Afinal que armamento pesado está a ser enviado para a Ucrânia? Quem o envia?

Ucrânia insiste no envio de mais armamento pesado por parte dos aliados
Ucrânia insiste no envio de mais armamento pesado por parte dos aliados Direitos de autor Daniel Karmann/(c) Copyright 2023, dpa (www.dpa.de). Alle Rechte vorbehalten
De  Thomas Bolton
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"Devíamos passar mais tempo a ajudar a construir democracias isoladas e menos tempo a preocuparmo-nos em desafiar os rufias autoritários", diz Brad Bowmann à Euronews

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Ao chegar à Europa no início de Fevereiro, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, transmitiu uma mensagem clara aos seus aliados: - Dêem-nos aviões de combate e armas pesadas. E não demorem!

"Quanto mais cedo a Ucrânia conseguir armas poderosas e de longo alcance [...] mais cedo a agressão russa terminará e traremos a paz de volta à Europa", disse numa declaração conjunta com o presidente francês Emmanuel Macron e o chanceler alemão Olaf Scholz, em Paris, a 8 de Fevereiro.

Mas a decisão de fornecer à Ucrânia - que não é membro da NATO e, portanto, não está protegida pela defesa colectiva consagrada no Artigo 5º do Tratado fundador da Aliança - com armas pesadas está repleta de potenciais problemas. Os países ponderam apoiar militarmente a Ucrânia face às preocupações de uma potencial intensificação do conflito.

Que países estão, de facto, a enviar armas pesadas para a Ucrânia? Estarão a fazer o suficiente?

O que é que os países estão a enviar?

Os Estados Unidos (EUA), Reino Unido, Polónia e Alemanha são os países que mais apoio militar têm prestado à Ucrânia, de acordo com o observatório de apoio da Ucrânia do Instituto de Kiel para a Economia Mundial.

Os dados mostram que os EUA estão claramente à frente nesta matéria, tendo anunciado 44,3 mil milhões de euros em apoio desde Janeiro de 2022.

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Material militar enviado pelos EUA para a UcrâniaFórum sobre o Comércio de Armas

"Os Estados Unidos lideraram de longe, não há quem esteja perto", disse Brad Bowmann, Director da Fundação para a Defesa das Democracias (FDD). "E, penso que, combinado com a bravura e agilidade ucranianas, é a razão pela qual a Ucrânia continua a existir," acrescentou.

O Reino Unido é o segundo maior fornecedor de apoio militar à Ucrânia, de acordo com o Instituto Kiel.

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Material militar enviado pelo Reino Unido para a UcrâniaFórum sobre o Comércio de Armas

Os dados mostram que o Reino Unido forneceu uma grande quantidade de rockets, sistemas de defesa, veículos blindados, armas, munições e treino à Ucrânia durante o último ano, no valor de 2,5 mil milhões de euros. A 14 de Janeiro de 2023, tornou-se o primeiro país a fornecer à Ucrânia o Challenger 2s, o principal tanque de batalha ocidental moderno.

Segundo dados do Instituto de Kiel, a Polónia, que partilha a fronteira oriental com a Ucrânia, prometeu 2,4 mil milhões de euros em ajuda militar no ano passado. A Alemanha também exportou mais de 2,4 mil milhões de euros em bens militares.

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Material militar enviado pela Polónia para a UcrâniaFórum sobre o Comércio de Armas

"Diria que os polacos estão a desempenhar um papel particularmente louvável. Diria que os países bálticos desempenham um papel muito positivo. Uma grande surpresa ali mesmo, no flanco oriental da NATO. Eles estão mais próximos do urso russo, e por isso não têm ilusões sobre quem é o nosso adversário ali", disse Brad Bowmann.

Embora não tenha um orçamento comparável aos EUA ou Reino Unido em termos absolutos, a Estónia é o principal fornecedor de material de defesa e ajuda humanitária à Ucrânia em termos proporcionais. Gastou cerca de 1,1% do PIB num ano.

A primeira-ministra da Estónia, Kaja Kallas, afirmou que "se a Ucrânia cair, a liberdade também estará em perigo noutras partes do mundo. Ao ajudar a Ucrânia a defender a sua independência, estamos a defender o direito à liberdade e à democracia de todos os países, incluindo a Estónia".

Em 2022, a Polónia e a Estónia quiseram aumentar a quota de referência do investimento em defesa da aliança de 2% para 2,5% ou mesmo 3% do PIB dos países membros.

Estão os membros da NATO a enviar armamento suficiente?

