Quem é quem no escândalo de corrupção no Parlamento Europeu

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De  Jorge Liboreiro  & Maria Psara; Isabel Marques da Silva
Panzeri, Kaili, Cozzolino são alguns dos eurodeputados envolvidos
Panzeri, Kaili, Cozzolino são alguns dos eurodeputados envolvidos   -   Direitos de autor  European Union, 2022.

O escândalo da corrupção que envolve o Parlamento Europeu continua a ser investigado e já tem alguns protagonistas bem definidos. O Ministério Público Federal belga menciona "grandes somas de dinheiro" e "presentes substanciais" pagos por um país do Golfo Pérsico (que tem sido apontado na imprensa como sendo o Qatar), com o objectivo de influenciar as políticas da União Europeia.

A polícia belga aprendeu cerca de1,5 milhões de euros em dinheiro em dezenas de buscas domiciliárias e de escritórios ne confiscou computadores para evitar a perda de prova no escândalo apelidado de Qatargate.

Até agora, quatro indivíduos foram detidos e acusados de "participação numa organização criminosa, branqueamento de capitais e corrupção", afirmou o procurador. Os quatro permanecem na prisão. 

Eva Kaili

Eva Kaili é o nome que está na boca de todos em Bruxelas. A eurodeputada grega foi considerada, até à sua detenção a 9 de dezembro, uma estrela em ascensão entre as fileiras do grupo socialista (S&D). Conhecida como amiga da imprensa, Kaili foi eleita pela primeira vez para o Parlamento Europeu em 2014, concorrendo com o partido de centro-esquerda PASOK, e foi reeleita em 2019.

Em Janeiro de 2022, foi nomeada uma das 14 vice-presidentes do Parlamento, do qual foi exonerada depois da detenção. Tecnicamente falando, tem agora o estatuto de eurodeputada não-inscritos porque foi suspensa do seu grupo parlamentar, auferindo o salário líquido de 7.146 euros por mês. Não se sabe se continua a ter direito ao subsídio mensal adicional de 4.778 euros.

Embora Kaili estivesse principalmente concentrada na agenda digital da UE, no início de novembro viajou para o Qatar e realizou reuniões individuais com os principais líderes do país, incluindo o primeiro-ministro.

Semanas mais tarde, fez um discurso perante o plenário em defesa dos direitos laborais do Qatar no contexto do controverso Campeonato Mundial da FIFA. No início de dezembro, votou a favor da libertação de vistos para os cidadãos do Catar.

Cerca de 150 mil euros terão sido encontrados na sua casa, em Bruxelas, que partilha com o companheiro Francesco Giorgi, outro dosd suspeitos.

A advogada de Kaili, Michalis Dimitrakopoulos, diz que a cliente é inocente, argumentando que chamou a polícia belga assim que soube da detenção de Giorgi pelos jornais belgas - apesar de Giorgi não ter sido identificado pelo nome nas reportagens iniciais dos meios de comunicação social.

Francesco Giorgi

De acordo com o seu perfil no LinkedIn, Giorgi é licenciado em ciências políticas pela Universidade de Milão e trabalha como assistente parlamentar acreditado desde 2009.

Giorgi começou a sua carreira no hemiciclo como assistente de Pier Antonio Panzeri, um eurodeputado socialista italiano, e mudou-se em 2019 para a equipa de Andrea Cozzolino, outro socialista italiano.

Sob a liderança de Panzeri e Cozzolino, Giorgi trabalhou na delegação do Parlamento para as relações com os países do Magrebe, que abrange Marrocos, Argélia, Líbia, Mauritânia e Tunísia.

Desde a sua detenção em dezembro, tem colaborado com as autoridades belgas, partilhando pormenores  sobre a forma de operar.

De acordo com documentos obtidos pelos jornais francês Le Soir e italiano La Repubblica, Francesco Giorgi confessou fazer parte de uma "organização" utilizada pelo Qatar e Marrocos para influenciar a elaboração de políticas europeias. O assistente italiano tentou exonerar Kaili acusando o seu antigo chefe, Andrea Cozzolino, e o eurodeputado belga Marc Tarabella de receberem dinheiro da operação montada por Panzeri.

Giorgi agiu como tradutor de Panzeri, que não fala inglês, durante reuniões com funcionários do Qatar que foram interceptadas pela polícia belga, informou Le Soir.

O advogado de Kaili diz que se sente "traída" pelo seu parceiro porque a suposta participação de Giorgi no esquema criminoso a tornou cúmplice.

Pier Antonio Panzeri

O eurodeputado socialista italiano fez três mandatos (15 anos) e é suspeito de ser o principal intermediário entre o Parlamento Europeu e o dinheiro alegadamente oferecido pelo Qatar e por Marrocos.

