Presidência dá conta de reunião em "ambiente muito cordial", tendo sido abordados "assuntos de política nacional e internacional". Após longa conversa, Marcelo levou Seguro em visita guiada pelo palácio. Presidente eleito abandonou a Sala das Bicas sem prestar declarações aos jornalistas.
António José Seguro foi mais do que pontual na primeira comparência em Belém como presidente eleito, esta segunda-feira. A reunião com Marcelo Rebelo de Sousa tinha início marcado para as 16:00, e o ex-líder socialista entrou na Sala das Bicas às 15:54.
À espera estava o Presidente cessante, que o recebeu com um sorriso e um cumprimento caloroso, com ambos a dirigirem-se, de seguida, para o gabinete oficial do chefe de Estado.
Passadas três horas e meia, Seguro saiu em silêncio perante a torrente de jornalistas que contavam com umas palavras do ex-líder socialista, acabado de conhecer os cantos da futura morada de trabalho.
Após um encontro que, segundo nota da Presidência, se desenrolou "em ambiente muito cordial" e no qual "foram abordados assuntos de política nacional e internacional", além de "outros assuntos relativos à transição dos mandatos", Marcelo, que já felicitara o sucessor, por telefone, no domingo à noite, conduziu-o numa visita pelo palácio.
Ao longo das próximas semanas, Seguro vai afinar a transição a partir de um gabinete de trabalho no Palácio de Queluz, preparado para este processo desde a primeira volta. Um protocolo que já fora seguido com Marcelo Rebelo de Sousa há, dez anos, aquando da sucessão de Cavaco Silva.
Na primeira ação de passagem de testemunho, o antigo secretário-geral do Partido Socialista (PS) chegou à residência oficial de Belém na viatura pessoal que usou ao longo de toda a campanha, dispensando o motorista e carro do Estado a que já tinha direito como presidente eleito.
A cerimónia de tomada de posse está agendada para 9 de março na Assembleia da República, como estipula a Constituição.
Lei laboral pode ser ponto de fricção
No arranque do primeiro dia como Presidente eleito, António José Seguro esteve em contacto telefónico, a partir da sua casa nas Caldas da Rainha, com os autarcas de vários municípios fustigados pela cadeia de tempestadesque sobressaltam Portugal desde o final de janeiro - foram ouvidos os presidentes das Câmaras de Alcácer do Sal, Montemor-o-Velho, Pombal, Golegã, Leiria e Arruda dos Vinhos, bem como opresidente da Junta de Freguesia de Ereira (Montemor-o-Velho), que continua inacessível por meios terrestres.
As chamadas serviram para Seguro ficar a conhecer, em maior detalhe, o andamento do processo de reparação dos danos causados pelo temporal a famílias e empresas.
A resposta do Estado à catástrofe natural deverá marcar os primeiros tempos do mandato do socialista, a par de outras matérias como a saúde, para a qual já anunciou um pacto, a justiça e também o pacote laboral promovido pelo governo da Aliança Democrática (AD).
No decurso da campanha eleitoral, num encontro com empreendedores, empresários e jovens estudantes na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, Seguro fez questão de dizer que jamais promulgaria as alterações à legislação do trabalho tal como estão apresentadas atualmente, invocando para tal uma dupla razão: desde logo, não constaram do programa eleitoral dos partidos hoje no executivo, e, além disso, não foi alcançado um acordo em sede de concertação social.
Esta segunda-feira foi feita mais pressão sobre o presidente eleito nesta frente, a começar pelo coordenador nacional do Bloco de Esquerda. José Manuel Pureza afirmou que vencer a "extrema-direita" não é suficiente, enfatizando que a revisão laboral será uma questão definidora do mandato de Seguro.
Além disso, a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) emitiu uma nota em que lembra continuar a exigir a retirada do anteprojeto do governo para a mudança do Código do Trabalho, tendo agendado, depois da greve geral de dezembro, uma manifestação nacional em Lisboa e no Porto, no dia 28 de fevereiro, precisamente contra a proposta da ministra Maria do Rosário Palma Ramalho.