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Como se constrói o maior túnel ferroviário do mundo e se recupera a natureza

Vale alpino está a ser elevado com detritos rochosos do interior da montanha
Vale alpino está a ser elevado com detritos de rocha escavados no interior da montanha Direitos de autor  Hans von der Brelie
Direitos de autor Hans von der Brelie
De Hans von der Brelie
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Maior túnel ferroviário entre Áustria e Itália gera megadepósito de entulho nos Alpes: será possível recuperá-lo de forma sustentável?

Projecto do túnel de base do Brenner, avaliado em vários milhares de milhões de euros, é um dos maiores estaleiros de obra da Europa.

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Bem lá no fundo, no coração de um vale montanhoso tirolês, gigantescas tuneladoras vão roendo a sua passagem pelos Alpes austríacos.

É aqui que está a ser construído o túnel ferroviário mais longo do mundo – e toda a rocha desmontada tem de ir parar a algum lado.

Engenheiros, geólogos e especialistas em ordenamento da paisagem debruçaram-se sobre este dilema ambiental ao desenhar o “novo” vale de Padaster.

Os trabalhos começaram há cerca de dez anos. Hoje, o vale é um deserto pedregoso. Mas, daqui a dez anos, espera-se que aqui volte a estender-se uma florescente paisagem alpina.

Vai ter um aspeto algo diferente do original: antes, em corte, era uma incisão em V, com encostas íngremes; agora o vale é largo, com uma suave forma em U.

Mas a empresa que constrói o túnel de base do Brenner promete fazer deste sítio um exemplo de referência de renaturalização, tanto na Europa como no resto do mundo.

De V a U: vale alpino com perfil em V transformou-se num vale de aterro em forma de U
De V a U: vale alpino com perfil em V transformou-se num vale de aterro em forma de U Hans von der Brelie

“O esforço é gigantesco”: maior aterro de escavação da Europa

Para perceber a dimensão da quantidade de entulho que tem de ser movimentado – e depositado – ajuda imaginar a Grande Pirâmide de Gizé: com quase 147 metros, é a pirâmide mais alta do mundo.

Agora imagine-se três dessas pirâmides passadas por um gigantesco moinho de pedra: é, grosso modo, a pilha de resíduos rochosos que os trabalhadores do estaleiro do Brenner têm de eliminar de forma ambientalmente responsável.

Sebastian Reimann é gestor de projeto e, entre outras funções, responsável pelo troço de construção H53, o segmento de túnel Pfons/Brenner.

“Temos aqui um enorme estaleiro, com um volume de aterro de 7,7 milhões de metros cúbicos de material escavado”, explica à Euronews Earth. Este é o maior aterro de escavação, em volume, da União Europeia.

“Houve alguns meses em que quatro tuneladoras avançavam em simultâneo no subsolo”, recorda Reimann. “Todos os meses eram trazidos à superfície mais de 250 000 metros cúbicos de escombros e depositados aqui no aterro. O esforço é gigantesco, tanto do ponto de vista logístico como em termos de mão-de-obra, mas é simplesmente um prazer fazer parte do processo.”

Aqui, 7,7 milhões de metros cúbicos de escombros provenientes do estaleiro subterrâneo do túnel estão a ser usados para criar um novo fundo de vale
Aqui, 7,7 milhões de metros cúbicos de escombros provenientes do estaleiro subterrâneo do túnel estão a ser usados para criar um novo fundo de vale Eric Deyerler

Tapete rolante de 30 quilómetros evita tráfego intenso de camiões

Mas será que os habitantes locais e o ambiente envolvente partilham este entusiasmo?

As tuneladoras trabalham sem parar, abrindo caminho pelo maciço montanhoso 24 horas por dia e arrancando tonelada após tonelada de rocha dos Alpes com os dentes de aço das suas cabeças de corte gigantes.

Milhões de metros cúbicos de rocha triturada têm depois de ser transportados do núcleo da montanha para o vale de Padaster.

O gestor de projeto, Reimann, sorri e aponta, satisfeito, para um enorme tubo espesso que brilha ao sol, acompanhando o vale até onde a vista alcança.

Trata-se apenas da pequena secção terminal de um sistema de tapetes rolantes gigantescos – e a prova visível de que um aterro deste tipo pode funcionar (quase) sem tráfego pesado de camiões.

Gigantescas tuneladoras vão roendo a sua passagem pelos Alpes
Gigantescas tuneladoras vão roendo a sua passagem pelos Alpes Hans von der Brelie

“Aqui, no troço H53, instalámos este enorme sistema de tapete rolante”, explica Reimann. O seu comprimento varia consoante o avanço das escavações no subsolo: por vezes acrescentam-se alguns quilómetros, outras encurta-se. “No máximo, o tapete rolante chegou aos 30 quilómetros.”