Eleito pela primeira vez em 2004, Panzeri focou-se nos temas emprego, direitos sociais, negócios estrangeiros, segurança global e ajuda ao desenvolvimento.

Presidiu à delegação para as relações com os países do Magrebe de 2009 a 2017. Tornou-se presidente da subcomissão dos direitos humanos, cargo que ocupou até à sua saída do parlamento em 2019.

Como ex-eurodeputado europeu, Panzeri tinha direito a acesso permanente às instalações do Parlamento Europeu.

Em setembro de 2019, poucos meses após as eleições europeias, Panzeri fundou em Bruxelas uma organização sem fins lucrativos denominada Fight Impunity (Combater a Impunidade), cujo objetivo é "promover a luta contra a impunidade por violações graves dos direitos humanos e crimes contra a humanidade".

Fight Impunity, que não aparece no Registo de Transparência da UE - uma base de dados na qual indivíduos e organizações que tentam influenciar o processo legislativo aparecem registados - partilha o mesmo endereço que outra organização não-governamental, No Peace Without Justice (Sem Paz não há Justiça).

Tanto Kaili como Giorgi acusam Panzeri de controlar as trocas de dinheiro e mais de 600 mil euros foram alegadamente encontrados na sua casa.

As autoridades belgas acreditam que a esposa de Panzeri, Maria Dolores Colleoni, e a filha, Silvia Panzeri, tinham conhecimento do lobby ilícito e solicitaram a sua extradição de Itália. As duas mulheres negam as acusações.

Niccolò Figà-Talamanca

O secretário-geral da organização Sem Paz não há Justiça, dedicada aos direitos humanos, à democracia e ao Estado de direito, com foco no Médio Oriente e no Norte de África. Desde a sua prisão, Figà-Talamanca permanece auto-suspenso do trabalho.

Inicialmente foi libertado com uma pulseira electrónica, mas a decisão foi anulada e regressou à prisão.

"Queremos afirmar a nossa absoluta certeza da justiça do seu trabalho e do seu não envolvimento em qualquer acto ilícito", disse a sua família numa declaração. "Estamos certos de que até ao final da investigação (...) a posição de Niccolo será esclarecida e que ele será ilibado de qualquer acusação".

Marc Tarabella

O eurodeputado belga socialista foi eleito em 2004, tendo agora sido suspenso do grupo parlamentar, embora não tenha sido detido. A sua casa foi, alegadamente revista pela polícia na presença da Presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.

As autoridades belgas solicitaram o levantamento da sua imunidade parlamentar, que protege os eurodeputados de inquérito e detenção, a menos que sejam apanhados em flagrante delito.

Tarabella tem assento em várias comissões, incluindo a delegação para as relações com a Península Árabe. Em novembro, Tarabella defendeu os direitos laborais do Qatar no contexto do Campeonato Mundial de Futebol da FIFA, utilizando argumentos semelhantes aos que foram expressos por Eva Kaili na mesma sessão plenária.

O seu advogado defendeu a sua inocência e disse que Tarabella não se importa de perder a imunidade para poder defender-se.

Andrea Cozzolino

O eurodeputado italiano  foi eleito em 2019 e pertenceu ao grupo socialista até à sua suspensão em dezembro. Também renunicou à presidência da delegação para as relações com os países do Magrebe.

Francesco Giorgi acusou Cozzolino e Tarabella de aceitarem dinheiro do Qatar e de Marrocos através de Panzeri.

Cozzolino não foi detido nem acusado, mas as autoridades belgas solicitaram o levantamento da sua imunidade. 

Outros alegados intervenientes

Durante as rusgas de dezembro, mais dois homens foram detidos e depois libertados: o pai de Eva Kaili, Alexandros Kailis, que terá sido apanhado com uma mala de dinheiro no hotel Sofitel, em Bruxelas; e Luca Visentini, secretário-geral da Confederação Sindical Internacional, que admitiu aceitar uma doação de 50 mil euros das organizações não-governamentais em causa.

O nome da eurodeputada socialista belga Maria Arena também foi comentado após o escritório da sua assistente ter sido selado pela polícia belga. Arena negou qualquer ligação com o Qatar e criticou a forma como a imprensa a mencionou. Quando se soube que não tinha declarado viagens pagas ao país do Golfo, demitiu-se do cargo de presidente da subcomissão dos direitos humanos do Parlamento.

Abderrahim Atmoun, embaixador de Marrocos na Polónia, tem sido mencionado como parte do grupo constituído por Giorgi, Panzeri e Cozzolino.

Há suspeitas de que membros da agência de informações secretas internacionais de Marrocos, conhecida como DGED, estiveram igualmente envolvidos. O governo de Marrocos negou as alegações, que classificou de "ataques repetidos dos meios de comunicação social" e "assédio legal".