Após o forte El Niño de 1998, sobreviveram apenas 400 dos 1 300 pinguins-das-Galápagos existentes.
Prevê-se que o fenómeno El Niño desta estação seja mais intenso do que o habitual, o que está a alarmar a comunidade científica equatoriana, que alerta para o seu impacto na flora e na fauna das ilhas Galápagos.
O arquipélago, que alberga a maior concentração de espécies que não existem em mais nenhum lugar da Terra, é composto por mais de 230 ilhas, das quais apenas quatro são habitadas. Situa-se em pleno oceano Pacífico, a 1.000 quilómetros da costa do Equador.
O fenómeno climático ocorre de forma periódica e, no Pacífico equatorial, caracteriza-se por um aumento da temperatura do mar e por chuvas intensas. A sua força é determinada medindo a temperatura da água nessa zona e comparando-a com a média normal. Se estiver 2 graus Celsius acima do normal, é considerado “muito forte”.
De acordo com a mais recente projeção da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), a temperatura do mar deverá ficar cerca de 2,2 °C acima do normal, o que significa que “o impacto será significativo”, afirma Franklin Ormaza, professor e investigador na Faculdade de Engenharia Marítima e Ciências do Mar da Escola Superior Politécnica do Litoral (ESPOL).
El Niño coloca em risco a vida selvagem das Galápagos?
Animais e peixes ficam em risco porque, à medida que a temperatura da água sobe, “o plâncton, as algas e as espécies de peixes mais pequenas, que servem de alimento aos grandes animais marinhos, praticamente desaparecem”, explica Washington Tapia, diretor da Biodiversa Equador, uma organização de conservação no arquipélago.
Precisando que as espécies mais ameaçadas são os icónicos pinguins-das-Galápagos, atobás-de-pés-azuis, petrels, corvos-marinhos não voadores, albatrozes e até leões-marinhos. As colónias de coral também poderão ser seriamente afetadas, tal como a pesca do atum.
Na falta de alimento, “as colónias de animais deixam de se reproduzir”, dispersam-se em busca de comida e acabam por morrer de fome, explica o cientista Gustavo Jiménez, da Fundação Charles Darwin.
Se o fenómeno se manifestar com a magnitude prevista, a população de vertebrados do arquipélago poderá diminuir em pelo menos 20 por cento este ano, acrescenta Jiménez.
Uma das espécies mais monitorizadas nas ilhas, os pinguins-das-Galápagos, funciona como indicador do impacto deste fenómeno climático na fauna do arquipélago.
Segundo dados da Fundação Charles Darwin, após o El Niño de 1998 – um dos ciclos mais fortes e destrutivos – restaram apenas 400 dos 1 300 pinguins-das-Galápagos existentes.
El Niño afeta flora das Galápagos
Se o El Niño atingir a força prevista, os três últimos bosques de Scalesia – dominados por árvores de margaridas gigantes com 20 metros de altura – poderão correr o risco de desaparecer, afirma a cientista Heinke Jager, da Fundação Charles Darwin.
Os cactos Opuntia, que crescem ao longo da linha de costa, também ficariam ameaçados.
Estas plantas, presentes apenas nas ilhas Galápagos, sustentam vários ecossistemas de insetos, aves e outras plantas mais pequenas que integram a biodiversidade única do arquipélago.
Jager explica que “estas espécies precisam de apoio humano”, porque as chuvas fortes trazidas pelo El Niño vão levar a que o território que ocupam seja tomado por plantas invasoras, como as silvas, que têm ciclos reprodutivos mais curtos.
Por isso, foi elaborado um plano que inclui a erradicação de plantas invasoras, a recolha de sementes e a criação de viveiros para conservar as espécies ameaçadas. No programa participam o governo equatoriano, fundações e organizações não-governamentais que trabalham no arquipélago.
As ilhas Galápagos foram declaradas Património Mundial Natural em 1978, pelas suas espécies animais e vegetais únicas, que serviram de base ao cientista inglês Charles Darwin para desenvolver a sua teoria da evolução.