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Sob brasas: Portugal obrigado a vencer Uzbequistão disciplinado e pronto a surpreender

Cristiano Ronaldo abandona relvado após empate de Portugal frente à RD Congo no jogo de estreia no Mundial 2026, Houston, 17 junho 2026
Cristiano Ronaldo abandona relvado após empate de Portugal frente à RD Congo no jogo de estreia no Mundial 2026, Houston, 17 junho 2026 Direitos de autor  AP Photo
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De João Azevedo
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Após o empate na estreia, a seleção tem pressão máxima para o duelo com a equipa de Cannavaro, que promete rigor defensivo sem deixar de atacar. Onze inicial volta a ter Rúben Dias, já recuperado, e deve também contar com Ronaldo, apesar da exibição desinspirada do capitão no jogo inaugural.

À partida para o Mundial 2026, as expectativas sobre Portugal eram as mais altas de sempre, dado o vasto leque de opções de elite no elenco atual, mas o empate na estreia diante da República Democrática do Congo (RDC) refreou os ânimos, dando origem a um clima de instabilidade que já obrigou a fazer gestão de crise.

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"Sempre Unidos!", escreveu Cristiano Ronaldo há dois dias numa publicação no Instagram, ilustrada por uma fotografia em que está acompanhado de vários colegas de equipa, procurando provar que, na caravela portuguesa, todos remam para o mesmo lado.

Na imagem, aparece João Neves, bicampeão europeu pelo Paris Saint-Germain e um dos indiscutíveis do meio-campo luso. Talvez não por acaso. No final da partida em Houston, na quarta-feira, o centro-campista recusou que CR7 goze de qualquer papel especial no grupo.

"É mais um para ajudar, não é diferente dos outros", vincou, em declarações aos jornalistas. Esta frase fez com que fãs de Ronaldo inundassem as redes sociais de João Neves e de outros jogadores, como Bruno Fernandes e Vitinha, acusando-os, em comentários escritos em inglês e árabe, de não passarem a bola ao capitão e pedindo "respeito" por ele.

Frente à RDC, Portugal terminou com uma percentagem de posse de bola próxima dos 80%. No entanto, atirou menos à baliza do que o adversário, sendo que, ao longo de todo o jogo, fez apenas um remate enquadrado - precisamente o golo de João Neves.

Nos últimos dias, os jogadores chamados às conferências de imprensa desdramatizaram os sinais dados no arranque e sublinharam a vontade de usar as dificuldades sentidas para mostrar a fibra do atual detentor da Liga das Nações.

Mudanças no onze

Quando entrar em campo, na terça-feira, para medir forças com o Uzbequistão, na segunda jornada do grupo K, o onze de Portugal deverá apresentar algumas alterações, desde logo na retaguarda.

Tomás Araújo, titular no embate contra a RDC e que tem feito treino condicionado, fica de fora por limitações físicas. De regresso está Rúben Dias, já recuperado da lesão na coxa que o impossibilitou de atuar no desafio inaugural.

Rúben Dias (esquerda) e Cristiano Ronaldo (direita) em sessão de treino em Palm Beach na véspera do jogo contra o Uzbequistão, 22 junho de 2026
Rúben Dias (esquerda) e Cristiano Ronaldo (direita) em sessão de treino em Palm Beach na véspera do jogo contra o Uzbequistão, 22 junho de 2026 AP Photo/Marta Lavandier

Não há certezas sobre quem fará parceria com o defesa-central do Manchester City. Durante a fase de qualificação e nos últimos dois encontros de preparação, Roberto Martínez alternou entre Gonçalo Inácio e Renato Veiga. O central do Villarreal mereceu a confiança do selecionador para o primeiro compromisso no torneio, mas a tentativa de dar novo ímpeto à equipa pode agora levar a uma renovação do eixo defensivo, com o defensor do Sporting, nesse quadro, como opção preferencial.

Se no meio-campo, visto por vários analistas como o melhor do mundo, se mantêm João Neves, Vitinha e Bruno Fernandes, o setor adiantado será, ao que tudo indica, reformulado. Segundo a imprensa portuguesa que segue o dia a dia da seleção em solo norte-americano, João Félix será uma das novidades.

O extremo do Al Nassr, até por ter entrosamento com Ronaldo no clube saudita, estará bem posicionado para render Pedro Neto, embora o campeão do mundo pelo Chelsea tenha deixado marca no jogo anterior, ao fazer a assistência para o cabeceamento certeiro de João Neves.

Francisco Conceição tem dado boas indicações recentemente e poderá ser aposta no lugar de Bernardo Silva. Nos dois amigáveis antes da partida para os Estados Unidos, o ala da Juventus contribuiu com um golo e uma assistência, além de se ter revelado um dos jogadores mais desequilibradores depois de ter sido lançado ao intervalo frente à RDC, justamente por troca com Bernardo.

Desde a última quarta-feira, intensificou-se o debate sobre se Cristiano Ronaldo deve manter a titularidade. O capitão do conjunto das quinas não marca há dez jogos consecutivos em grandes competições internacionais, entre Mundiais e Europeus. Em Houston, Ronaldo deu apenas 25 toques na bola, o segundo menor número da sua carreira numa partida em que foi titular num Campeonato do Mundo.