A opção pelo sistema de tapete rolante é uma das formas encontradas pelo projeto para reduzir o impacto sobre as comunidades locais e o ambiente. O vale de Padaster é desabitado, mas nas proximidades ficam Steinach am Brenner e outras aldeias. Para quem lá vive, ter diariamente, durante vários anos, cem camiões carregados de entulho rochoso a ribombar pela estrada da aldeia teria sido inaceitável.

Um tapete rolante com 30 quilómetros de comprimento traz os escombros rochosos do coração da montanha até ao vale de Padaster
Um tapete rolante com 30 quilómetros de comprimento traz os escombros rochosos do coração da montanha até ao vale de Padaster Hans von der Brelie

Foi por isso escavado um túnel de acesso adicional, uma ligação direta exclusiva entre o vale-aterro e o estaleiro de construção do túnel, bem no interior da montanha.

As equipas de construção subterrânea descem uma rampa de acesso de quatro quilómetros até ao vasto estaleiro do túnel de base do Brenner. Em termos verticais, são várias centenas de metros de desnível. Já os fragmentos de rocha trazidos das profundezas fazem o percurso inverso: em tapetes rolantes que se estendem bem dentro da montanha, sobem até ao vale de Padaster.

Tapetes rolantes em vez de tráfego de pesados destinam-se a aliviar a carga sobre os habitantes das aldeias e cidades próximas
Tapetes rolantes em vez de tráfego de pesados destinam-se a aliviar a carga sobre os habitantes das aldeias e cidades próximas Hans von der Brelie

Desvio temporário de ribeira de montanha

Até há poucos anos, o rio Padasterbach corria por este vale lateral idílico e remoto do vale do Wipp. Agora, não se vê em lado nenhum.

“Neste momento continua a ser um deserto pedregoso e cinzento”, admite o colega de Reimann, Andreas Ambrosi. Mas apressa-se a tranquilizar: o Padasterbach não desapareceu, foi apenas desviado – e isso só por um período limitado.

Um túnel de desvio especialmente construído, com 1 500 metros, oferece ao Padasterbach um leito temporário. Este desvio foi uma condição legal obrigatória; sem ele, o mega-aterro nunca teria sido autorizado neste local. E o desvio é apenas temporário.

“É ali que já está a ser construído o novo leito do rio”, indica Reimann, apontando para o gigantesco aterro, com 1 400 metros de comprimento.

Em curvas largas, a estrutura serpenteia pelo fundo do vale-aterro, que por agora continua cinzento-pedra.

Está a ser construído um novo leito para a ribeira de montanha que atravessa o vale de Padaster
Está a ser construído um novo leito para a ribeira de montanha que atravessa o vale de Padaster Hans von der Brelie

Fundo do vale elevado em quase 80 metros

Quando a ligação no interior da montanha estiver concluída, as tuneladoras param, os tapetes rolantes são desmontados e uma camada espessa de solo será espalhada sobre o “novo” fundo do vale. Árvores e arbustos serão plantados por cima.

O Padasterbach voltará ao seu leito recém-criado. Está previsto um mosaico de floresta de montanha, pastagens e zonas de compensação ecológica. Os trabalhos de renaturalização deverão começar já no próximo ano.

“Não escavámos apenas um enorme túnel, criámos também um novo vale”, resume Ambrosi. “Elevámos o antigo vale em 70, quase 80 metros”, acrescenta Reimann. O atual fundo do vale fica, por isso, muito mais alto do que antes. “Mas continua a ser um vale”, sublinha Reimann, “vai é ser um vale de outro tipo.”

O fundo do vale de Padaster, nos Alpes tiroleses, foi elevado em 80 metros
O fundo do vale de Padaster, nos Alpes tiroleses, foi elevado em 80 metros Eric Deyerler

Salvar prado de orquídeas em flor

Mas será mesmo possível restaurar aqui, nestes habitats alpinos sensíveis, tudo tal como estava?

Os responsáveis políticos do Tirol impuseram padrões ambientais rigorosos ao projeto, não só no vale de Padaster, mas também noutros troços do túnel ferroviário transfronteiriço entre a Áustria e a Itália, ligando o norte e o sul da Europa.

Foi realizada uma avaliação de impacto ambiental muito extensa e prolongada; para projetos desta escala na União Europeia isso é hoje prática corrente. No total, há cerca de 350 exigências de proteção da natureza a cumprir.

Algumas medidas foram implementadas antes e durante a construção. Antes de qualquer obra, teve de ser feito um levantamento detalhado dos solos e da vegetação, dos cursos de água e da floresta, da vida selvagem, da flora e da fauna.

Os geólogos cartografaram cada metro quadrado do fundo do vale. Biólogos e zoologistas percorreram o estreito vale, identificaram espécies e contaram animais e plantas.

Constatou-se que as pastagens pobres em nutrientes deste vale alpino albergavam um prado de orquídeas de 250 metros quadrados. Como uma das primeiras medidas de proteção, este micro-habitat valioso foi “transferido” com sucesso ainda antes do início das obras. As raras orquídeas foram transplantadas e agora florescem numa área de compensação de igual dimensão.

