Os resultados das eleições presidenciais deste domingo confirmam uma das disputas mais renhidas das últimas décadas, com António José Seguro a vencer a primeira volta e André Ventura a garantir o segundo lugar, deixando o PSD fora da segunda volta e adiando a decisão final para 8 de fevereiro.
Os resultados das eleições presidenciais realizadas este domingo em Portugal mostram uma das corridas mais imprevisíveis das últimas décadas em Portugal, que só ficará decidida na segunda volta, a 8 de fevereiro, entre os dois candidatos mais votados.
Com a contagem de votos praticamente concluída, faltando apurar os votos de menos de uma dezena de consulados, o candidato de centro-esquerda António José Seguro, apoiado pelo Partido Socialista (PS), foi o mais votado na primeira volta, obtendo 31% dos votos. Em segundo lugar ficou André Ventura, líder do partido Chega, com 23,5% dos votos. Serão eles os dois protagonistas da segunda volta.
Com António José Seguro na liderança desta primeira volta, este representa o melhor resultado de um candidato socialista desde Jorge Sampaio, em 2001, que na altura obteve 2.411.453 votos (55,76%).
Tanto em 2016 como em 2021, o PS decidiu não apresentar um candidato presidencial oficial, optando por conceder liberdade de voto aos seus militantes e apoiantes nas eleições para a Presidência da República.
Em 2011, com Manuel Alegre, e em 2006, com Mário Soares, os socialistas não conseguiram ir além do terceiro e do segundo lugar, respetivamente.
Seguro terá agora a árdua tarefa de aumentar a sua votação, mas numa conjuntura marcada pela quebra do peso da esquerda, terá de procurar no eleitorado que se dispersou pelos candidatos à direita e que apoiou o candidato Henrique Gouveia e Melo os votos que faltam para chegar ao número mágico na segunda volta.
O candidato apoiado pelo PS prometeu "honrar voto de confiança" que lhe foi dado, reafirmando o carácter independente da sua candidatura: "Sou livre, vivo sem amarras".
É assim que diz que quer agir como Presidente da República, declarando que com a sua vitória na primeira volta "venceu a democracia" e voltará a ser assim a 8 de fevereiro.
No discurso ao final da noite de domingo, convidou "todos os democratas, progressistas e humanistas" a unirem-se à sua candidatura para juntos "derrotarem os extremismos".
O candidato vencedor desta primeira volta prometeu ainda ser "o Presidente de todos os portugueses".
"Estou pronto para ser o Presidente dos novos tempos. É o momento de derrotarmos o medo e erguermos a esperança", afirmou, acrescentando que a sua vitória na segunda volta é a "vitória de Portugal, da liberdade e da democracia".
Ventura pisca o olho ao eleitorado não socialista
André Ventura, líder do partido Chega que fundou há menos de sete anos, garantiu um lugar na segunda volta que poderá trazer outro avanço político para os partidos nacionalistas na Europa.
O Chega tornou-se o segundo maior partido do parlamento português no ano passado, apenas seis anos após a sua fundação. Ventura conseguiu este domingo ser o candidato de direita mais votado, beneficiando de um contexto europeu marcado pela ascensão de partidos nacionalistas em países como França, Alemanha, Itália e Espanha.
O líder do Chega tem consolidando uma presença crescente na política portuguesa à custa do espaço até aqui ocupado pelos dois partidos tradicionais que se alternaram no poder durante o último meio século: o Partido Social-Democrata (PSD) de centro-direita, atualmente no governo, e o PS de centro-esquerda.
Um dos resultados mais significativos de André Ventura nestas presidenciais é na Região Autónoma da Madeira, bastião histórico dos sociais-democratas, onde venceu com 33,40% dos votos.
No domingo à noite, quando discursou perante os apoiantes, disse que o país acreditou que era a "alternativa" apesar da "conversa da extrema-direita e da manipulação das sondagens".
"Vamos liderar o espaço não socialista em Portugal. A direita fragmentou-se como nunca, mas os portugueses deram-nos a nós a liderança dessa direita", resumiu.
"Conseguismo derrotar o candidato do Governo e do montenegrismo; o candidato que se dizia liberal, mas tinha estado na agenda globalista, woke, e contra Portugal; e fizemos campanha sem picardia pessoal, sem ofensa", atirou.