Cristiano Ronaldo em sessão de treino com a seleção portuguesa na véspera do duelo com o Uzbequistão, Palm Beach, 22 junho de 2026
Cristiano Ronaldo em sessão de treino com a seleção portuguesa na véspera do duelo com o Uzbequistão, Palm Beach, 22 junho de 2026 AP Photo/Marta Lavandier

À comunicação social, porém, Roberto Martínez afirmou que um dos problemas foi CR7 não ter sido servido no último terço, sugerindo que o madeirense é peça incontornável da equipa inicial. Ainda que o técnico tenha afastado onzes pré-definidos, deixou claro que, quando é preciso marcar, não faz sentido substituir Cristiano Ronaldo, o maior artilheiro da história do futebol em jogos oficiais (973 golos).

Pressão em duelo inédito

Pela quarta vez nos últimos cinco Mundiais, Portugal falhou uma entrada triunfante e agora não pode equacionar outro resultado senão a vitória, de modo a não comprometer o apuramento para a fase a eliminar.

Mesmo passando os oito melhores terceiros (oito em 12), um deslize esta terça-feira — empate ou derrota — complicaria seriamente as contas. Tanto mais que a seleção enfrenta, na terceira e derradeira jornada, a Colômbia, o adversário mais cotado do grupo e que já amealhou três pontos perante o Uzbequistão.

Não há, por isso, qualquer espaço para erros. Aos comandados de Martínez, exige-se um triunfo, idealmente com uma exibição convincente, que restitua a confiança e acalme a maré de críticas.

Em seis confrontos em Mundiais com seleções asiáticas, Portugal apresenta um saldo positivo, com três vitórias, um empate e duas derrotas, mas não foi capaz de levar a melhor sobre os últimos dois oponentes desse continente — empatou com o Irão de Carlos Queiroz na Rússia em 2018 e perdeu com a Coreia do Sul de Paulo Bento há quatro anos no Qatar.

Independentemente do desfecho do embate de hoje, será feita história, já que nunca antes Portugal e Uzbequistão se defrontaram.

O que vale o Uzbequistão?

O Uzbequistão, 54.º do ranking FIFA, vive o seu melhor período no que respeita ao futebol, com a primeira participação de sempre num Campeonato do Mundo.

O desporto-rei desperta cada vez mais entusiasmo neste país, o primeiro da Ásia Central a qualificar-se para um Mundial. O encontro contra a Colômbia, na última quinta-feira, tinha início às 7:00 em Tashkent e as autoridades uzbeques adiaram o começo da jornada laboral nas instituições estatais para as 10:00, de forma a que os trabalhadores pudessem assistir à aguardada estreia.

Apurada em duas rondas asiáticas, nas quais perdeu somente um jogo em 16 e impôs quatro empates ao Irão, potência tradicional desta confederação, a seleção uzbeque deixou uma boa imagem frente à Colômbia.

Se é verdade que não registou um único toque na bola na área adversária durante a primeira parte, não é menos certo que, ao longo da etapa complementar, já mais solta, chegou ao empate e criou incerteza sobre o resultado final.

Acabaria por voltar a sofrer pouco tempo depois, fruto da inexperiência ao mais alto nível. O terceiro golo só foi encaixado nos descontos, quando exercia pressão sobre os cafeteros na tentativa de resgatar um ponto.

Ao leme da equipa está Fabio Cannavaro, campeão do mundo por Itália em 2006, Bola de Ouro nesse ano e que, curiosamente, ganhou os três encontros que disputou contra Portugal enquanto jogador. O italiano foi contratado em outubro de 2025, altura em que já estava selado o apuramento para o certame nos Estados Unidos, México e Canadá.

Uma das principais estrelas dos Lobos Brancos está no setor defensivo. Khusanov, de 22 anos, foi titular na maior parte dos 37 jogos realizados ao serviço do Manchester City esta época, sendo a sua valia do conhecimento dos portugueses Rúben Dias, Bernardo Silva e Matheus Nunes, que com ele partilharam o balneário.

É o primeiro jogador do Uzbequistão a competir na Premier League e o futebolista mais caro de sempre do país - o City contratou-o ao Lens, de França, por 40 milhões de euros.

Shukurov, que já atuou na principal liga da Turquia, é o patrão do meio-campo, alimentando uma frente ofensiva em que um dos destaques é o extremo do Başakşehir, Fayzullaev, autor do primeiro golo do Uzbequistão em Mundiais e que, de acordo com o jornal uzbeque Zamín, está a ser observado pelo Liverpool.

Abbosbek Fayzullaev em ação no jogo do Uzbequistão frente à Colômbia na Cidade do México, 17 junho de 2026
Abbosbek Fayzullaev em ação no jogo do Uzbequistão frente à Colômbia na Cidade do México, 17 junho de 2026 AP Photo/Natacha Pisarenko

Portugal terá também de estar atento ao capitão e ídolo nacional Shomurodov, experiente ponta de lança, de 30 anos, ex-Roma, maior goleador de sempre desta nação asiática. Acabou a temporada no topo da tabela de marcadores do campeonato turco (22 golos), pelo Başakşehir.

"Portugal é perigoso em todas as situações. Por isso, temos de ser muito disciplinados na defesa. Quando tivermos a bola, temos de tentar criar-lhes dificuldades", afirmou Cannavaro, citado pelo Zamín, na antevisão ao jogo com Portugal.

O técnico italiano, que usa uma linha defensiva com cinco elementos, não esconde que planeia estacionar o autocarro. O Uzbequistão, contudo, não vai deixar de fazer umas viagens à área portuguesa quando houver caminho livre.

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