Aqui existia um prado de orquídeas. Antes de começarem as obras, as plantas raras foram deslocadas com sucesso para outro local
Aqui existia um prado de orquídeas. Antes de começarem as obras, as plantas raras foram deslocadas com sucesso para outro local Hans von der Brelie

Transferência de morcegos-orelhudos castanhos protegidos

E houve também preocupações com o morcego-orelhudo castanho (Plecotus auritus). Pertencente à família dos morcegos vespertílios (Vespertilionidae), é uma das 24 espécies de morcegos presentes no Tirol. Na região alpina, algumas destas espécies são consideradas particularmente merecedoras de proteção.

No vale de Padaster, os especialistas em morcegos identificaram, ao todo, sete espécies, entre elas o morcego-orelhudo castanho. A Lista Vermelha austríaca classifica esta espécie como “não ameaçada”, mas ela está protegida pela Convenção de Berna sobre a conservação da vida selvagem europeia e pela Diretiva Habitats da União Europeia (92/43/CEE). Isto traduz-se numa obrigação de manter um “estado de conservação favorável”.

Após o amplo levantamento sobre morcegos, foram instaladas numerosas caixas-ninho na área envolvente – suficientemente longe do aterro, mas perto o bastante para que os morcegos-orelhudos castanhos encontrassem e aceitassem a proposta de mudança.

Para estes caçadores noturnos de insetos, equipados com ultrassons, isso não constituiu problema: se a coesão social e um clima favorável se mantiverem, os especialistas consideram os morcegos adaptáveis quando se trata de mudar de abrigo.

Visão futura para o vale de Padaster

Gestão de leitos de rios, salvamento de orquídeas, deslocação de morcegos, reflorestação e renaturalização: muito já foi feito e continua a fazer-se no vale de Padaster para atenuar o impacto deste projeto de construção maciço sobre os ciclos naturais e o equilíbrio ecológico.

O vale de Padaster situa-se entre os 1 100 e os 1 500 metros de altitude e estende-se bem dentro do mundo montanhoso do Tirol. A zona é atravessada por muitos percursos pedestres.

Quando os trabalhos de construção terminarem e o vale estiver renaturalizado, espera-se que o turismo recupere.

Para já, é preciso paciência e tempo para que a cicatriz cinzento-negra de entulho volte a sarar, com a ajuda ativa de guardas florestais, urbanistas da paisagem, engenheiros, hidrólogos, geólogos, arquitetos paisagistas – e da própria natureza.

Ambrosi tem uma ideia para o dia em que o vale estiver finalmente restaurado: percorrer juntos o trilho de caminhada, voltar a encontrar este ponto exato e sentar-se para um piquenique descontraído. Reimann gosta do plano. “Claro, combinamos isso”, responde, com os pés de galinha a vincarem-se ao lado dos olhos. “Daqui a dez anos isto será um biótopo rústico. Ninguém vai acreditar que aqui existiu um enorme estaleiro de obras.”

Andreas Ambrosi e Sebastian Reimann combinam fazer um piquenique no verde, dentro de dez anos, quando a renaturalização estiver concluída
Andreas Ambrosi e Sebastian Reimann combinam fazer um piquenique no verde, dentro de dez anos, quando a renaturalização estiver concluída Hans von der Brelie

Só uma parte de um quadro mais amplo

O vale de Padaster é apenas uma das muitas medidas de renaturalização e compensação associadas ao maior estaleiro de construção da Europa, o túnel de base do Brenner.

No total, 21,5 milhões de metros cúbicos de material escavado serão acumulados na Itália e na Áustria – o equivalente a oito pirâmides de Quéops. Uma parte será reutilizada na produção de betão; o restante será distribuído pelos aterros de Padaster, Ahrental, Ampass, Genauen e Hinterrigger. Todas estas áreas serão recultivadas ou renaturalizadas.

O complexo de floresta e zonas húmidas de Tantegert foi revitalizado como uma de 200 medidas de compensação ecológica. Só na Áustria estão planeados 140 hectares de áreas de compensação. Além disso, estão a ser construídas escadas para peixes (por exemplo no Gschnitzbach), estão a ser removidos açudes (no rio Sill, em Innsbruck), criadas zonas de inundação natural e implantados percursos de interpretação geológica, bem como caminhos e trilhos de caminhada. Perto de Franzensfeste, foram colocadas 50 000 plantas em antigos estaleiros de obras.

Mas ainda é demasiado cedo para fazer um balanço. Algumas das medidas de recultivação e renaturalização já podem ser consideradas um sucesso. Noutras zonas, como o vale de Padaster, o trabalho de reparação da natureza está apenas a começar.

Uma coisa é certa: a estreita cooperação entre autoridades de supervisão, como a região do Tirol, peritos independentes e a empresa responsável pela construção do túnel de base do Brenner garante que a conservação da natureza nos Alpes está a ser levada a sério.

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