Num apelo ao voto não socialista, dirigiu-se aos "líderes que não são socialistas", reiterando que "a direita só perderá eleições com o egoísmo do PSD, da IL e de outros que se dizem de direita". "Agora é que vamos ver a fibra de que são feitos."
André Ventura enfrenta, no entanto, níveis de rejeição elevados junto do eleitorado mais moderado e, nas várias sondagens que já equacionavam um cenário em que passava à segunda volta, saía derrotado em todos os confrontos, nomeadamente com António José Seguro.
PSD enfrenta desempenho mais fraco em 25 anos
Atualmente à frente do Governo, PSD e o CDS-PP decidiram apoiar nestas presidenciais o candidato Luís Marques Mendes, antigo presidente dos sociais-democratas.
Com Marques Mendes a não ir além dos 11% dos votos, em quinto lugar atrás de João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo, este é o pior resultado de um candidato apoiado pelo PSD desde Joaquim Ferreira do Amaral, em 2001, que alcançou 34,54% dos votos e ficou em segundo lugar, derrotado por Jorge Sampaio.
Nas eleições presidenciais anteriores, os dois candidatos sociais-democratas não só venceram à primeira-volta, como foram reeleitos aumentando a sua votação para um segundo mandato.
Aníbal Cavaco Silva venceu as presidenciais de 2006 com 2.758.737 votos (50,54%), e foi reeleito nas presidenciais de 2011 com 2 231 603 votos (52,95%).
O seu sucessor Marcelo Rebelo de Sousa venceu as presidenciais de 2016 com 2.413.956 votos (52,00%) e foi reeleito nas presidenciais de 2021 com 2.531.692 votos (60,67%).
Luís Marques Mendes assumiu publicamente a responsabilidade total pela sua derrota nas eleições presidenciaise revelou que não apoia outros candidatos na segunda volta das eleições presidenciais.
Num discurso na sede do PSD, o primeiro-ministro Luís Montenegro procurou também evitar que o resultado de Marques Mendes contamine o Governo e a expressão eleitoral do PSD nas legislativas.
"Nesta segunda volta não estará representado o nosso espaço político. Aceitamos essa escolha com humildade democrática. O PSD não estará envolvido na campanha eleitoral. Não emitiremos nenhuma indicação e nem é suposto fazê-lo", afirmou o líder social-democrata, acrescentando que "o PSD foi escolhido para governar o país e é isso que fará nas próximas três semanas, como de resto nos próximos anos".
"O PSD estará a governar Portugal, as regiões autónomas, a maioria das câmaras municipais, no decurso de uma escolha legítima, livre, democrática dos portugueses", sublinhou.
Questionado pelos jornalistas, Montenegro procurou várias vezes evitar associar uma derrota de Marques Mendes a uma derrota do PSD.
"A democracia é isto", relativizou, frisando que os portugueses fazem uma "distinção" nas diferentes eleições. "Os portugueses escolheram-nos para governar e vamos continuar a governar".
Outros nove candidatos concorreram nesta que foi a eleição presidencial mais disputada de sempre, mas nenhum chegou perto dos mais de 50% necessários para uma vitória na primeira volta.
O candidato apoiado pela Iniciativa Liberal João Cotrim Figueiredo ficou-se pelo terceiro lugar, com 15,99% dos votos, naquele que é o melhor resultado obtido pelos liberais desde que estes concorrem em eleições.
Henrique Gouveia e Melo, que entrou nestas eleições como o candidato fora do sistema e um dos favoritos a vencer, sai com uma derrota, ficando àquem do esperado, com apenas 12,33% dos votos.
A esquerda também sai derrotada desta eleição, com os candidatos apoiados pelo Bloco de Esquerda, PCP e Livre a não representarem sequer 5% dos votos. Catarina Martins obteve 2,06%, António Filipe 1,64% e Jorge Pinto 0,68%, ficando até atrás de Manuel João Vieira que conseguiu alcançar 1% dos votos.
O vencedor da segunda volta irá suceder ao presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que cumpriu o limite de dois mandatos de cinco anos.