Os EUA, o Reino Unido e a Alemanha estão a enviar tanques, e a Alemanha permitiu que outros países ocidentais enviassem os Leopard 2, fabricados internamente, mas isto não parece ter calado o pedido de Kiev em relação a mais armas pesadas.

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Material militar enviado pela Alemanha para a UcrâniaFórum sobre o Comércio de Armas

A Ucrânia tem insistido com o Ocidente para que forneça caças de combate para se defender contra a Rússia. Durante a visita ao Reino Unido em fevereiro, Zelenskyy pediu ao primeiro-Ministro Rishi Sunak que lhes "desse asas". O Presidente dos EUA Joe Biden já "excluiu" o envio para a Ucrânia dos muito procurados caças F-16.

"Os F-16 poderiam proporcionar uma série de vantagens, de possibilidades para a Ucrânia, sem dúvida. A resposta que a administração Biden está a dar não é a que mais precisam neste momento. Concordo com isso", disse Brad Bowmann à Euronews.

Em vez disso, o director da FDD sublinha que os aliados da NATO poderiam estar a fazer muito mais em termos de cumprir as suas promessas de despesas com a defesa.

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"Gostaria apenas de assinalar rapidamente [...] o mais recente relatório sobre as despesas da NATO com a defesa. Nesta fase tardia, a maioria dos nossos aliados europeus continua a não honrar os seus compromissos em matéria de despesas com a defesa. Isto é profundamente decepcionante", disse à Euronews.

"Não sou um crítico comparativo da Europa, mas vejamos: a maior invasão de terras na Europa desde a Segunda Guerra Mundial; um grande assalto a uma capital europeia; dezenas de milhares de pessoas a serem assassinadas e mortas numa guerra injusta ao tentarem defender as suas casas e não honram os seus compromissos em matéria de despesas com a defesa? [...] Não temos a logística. Toma, Ucrânia, aqui estão quatro tanques. Aqui estão oito tanques. Aqui estão 12 tanques. Eles precisam de centenas de tanques!," acrescenta Bowmann.

Estão as armas pesadas a chegar com suficiente rapidez?

Em Fevereiro, a administração Biden comprometeu-se a enviar o Ground Launched Small Diameter Bomb, ou GLSDB, um sistema com um alcance muito maior do que os rockets de artilharia fornecidos pelos outros países ocidentais à Ucrânia.

No entanto, estas armas só devem chegar no Outono e os especialistas temem que seja demasiado tarde, uma vez que se esperam para breve ofensivas-chave russas e ucranianas que poderão determinar a forma como a guerra se irá desenrolar.

"Muitos países, incluindo os Estados Unidos [...] fizeram aquilo a que chamamos 'o cheque no correio': - 'vamos enviar isto e aquilo' - , e em muitos casos o material em questão só chegará quatro meses mais tarde", explica Bowmann.

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"Para um ucraniano a lutar na linha da frente, vendo os seus companheiros serem mortos e mutilados [...], a perspectiva do 'cheque no correio' é particularmente insatisfatória [...] especialmente quando percebem que estão literalmente na fronteira da liberdade, lutando por todos nós".

Medo da provocação

Num discurso no Bundestag em 25 de janeiro, o chanceler Olaf Scholz anunciou que a Alemanha iria finalmente enviar 14 tanques Leopard 2A para a Ucrânia e permitiria também que outros países reexportassem os seus se assim o desejassem.

Berlim estava inicialmente hesitante em comprometer-se com a entrega de armas pesadas, citando preocupações sobre uma potencial escalada do conflito. Em vez disso, optou por oferecer equipamento não letal, como capacetes militares de combate.

Foi severamente criticada por este facto, nomeadamente por parte do presidente Zelenskyy. Houve também pressões de outros vizinhos europeus, como a Polónia, para aprovar a reexportação de tanques Leopard 2 para a Ucrânia.

Bowmann recordou a visita do ex-presidente Petro Porosheko à Casa Branca em 2014 para pedir ao então presidente Barack Obama armas para combater os separatistas apoiados pela Rússia na Crimeia.

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Num discurso ao Senado e à Câmara dos Representantes dos EUA, afirmou que "mantas e óculos de visão nocturna são importantes, mas não se pode ganhar a guerra com mantas".

"Disse-o porque a administração Obama se recusou a fornecer armas à Ucrânia. Porquê? Porque não queríamos provocar Putin", explicou Bowmann.

"Por isso, a minha mensagem central para quem estiver disposto a ouvir é que devíamos passar mais tempo a ajudar a construir democracias sitiadas e menos tempo a preocuparmo-nos em provocar os rufias autoritários que provavelmente vão invadir de qualquer maneira".

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