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Europa pode descarbonizar sem travar o crescimento económico: novo estudo traça roteiro

Nuno Antunes / Unsplash
Nuno Antunes / Unsplash Direitos de autor  Researchers say Europe could decarbonise without sacrificing economic gains
Direitos de autor Researchers say Europe could decarbonise without sacrificing economic gains
De Craig Saueurs
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Um novo estudo indica que a importação de alguns materiais usados na produção de aço, fertilizantes e químicos pode ajudar a Europa a manter mais indústria no continente.

Europa quer descarbonizar as indústrias pesadas sem sacrificar o emprego nem o crescimento económico. Um novo estudo sugere que isso pode ser possível, mas implicará compromissos.

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Investigadores do Euro-Mediterranean Center on Climate Change (fonte em inglês) (Fundação CMCC), do Politecnico di Milano e da Technische Universität Berlin afirmam que a Europa poderia reduzir de forma brusca as emissões industriais sem esvaziar a sua base manufatureira.

A via mais barata para o conseguir, porém, pode passar por importar alguns dos materiais cuja produção consome mais energia e utilizá-los depois para fabricar bens de maior valor acrescentado nas fábricas europeias.

Europa: como reduzir as emissões industriais?

Para perceber como isso seria possível, os investigadores simularam a produção de aço, cimento e produtos químicos até 2050.

Segundo o estudo, a produção de aço e químicos poderia recorrer a muito menos combustíveis fósseis.

Nos cenários com metas de emissões mais exigentes, que implicam uma redução de 90 % dos gases com efeito de estufa até 2040, a maior parte do aço, da amónia e do metanol seria produzida com hidrogénio verde – hidrogénio gerado a partir de eletricidade renovável em vez de combustíveis fósseis.

Paralelamente, os produtores de aço passariam a utilizar mais sucata reciclada e a eletrificar uma maior parte dos processos, substituindo o carvão e o gás.

Já o cimento é mais complexo. O próprio processo de fabrico liberta dióxido de carbono, mesmo que a energia utilizada seja proveniente de fontes ambientalmente sustentáveis. O estudo conclui que capturar as emissões nas cimenteiras poderia reduzir a quantidade libertada para a atmosfera, embora os críticos alertem que esta tecnologia continua sem provas à escala industrial.

Mas a produção verde tem custos.

A transição seria mais cara por volta de 2040, quando a indústria europeia teria de investir fortemente em infraestruturas e equipamento. Os custos baixariam até 2050, mas a Europa continuaria em desvantagem face a regiões com energia renovável mais barata.

Europa: pode deslocar fábricas para zonas com renováveis mais baratas para reduzir custos?

Uma solução passa por instalar fábricas em locais onde a eletricidade renovável é mais barata.

No modelo, quando as empresas podiam relocalizar-se, transferiam a produção para Espanha, os países nórdicos e o Reino Unido, onde a abundância de energia renovável barata reduzia o custo da eletricidade.

Mas estas poupanças têm um senão: os cálculos não incluem os custos de mudar fábricas de sítio, construir novas infraestruturas, contratar trabalhadores e reorganizar cadeias de abastecimento existentes.

Os autores sublinham que se trata de um exercício de referência para estimar poupanças potenciais e não de uma previsão do mapa industrial futuro da Europa.

Europa: importações verdes podem manter a produção industrial

Os investigadores identificaram uma alternativa mais barata.

Importar alguns dos materiais mais intensivos em energia – como amónia, metanol e ferro briquetado a quente (HBI) – gerava maiores poupanças do que deslocar a produção dentro da Europa. Esta opção permitiria ainda manter nas atuais fábricas europeias as fases mais avançadas do processo industrial.

O HBI é uma forma de ferro utilizada na produção de aço. Segundo os investigadores, poderia ser fabricado em países com eletricidade renovável mais barata e enviado para a Europa para as etapas finais da produção.

Até 2050, quase toda a amónia e o metanol poderiam também ser importados neste cenário. A Europa teria assim de produzir cerca de 25 % menos hidrogénio verde.

Importar materiais verdes cria apenas uma nova dependência?

Contudo, depender das importações acarreta riscos próprios. O estudo não considera guerras, pandemias ou outros acontecimentos sísmicos que possam perturbar as cadeias de abastecimento internacionais.

A Europa já percebeu como algumas dessas cadeias podem ser vulneráveis.

Este ano, o conflito no Médio Oriente interrompeu envios de petróleo, gás e fertilizantes através do estreito de Ormuz. Em paralelo, os cortes de fornecimento de gás por parte da Rússia, após a invasão da Ucrânia, fizeram disparar os preços da energia e levaram algumas fábricas europeias a reduzir a produção.

Os investigadores defendem que os combustíveis fósseis chegam de um número limitado de fornecedores, através de infraestruturas fixas como gasodutos, enquanto ferro verde, amónia e metanol “podem ser expedidos a partir de qualquer região com renováveis baratas”.

Há também diferenças na forma como estas cadeias podem evoluir, acrescentam. Uma cadeia de abastecimento de combustíveis fósseis “é emissora por definição”, ao passo que uma cadeia de ferro ou amónia “pode ser progressivamente descarbonizada” – objetivo que o Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço (CBAM) da UE procura incentivar.

E a alternativa também não é verdadeira independência, sublinham. Produzir tudo internamente é o que faz subir os custos das subvenções para mais de 200 mil milhões de euros por ano. Uma dependência “evitada apenas através de ajudas estatais permanentes não é necessariamente mais segura”.

Europa: quanto custaria manter mais produção no continente?

Ainda assim, tentar fazer crescer a indústria europeia sem recurso às importações pode sair caro.

No cenário mais dispendioso modelado, a Europa aumentaria a produção industrial e continuaria a fabricar internamente os materiais mais intensivos em energia de que necessita. Os governos teriam de gastar cerca de 235 mil milhões de euros por ano para cobrir a diferença entre os custos de produção europeus e os preços de importação.

“A Europa deve ser realista quanto à sua capacidade de expandir a indústria pesada”, afirma Massimo Tavoni, coautor do estudo e diretor do instituto na CMCC Foundation.

“Deve dar prioridade à descarbonização e à preservação da capacidade industrial existente, apoiadas por apoio público direcionado e temporário e por uma utilização inteligente de importações verdes.”

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