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Emmanuel Carrère e o julgamento do terrorismo

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De  Maxime Biosse Duplan
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Emmanuel Carrère e o julgamento do terrorismo
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Emmanuel Carrère, escritor, cineasta e jornalista francês, recebeu o prémio de literatura 2021 da fundação Princesa das Astúrias. Por ocasião da cerimónia, em Oviedo, a Euronews esteve com ele e fez uma entrevista exclusiva. Testemunha do seu tempo, escritor da realidade, Emmanuel Carrère está agora a acompanhar o julgamento dos atentados de 13 de novembro de 2015, em Paris.

Maxime Biosse-Duplan, Euronews: No seu último livro, “Yoga”, fala dos atentados no Charlie Hebdo, que aparecem bruscamente na sua história. Penso que tenha participado, ou pelo menos, seguido, as homenagens a Samuel Paty, o professor assassinado por ter mostrado as caricaturas de Maomé numa aula sobre a liberdade de expressão.

Como é que, na sua opinião, se concilia esta sacrossanta liberdade de expressão com a liberdade religiosa, que é também uma liberdade? Podemos criticar uma religião? Podemos blasfemar sem insultar os outros?

Emmanuel Carrère: Essa é uma grande questão. Sem dúvida que o direito à blasfémia faz parte da nossa tradição republicana e até pré-republicana, já existia em Voltaire, por exemplo. Apesar de tudo, tenho tendência a considerá-lo como algo inalienável. O risco de ofender faz parte.

Se dizemos que é preciso ter uma coisa sem esquecer a outra, apesar de tudo, dou primazia à liberdade de expressão e de pensamento. Pode parecer uma resposta evasiva, mas estou mais desse lado, o da liberdade de expressão, custe o que custar.

O direito à blasfémia faz parte da nossa tradição republicana e até pré-republicana.
Emmanuel Carrère
Escritor

Carrère e o julgamento

Está a acompanhar o julgamento dos atentados de novembro de 2015 para a revista "L'Obs", enquanto cronista. Será esse o tema do seu próprio livro?

Se sim, sabe já qual vai ser o seu ângulo? Seria capaz, como fez em livros anteriores, de misturar a ficção ou a autoficção com esta realidade muito dura que é a dos atentados no Bataclan, que se tornaram uma ferida nacional? Consegue apropriar-se disso?

Não sei se este trabalho vai acabar em livro, mas é muito possível, é algo em que estou a pensar. Não tenho ideia da forma que vai ter, até porque estamos no início, seria prematuro. Quanto a injetar-lhe algo de ficção ou de “docuficção”, não o vou fazer. Na verdade, nunca o fiz. Quando escrevi “O Adversário”, não havia lá uma gota sequer de ficção!

Não sei se este trabalho (sobre o julgamento dos atentados de 13 de novembro) vai acabar em livro, mas é algo em que estou a pensar.
Emmanuel Carrère
Escritor

O que retém deste primeiro mês do processo, qual é a sua impressão geral?

Está a terminar um período muito particular, que é o dos testemunhos dos queixosos, ou seja, dos sobreviventes e dos familiares das vítimas. Tudo isso é de uma intensidade emocional extrema, o que faz com que todos nós, que estamos a seguir o processo, estejamos devastados. Chegamos a casa e temos crises de choro.

É algo terrível, mas vai além disso. Somos também testemunhas de um momento de humanidade excecional e admirável. A partir da próxima semana, ou da seguinte, começam os depoimentos dos arguidos, ou seja, vamos mergulhar numa dimensão completamente diferente.

É um julgamento espantoso, porque temos a impressão de, em nove meses, ver de todos sentidos e de todos os ângulos o que se passou em poucas horas, naquela noite de 13 de novembro. Por isso, é algo extremamente difícil, mas ao mesmo tempo apaixonante.

E que espera deste julgamento, se é que podemos esperar algo de particular?

É engraçado, porque essa é a mesma pergunta que fazem a cada uma das testemunhas das vítimas. No fim do depoimento, perguntam a cada uma o que espera do julgamento e a resposta, que posso fazer minha, é que se faça justiça. Ou seja, que as penas seja proporcionais aos atos. Mesmo se sabemos que as pessoas que estão no banco dos réus não mataram. O que não as exonera, claro, mas aqueles que executaram o crime morreram todos.

A resposta significa também que seja feita justiça segundo as normas do direito. Num processo como este, é um ponto de honra que tudo se passe bem, que os arguidos tenham direito a uma boa defesa. É algo que todos pedem, incluindo os mais martirizados.

Há também a ideia de compreender melhor as coisas que nos podem permitir prevenir novos atentados, mas nisso não acredito muito.

O que muitos dizem, e que eu, pessoalmente, retenho mais, é que deve haver um testemunho coletivo destes acontecimentos. Talvez aí haja alguma deformação profissional.

Deve haver um testemunho coletivo dos atentados de 13 de novembro de 2015.
Emmanuel Carrère
Escritor

É o ponto de vista do escritor...

Sim, mas não é só o meu ponto de vista, é o de muita gente que testemunha, para quem este é um aspeto importante, porque cada um tem a sua própria história e o facto de ouvir as de todos os outros é muito importante e muito precioso. Não é a minha deformação profissional que dá importância a essa decisão.

Última questão: Lao-Tzu disse que o objetivo não é o objetivo, mas sim o caminho. Penso que conhece essa citação…

Conheço e subscrevo inteiramente.

Em que ponto do caminho está?

Todos temos o nosso caminho, às vezes tropeçamos, claudicamos… acontece-nos a todos. O que nos leva ao início desta conversa, o desejo de melhorar, nem que seja um pouco. Melhorar as coisas ao nosso redor. É uma ambição ao mesmo tempo modesta e imensa.

Nome do jornalista • Ricardo Figueira