Países Baixos apostam na extrema-direita mas obrigam Wilders a fazer alianças

Dilan Yesilgoz-Zegerius (VVD), Frans Timmermans (GL-PvdA) e o vencedor Geert Wilders (PVV)
Dilan Yesilgoz-Zegerius (VVD), Frans Timmermans (GL-PvdA) e o vencedor Geert Wilders (PVV) Direitos de autor AP Photo/Patrick Post
De  Francisco Marques
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Resultado do PVV, de Geert Wilders, nas Legislativas antecipadas ficou ainda a meio caminho da maioria. Aliança de esquerda ficou em segundo e o VVD passa de governo a terceira força política

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Os Países Baixos foram chamados às urnas esta quarta-feira para eleger um novo governo e a maioria dos votantes apostou no Partido da Liberdade (PVV), de extrema-direita, provocando um "pesadelo" em Bruxelas.

Com cerca de 98% dos votos contados, o partido liderado por Geert Wilders somou 23,5% do escrutínio, o suficiente para garantir pelo menos 37 deputados, aumentando em 20 o número de vozes no Parlamento neerlandês, que é composto por 150 representantes do povo.

Wilders obrigado a fazer "amigos"

O resultado deixa o PVV a meio caminho da necessária maioria para governar e, por isso, obrigado a fazer "amigos" e estabelecer alianças parlamentares, se não mesmo, o mais expectável, uma nova coligação de governo como já existia antes com o VVD, de Mark Rutte.

O partido do governo foi, aliás, o grande derrotado da noite eleitoral. Orfão de Rutte, que anunciou o adeus à liderança política quando se demitiu em julho do cargo de primeiro-ministro e precipitou estas eleições, o Partido da Liberdade e Democracia (VVD), agora liderado por Dilan Yesilgoz, conseguiu apenas 15,1% e perdeu 10 deputados, somando agora 24.

O VVD passou de ser governo a terceira força política nos Países Baixos. O D66, um dos principais aliados na derradeira coligação de governo, conhecida como Rutte IV, também teve uma queda acentuada.

Os social liberais somaram 6,2% dos votos, perderam 15 deputados, passam a ter apenas nove representantes no hemiciclo, mas podem ainda ajudar a formar uma maioria, a dúvida é saber com qual orientação.

Em resumo, a anterior coligação de governo, liderada pelo VVD e de que faziam parte, além do D66, o Apelo Democrata-Cristão (CDA) e a União Cristã (CU), detinha 78 deputados no hemiciclo após as eleições de 2021, mas agora perdeu quase metade e não vai além dos 41.

Rutte disse adeus, mas ainda tem palavra

Mark Rutte liderou o executivo durante 13 anos, mas após um desacordo sobre imigração demitiu-se e os neerlandeses parecem ter-se revoltado contra a fórmula liberal conservadora.

Outro dos beneficiários desta revolta, após uma campanha dominada pelos debates em torno da imigração, do aumento do custo de vida e da luta para travar os efeitos das alterações climáticas, é o recém-formado partido de de Pieter Omtzigt. 

O centrista Novo Contrato Social (NSC) era o quarto partido nas derradeiras sondagens divulgadas terça-feira, pelas empresas I&O Research e Peil.nl, e confirmou a previsão.

Com 12,8% dos votos, o NSC pode agora assumir um papel decisivo na composição de um novo governo, mas não, como garantiu na campanha, com o populista Geert Wilders.

Projeção da ANP com base nos resultados esta quinta-feira de manhã
Projeção da ANP com base nos resultados esta quinta-feira de manhã@NOS

A sucessora de Rutte no VVD) disse que não faria parte de um executivo em que Wilders fosse primeiro-ministro, mas nunca foi taxativa a recusar uma coligação com o PVV. As atenções recaem agora sobre Dilan Yesilgoz, uma nativa turca, emigrante desde criança nos Países Baixos, onde exerceu o cargo de ministra da Justiça e da Segurança no executivo "Rutte IV".

Na mesa, e Yesilgoz já disse que "a iniciativa pertence a Wilders, está agora a cedência à extrema-direita nacionalista e eurocética ou à aliança de esquerda, liderada pelo europeísta Franz Timmermans. São as únicas possibilidades de o VVD se manter relevante num governo e não passar à oposição, como terceira força política do país.

Seja como for, o resultado desta Legislativas obriga a formação de coligações e as formulações são variadas, com a inevitável entrada de várias pequenas forças que ajudam a compor a necessária maioria. 

Um governo de minoria é possível, mas ameaça criar uma ainda maior crise política.

"Pesadelo" em Bruxelas

Um cenário de novas eleições reúne também grande probabilidade perante as esperadas dificuldades para se formar uma coligação sólida entre os principais partidos, com o extremista PVV à cabeça.

A perspetiva de um "Nexit", à imagem do "Brexit", já pesa em Bruxelas, escreve o jornal De Telegraaf, embora essa possibilidade ainda se afigure remota dada a fraca posição de decisão dos eurocéticos. 

Uma mudança de opinião perante o PVV do NSC ou até do Movimento Agro-Cidadão (BBB), de Caroline van der Plas, que soma agora sete deputados, pode agravar o atrito entre um eventual futuro governo neerlandês e o Parlamento Europeu.

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A possível coligação PVV-NSC-BBB teria 64 deputados: ficaria a 12 da maioria necessária para governar em maioria.

A Europa olha com atenção para o que vai acontecer nos próximos dias e semanas nos Países Baixos, a seis meses das próximas eleições europeias. 

Para já, vai ter um primeiro teste, na derradeira cimeira europeia do ano, em meados de dezembro, em que vão ser discutidas novas prestações dos Estados-membros, o alargamento da União Europeia e novas regras orçamentais. 

Mark Rutte ainda será o interlocutor dos Países Baixos, mas que mensagem do Parlamento neerlandês irá o primeiro-ministro demissionário levar aos outros 26 parceiros?

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