Crianças ucranianas recordam deportação para a Rússia

Veronika viveu num campo de refugiados na Rússia contra sua vontade
Veronika viveu num campo de refugiados na Rússia contra sua vontade Direitos de autor AP Photo
De  Sandor ZsirosIsabel Marques da Silva
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Seis crianças ucranianas que visitaram Haia, capital dos Países Baixos, estão agora a salvo depois de meses de trauma na Rússia, para onde foram levadas à força. Duas delas contaram à euronews as vivências difíceis nesse período.

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O convite para as crianças visitarem Haia veio da Fundação para a Alimentação dos Órfãos e os seus ursos de peluche, símbolo do movimento que luta pelo regresso das crianças raptadas.

O grupo iniciou uma digressão europeia para angariar apoio para a campanha em curso e a euronews entrevistou duas delas.

Veronika, de 14 anos, vivia perto de Kharkiv, de onde fugiu quando a guerra começou. Acabou num campo de refugiados na Rússia sob um programa de integração forçada.

"A partir de setembro, passei a frequentar uma escola russa normal. Porque era ucraniana, as crianças russas diziam que era por minha culpa que os seus pais tinham sido mobilizados e enviados para a guerra. A culpa era toda minha, porque eu era ucraniana. E todos os ucranianos o fizeram e agora têm de sofrer. Também diziam que eu era mais burra por ser ucraniana, porque estava mais atrasada do que eles nos estudos", recordou.

Veronika voltou à Ucrânia passados nove meses e o seu regresso foi extremamente difícil, porque a mãe servia no exército ucraniano. Devido ao stress, a menina desenvolveu uma doença auto-imune.

Antes da guerra eu era uma criança com muitos sonhos. Queria realizar algo na minha vida, sobretudo no desporto. Futebol e boxe. E desde que a guerra começou, desde que regressei de Donetsk, perdi a vontade de fazer alguma coisa. Tento sustentar-me, mas é muito difícil do ponto de vista moral.
Ivan
Jovem ucraniano

Ivan, de 17 anos, vivia num lar de órfãos em Mariupol. Quando fugiu dos bombardeamentos, foi capturado pelas forças russas e transferido para um hospital na região ocupada de Doneck.

"Antes da guerra eu era uma criança com muitos sonhos. Queria realizar algo na minha vida, sobretudo no desporto. Futebol e boxe. E desde que a guerra começou, desde que regressei de Donetsk, perdi a vontade de fazer alguma coisa. Tento sustentar-me, mas é muito difícil do ponto de vista moral", disse o jovem.

"Há sempre uma marca em mim. Uma espécie de cicatriz que tenho e que nunca desaparecerá, que ficará sempre comigo. Foi uma pena ter sido apanhado nisto na minha infância", acrescentou.

Quase 20 mil crianças desaparecidas

Veronika e Ivan estão entre os 386 menores ucranianos que conseguirem regressar ao seu país. O governo de Kiev identificou outras 19.546 crianças ucranianas detidas na Rússia e nos territórios ocupados.

"Não posso dizer muitos pormenores, mas posso dizer que o processo de regresso das crianças ucranianas é muito duro e absolutamente bloqueado pelo lado russo. Por isso, fizemos muito, mas suponho que ainda vamos fazer muito mais", disse Dmytro Lubinets, comissário para os Direitos Humanos no Parlamento ucraniano.

No início deste ano, o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de captura contra o presidente russo Vladimir Putin devido ao rapto e transferência ilegal de crianças ucranianas para a Rússia.

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