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Porque é que a Turquia quer bloquear a Finlândia e a Suécia da NATO?

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De  David Mac Dougall  & Kamuran Samar
Recep Tayyip Erdogan
Recep Tayyip Erdogan   -   Direitos de autor  Recep Tayyip Erdogan

A afirmação do governo turco de que tem problemas em aceitar a adesão da Finlândia e da Suécia à NATO causou preocupação em Helsínquia e Estocolmo. Esta semana, os dois países apresentaram um pedido histórico de adesão à Aliança Atlântica. 

Todos os 30 membros da aliança militar têm de concordar em admitir novos membros. Mas o Presidente turco Recep Tayyip Erdoğan descreveu a Finlândia e a Suécia como uma "incubadora" para grupos terroristas. Ao mesmo tempo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros Mevlüt Çavuşoğlu afirmou que os dois países devem fornecer garantias explícitas de segurança e levantar as proibições de exportação de alguns bens do setor da defesa para a Turquia.

"A nossa posição é perfeitamente aberta e clara. Isto não é uma ameaça - isto não é uma negociação em que estamos a tentar alavancar os nossos interesses", disse Çavuşoğlu.

O líder de um partido nacionalista turco também se pronunciou, dizendo que a expansão da NATO para incluir a Suécia e a Finlândia provocaria a Rússia e provocaria uma expansão da guerra na Ucrânia. Devlet Bahceli exortou os legisladores turcos a manter os dois países na "sala de espera da NATO".

PKK como "preocupação central de segurança nacional"

Vários membros da NATO procuraram minimizar as ameaças turcas - e os finlandeses têm sido caracteristicamente diplomáticos na procura de uma solução amigável para qualquer possível impasse.

Neste contexto, o que está por detrás das ameaças turcas, e qual é o “possível jogo” de Erdoğan?

Em declarações à Euronews, Paul Levin, o diretor e fundador do Instituto Universitário de Estudos Turcos de Estocolmo, disse que a principal preocupação da Turquia é a presença de ativistas do PKK na Suécia.

"O que a Turquia entende como ameaça do PKK é a principal preocupação da sua segurança nacional. A Suécia não partilha exatamente a mesma perspetiva sobre essa ameaça", disse Levin. “É uma espécie de oportunidade natural, numa altura em que a Suécia quer aderir à NATO, que a Turquia declare a sua posição”, defende. Paul Levin lembra que existem considerações internas para Erdoğan com vista às eleições no verão de 2023. "O Erdoğan não está bem nas sondagens. Parece estar a perder. Isto também pode ser algo que se aplica a um público turco mais vasto", acrescenta.

Burhan Ozbilici/AP
Guarda militar de honra do exército turcoBurhan Ozbilici/AP

Embora exista uma grande diáspora curda na Suécia e noutros países nórdicos, o PKK foi classificado como uma organização terrorista na Suécia, e não lhe é permitido operar livremente. Assim, não são claras as consequências da insistência de Erdoğan numa repressão contra os "militantes curdos".

Milícias curdo-sírias Unidades de Proteção do Povo (YPG)

Sinan Ülgen, antigo diplomata turco e diretor do Centro de Estudos Económicos e de Política Externa de Istambul, diz que não acredita que a Turquia vá, de facto, bloquear as entradas de adesão sueca e finlandesa, mas que poderá querer extrair um preço por concordar em deixá-las entrar na NATO. "Na minha opinião, a Turquia tem exigências legítimas. Por exemplo, a Suécia deveria levantar o embargo de armas contra a Turquia. Não é razoável um país da NATO impor um embargo de armas a outro aliado no seio da mesma aliança", disse à Euronews.

Este é um ponto que Paul Levin, também coloca, observando que a Turquia quer F-16 e que lhe seja novamente permitido o acesso ao caça “invisível” F-35.

Ülgen também pensa que os turcos irão pedir à Suécia que seja mais ativa contra o PKK e "deixe de fornecer armas e financiamento ao YPG". 

Tanto Paul Levin como o Sinan Ülgen acreditam que haverá alguma forma de negociação entre os três países e, possivelmente, também outros membros da NATO, apesar de Erdoğan ter dito que não fazia sentido as equipas de diplomatas da Finlândia e da Suécia viajarem para a Turquia para debates.

O antigo funcionário da Casa Branca e diplomata norte-americano Matthew Bryza diz que a Turquia abraça o significado estratégico de querer trazer a Finlândia e a Suécia para a NATO - mas argumenta que Ancara tem razão em utilizar uma oportunidade de ouro para chamar a atenção global para um assunto que lhe é muito caro. "Seria insensato subestimar a ira do governo turco e do povo turco pelo facto de uma organização reconhecida pela própria UE como terrorista, o PKK, encontrar um porto seguro tanto na Suécia como na Finlândia", disse à Euronews. Matthew Bryza diz que a Turquia está à procura de concessões e que "é absolutamente claro em Ancara que a entrada da Suécia e da Finlândia na NATO é de importância estratégica e histórica profunda para toda a aliança". Matthew Bryza acredita que a Turquia vai querer encontrar uma forma de dizer sim".