A Agência Internacional de Energia aprovou por unanimidade libertar 400 milhões de barris das reservas estratégicas de petróleo para evitar ruturas e acalmar receios do mercado ligados à guerra com o Irão
A Agência Internacional da Energia (AIE) anunciou esta quarta-feira que os seus países membros acordaram libertar 400 milhões de barris de petróleo em resposta à guerra no Irão, a maior libertação de emergência de sempre, mais do dobro da realizada após a invasão russa da Ucrânia.
“Os desafios no mercado petrolífero que enfrentamos não têm precedentes em termos de dimensão, por isso congratulo-me por os países membros da AIE terem respondido com uma ação coletiva de emergência de dimensão igualmente inédita”, declarou o diretor executivo da AIE, Fatih Birol.
“Os mercados de petróleo são globais, por isso a resposta a perturbações graves tem também de ser global. A segurança energética é o mandato fundador da AIE e agrada-me ver que os seus membros demonstram uma forte solidariedade ao tomarem, em conjunto, medidas decisivas.”
A decisão procura aliviar a pressão sobre os preços do petróleo, numa altura em que a crise no Irão e a consequente interrupção dos carregamentos através do estreito de Ormuz continuam a provocar fortes choques nos mercados de energia.
O calendário de libertação variará consoante a situação de cada país membro, sendo divulgados mais pormenores sobre a implementação em momento posterior.
A quantidade acordada corresponde sensivelmente a 20 dias de fluxos de petróleo através do estreito de Ormuz, por onde, em média, passam 20 milhões de barris por dia.
Numa reunião por videoconferência dos membros do G7, o Presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que um aumento da produção mundial de petróleo é, daqui para a frente, uma prioridade e que as barreiras às exportações devem ser mínimas.
"Quero envolver-me com terceiros para evitar qualquer tipo de restrições às exportações de petróleo e gás que possa desestabilizar o mercado e gerar ainda mais volatilidade", sublinhou Macron.
Frente unida do G7
Antes deste anúncio, Alemanha e Áustria já tinham sinalizado que iriam libertar parte das suas reservas de petróleo, na sequência de um pedido da AIE.
Também o Japão indicou que começará a libertar parte das suas reservas a partir da próxima segunda-feira.
Alemanha e Japão são membros do Grupo dos Sete, ou G7, um fórum económico intergovernamental que inclui ainda Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Canadá e França e que, nos últimos dois dias, realizou conversações de emergência sobre a subida dos preços do petróleo.
Não houve, no entanto, acordo imediato no G7 para uma libertação de reservas própria.
Em vez disso, o grupo pediu à AIE que avaliasse a situação e preparasse opções para uma libertação coordenada das reservas estratégicas.
A AIE convocou depois uma reunião extraordinária dos 32 governos membros para decidir se avançaria ou não.
Foi dessa reunião que saiu o acordo para a libertação dos 400 milhões de barris agora previstos.
O papel do G7 foi sobretudo político, ao definir a orientação e solicitar um plano. O da AIE é técnico, ao aprovar formalmente e coordenar uma libertação que se traduza efetivamente em mais petróleo a chegar ao mercado.
O anúncio surge numa altura em que o petróleo Brent, referência internacional, continua cerca de 20% acima do nível registado no início da guerra, apesar de ter recuado bastante face aos picos de segunda-feira.
Consumidores em todo o mundo já sentem o impacto nos preços dos combustíveis.
A maior libertação coletiva anterior de reservas de emergência pelos países membros da AIE tinha sido de 182,7 milhões de barris, após o choque energético desencadeado pela invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022.
Atualmente, os membros da AIE detêm mais de 1,2 mil milhões de barris de reservas públicas de emergência, a que se somam 600 milhões de barris de reservas industriais mantidas por obrigação governamental.
Na terça-feira, os ministros da Energia do G7 anunciaram apoiar, em princípio, "a implementação de medidas proativas para fazer face à situação, incluindo o recurso a reservas estratégicas", preparando o terreno para a resposta coordenada desta quarta-feira.
Em reação a ataques dos Estados Unidos e de Israel, o Irão tem atacado navios comerciais em todo o golfo Pérsico, intensificando uma campanha para pressionar esta região rica em petróleo numa altura em que aumentam as preocupações globais em matéria de energia.
O Irão praticamente paralisou o tráfego de carga no estreito de Ormuz, o que significa que cerca de um quinto de todo o petróleo não está, neste momento, a ser enviado do golfo Pérsico para o oceano Índico.
Na terça-feira, as forças armadas dos Estados Unidos afirmaram ter destruído 16 navios minadores iranianos nas proximidades do estreito, embora o Presidente Donald Trump tenha dito nas redes sociais que não havia relatos confirmados de que o Irão estivesse a minar a passagem.
Se o estreito vier a ser minado, especialistas estimam que poderiam ser necessárias pelo menos várias semanas para o voltar a abrir à navegação após o fim do conflito.
Frotas sombra?
Apesar da perturbação, algum tráfego continua a passar.
A empresa de segurança Neptune P2P Group indicou esta quarta-feira que, desde 8 de março, sete navios passaram pelo estreito, cinco deles ligados a operadores associados ao Irão.
Em circunstâncias normais, mais de 100 navios atravessam diariamente o estreito.
Alguns petroleiros fazem as chamadas passagens "escuras", desligando os seus rastreadores do Sistema de Identificação Automática (AIS), uma prática normalmente associada a navios que transportam petróleo iraniano sujeito a sanções.
A empresa de rastreio de mercadorias Kpler referiu, por seu lado, que o Irão retomou as exportações de crude através do terminal petrolífero de Jask, no golfo de Omã, com um petroleiro a carregar cerca de 2 milhões de barris nesse terminal em 7 de março, o que sugere que Teerão mantém alguma capacidade para contornar o estreito nas suas rotas de exportação.
Teerão tem também visado campos petrolíferos e refinarias em países do Golfo, procurando causar danos económicos globais suficientes para pressionar Estados Unidos e Israel a pôr termo aos ataques.
De acordo com a AIE, os volumes de exportação de crude e de produtos refinados estão atualmente abaixo dos 10% dos níveis registados antes da guerra.