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Política da UE. A começar um quinto mandato, Putin fomenta o medo nuclear

Vladimir Putin caminha para prestar juramento como presidente russo durante a cerimónia de tomada de posse no Grande Palácio do Kremlin, em Moscovo
Vladimir Putin caminha para prestar juramento como presidente russo durante a cerimónia de tomada de posse no Grande Palácio do Kremlin, em Moscovo Direitos de autor Sergei Ilnitsky/AP
Direitos de autor Sergei Ilnitsky/AP
De  Paula Soler com AP
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Artigo publicado originalmente em inglês

Depois de quase 25 anos no poder, Vladimir Putin inicia esta terça-feira mais um mandato de seis anos como presidente da Rússia, numa altura de crescente tensão com os países da NATO por causa do seu apoio à Ucrânia.

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O anúncio de exercícios militares que simulam o uso de armas nucleares táticas, anunciado pelo Ministério russo da Defesa na véspera da tomada de posse de Vladimir Putin como presidente para um quinto mandato, foi calculado para semear a dúvida e a desunião entre os aliados ocidentais, disseram analistas à Euronews.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, classificou os comentários do britânico David Cameron e do francês Emmanuel Macron como "perigosos", alertando para uma escalada direta do conflito que poderia potencialmente ameaçar a segurança europeia - embora os analistas tenham visto a ação menos como uma ameaça iminente do que como uma nova tentativa de dividir o apoio ocidental à Ucrânia.

"O objetivo é intimidar e criar pressão psicológica, mas não apenas diretamente para estes países, mas também para os países que estão a observar e que talvez sejam um pouco mais cautelosos, porque provavelmente isso irá torná-los um pouco mais cautelosos", disse Maria Martisiute, analista política do Centro de Política Europeia (CPE), à Euronews.

Na segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, David Cameron, disse, durante uma visita a Kiev, que a Ucrânia poderá usar armas britânicas de longo alcance para atingir alvos dentro da Rússia, enquanto na semana passada o presidente francês, Emmanuel Macron, repetiu que a possibilidade de enviar tropas para a Ucrânia não está fora de questão.

Embora não sejam novas, estas observações deixam a Rússia "inquieta", levando o regime a responder com ameaças, especialmente no contexto atual, de acordo com Martisiute.

"Devemos ter em mente que o presidente chinês Xi Jinping está na Europa, mas também que o apoio de 61 mil milhões de dólares dos Estados Unidos foi ultrapassado e que a Ucrânia está a planear uma contraofensiva em 2025", argumentou o analista do CPE.

"A Rússia sabe que as manobras deixam o Ocidente nervoso, uma vez que, no passado, as manobras faziam muitas vezes parte de uma fase de preparação para algo", disse Gustav Gressel, membro sénior de política do Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR) à Euronews.

Desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, Vladimir Putin tem repetidamente recordado aos países ocidentais as capacidades nucleares da Rússia, numa tentativa de os dissuadir de aprofundar o seu apoio militar ao país liderado por Volodymyr Zelenskyy - mas esta é a primeira vez que um exercício deste género é anunciado publicamente.

"O exercício mostra mais uma vez o cinismo e o vazio das declarações russas sobre a paz e as negociações", afirmou Peter Stano, o principal porta-voz da Comissão Europeia para os Negócios Estrangeiros, apelando à Rússia para que recue naquilo que considerou ser um gesto irresponsável de escalada.

"A Rússia está claramente a tentar injetar mais ambiguidade na sua doutrina nuclear com estas medidas", disse Dylan Macchiarini Crosson, investigador de política externa da UE no Centro de Estudos de Políticas Europeias (CEPS), um think tank sediado em Bruxelas.

A iniciativa de Moscovo segue-se a uma decisão tomada em 2023 de colocar armas nucleares táticas em solo bielorrusso, como parte de um esforço de Putin e Lukashenko para combater as ameaças ocidentais.

As armas nucleares táticas, que vão desde bombas aéreas a ogivas para mísseis de curto alcance e munições de artilharia, são menos poderosas do que as armas estratégicas, porque foram concebidas para serem utilizadas no campo de batalha e não para arrasar cidades inteiras.

A título de comparação, enquanto a bomba norte-americana lançada sobre Hiroshima em 1945 tinha 15 quilotoneladas, uma arma nuclear tática só poderia produzir cerca de uma quilotonelada.

Mas como a Bielorrússia partilha uma fronteira de mais de mil quilómetros com a Ucrânia, a decisão de Putin de instalar estas armas nucleares táticas significaria que a Rússia poderia atingir potenciais alvos mais fácil e rapidamente.

"Esta medida aumenta ainda mais os riscos em jogo e criará mais dores de cabeça para os planeadores militares nos EUA, na Europa e na Ucrânia, que continuarão a debater-se com o que constitui o limiar para a primeira utilização russa", acrescentou Crosson.

O número de armas instaladas na Bielorrússia ainda é desconhecido, mas o investigador do CEPS vê a decisão russa como uma forma de distrair a opinião pública e minar o apoio ocidental à Ucrânia, mas acredita que terá o efeito contrário.

"Seria útil lembrar a Moscovo que a maioria dos países da NATO também tem a mesma capacidade nuclear", sublinhou Martisiute.

Com Moscovo a celebrar, na quinta-feira, o feriado não-religioso mais importante, o Dia da Vitória, que assinala a derrota dos nazis na Segunda Guerra Mundial, o analista do ECFR acredita que o líder russo se sente novamente poderoso, uma vez que Putin só emite ameaças nucleares quando se sente forte.

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"Isto porque sabe que se as usar, ou ameaçar usá-las, entrará num perigoso jogo de escalada com o Ocidente", sublinhou Gressel, acrescentando que Putin pensa que o Ocidente dificilmente arriscará uma escalada por causa de Kiev, neste momento.

"Se não gostarmos, devemos fazê-lo sentir-se fraco novamente", disse o analista do ECFR, fornecendo a Kiev os recursos necessários, levantando as restrições à utilização de sistemas de armamento ocidentais, ou mesmo armando o nosso lado com uma clara ameaça de envolvimento direto no conflito se utilizarem armas nucleares.

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