wagner.

A destruição de cidades tem chocado o mundo, em especial o arraso de Mariupol, na costa do Mar de Azov, entre a Crimeia e Donetsk, mas também os massacres de Bucha, Borodyanka, Chernihiv, Kramatorsk ou Izium.

Com o recuo das forças terrestres russas, Kiev tem vindo a retomar aos poucos a vida apesar dos esporádicos, mas graves bombardeamentos, e a cidade de Kharkiv voltou ao controlo total ucraniano.

A invasão russa cumpre 337 dias esta sexta-feira (27 de janeiro de 2023).

De acordo com dados das Nações Unidas divulgados a 22 de janeiro, a invasão russa da Ucrânia já provocou a morte a mais de 7 mil civis. O governo ucraniano admite a morte de 10 mil soldados entre as respetivas forças e reclama mais de 120 mil mortos entre as forças afetas ao Kremlin.

De acordo com as poucas informações provenientes do lado russo, já terão morrido mais de 60 mil soldados ucranianos e nem sequer 6 mil russos.

E a guerra continua!

Outras fontes • RTBF, AFP

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