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Armas de guerra abandonadas são "bomba-relógio" no mar Báltico

Um mergulhador aproxima-se de uma munição por explodir no Báltico
Um mergulhador aproxima-se de uma munição por explodir no Báltico Direitos de autor Jana Ulrich/dpa
Direitos de autor Jana Ulrich/dpa
De  Mared Gwyn JonesIsabel Marques da Silva (Trad.)
Publicado a Últimas notícias
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Artigo publicado originalmente em inglês

Um número impressionante de 300 mil toneladas de armas muito perigosas estão espalhadas no fundo do mar Báltico. Esta via navegável estratégica, que liga as principais nações europeias, é atualmente uma das massas de água mais poluídas do planeta.

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Granadas, bombas, mísseis e agentes químicos não deflagrados foram abandonados à pressa no oceano após as duas guerras mundiais. O despejo no mar Báltico foi, então, considerado uma solução rápida, segura e barata para esconder munições indesejadas, tendo muitas delas sido despejadas pelas forças aliadas em 1945, por recearem uma revolta de guerrilha na Alemanha pós-nazi.

Estas armas têm estado a apodrecer no fundo do mar Báltico, derramando lentamente produtos químicos tóxicos, incluindo TNT, gás mostarda, fosgénio e arsénico.

O comissário europeu para o Ambiente, Virginijus Sinkevičius, reúne-se com os ministros dos Estados Bálticos (Lituânia, Letónia e Estónia), na sexta-feira, na Lituânia, para discutir soluções, e a Euronews falou com especialistas que dizem que o problema tem sido ignorado há demasiado tempo.

Um desastre ecológico

Os produtos químicos libertados pelas munições submarinas alteram a acidez e a temperatura da água do mar, desestabilizando os ecossistemas. Além disso, causam cancro em muitas espécies e foram encontrados restos de munições em tecidos de peixes.

O TNT presente nas munições pode queimar e branquear os corais e criar um influxo de nutrientes que provoca a proliferação de algas nocivas. O gás mostarda decompõe-se em arsénio inorgânico que se espalha pelo fundo do mar, matando tudo o que encontra pela frente. Os produtos químicos afetam, igualmente, a fotossíntese do plâncton e a taxa de eclosão dos ovos dos crustáceos.
Terrance Long
Fundador dos Diálogos Internacionais sobre Munições Submarinas

Os especialistas temem que o consumo de peixe apanhado perto de locais de descarga possa levar a uma acumulação de carcinogéneos nos seres humanos.

Terrance Long, fundador dos Diálogos Internacionais sobre Munições Submarinas, disse à Euronews que é necessária uma maior consciencialização do público para pressionar os governos a agir.

"As munições submarinas estão a libertar toxinas que prejudicam os ecossistemas marinhos e põem em perigo a vida marinha. Quer se seja um defensor acérrimo das alterações climáticas ou não, esta questão afeta-nos a todos", explicou.

"O TNT presente nas munições pode queimar e branquear os corais e criar um influxo de nutrientes que provoca a proliferação de algas nocivas. O gás mostarda decompõe-se em arsénio inorgânico que se espalha pelo fundo do mar, matando tudo o que encontra pela frente. Os produtos químicos afetam, igualmente, a fotossíntese do plâncton e a taxa de eclosão dos ovos dos crustáceos", disse, ainda.

"É esta a situação atual do Báltico. Não podemos salvar os mares se não aceitarmos a realidade do que se passa na água", acrescentou.

IMUD
A sonar camera shows the chemicals ingested by planktonsIMUD

Apesar de os cientistas terem, desde há décadas, fornecido provas que sustentam estas preocupações, os políticos têm vindo a arrastar os pés, dada a dificuldade em definir responsabilidades legais para as armas esquecidas.

Embora o público esteja bem ciente dos perigos da poluição por plásticos e microplásticos nos nossos oceanos, pouco se sabe sobre os perigos que as munições despejadas representam para a segurança animal e humana.

Os políticos "precisam de dar prioridade"

As atividades industriais que correm o risco de interferir com as munições, como as dragagens, os parques eólicos offshore (para obter energia) e a pesca de arrasto (pelo fundo do mar), bem como o receio de que as armas possam ser recuperadas por criminosos, chamaram a atenção dos políticos para o problema.

No início deste ano, a Alemanha anunciou um programa de 100 milhões de euros para testar a recuperação e destruição de munições.

O colapso das unidades populacionais de peixes no Báltico - provocado por um cocktail tóxico de produtos químicos de munições, fertilizantes, resíduos industriais e esgotos - também afetou gravemente a indústria da pesca e pressionou os governos a agir. 

Em agosto, a Comissão Europeia impôs novos limites de captura para duas espécies de peixes no Báltico.

Frederic Sierakowski/Frederic Sierakowski
EU environment commissioner Virginijus Sinkevičius will meet EU ministers in Palanga, Lithuania on Friday to discuss the state of the BalticFrederic Sierakowski/Frederic Sierakowski

"Se compararmos os comportamentos e as declarações dos governos, há uma diferença notável. Mas, acima de tudo, há um baixo nível de ação", disse Claus Böttcher, consultor independente da JPI Oceans, à Euronews.

Terrance Long também considera que o facto de os Estados não incluírem qualquer referência às munições submarinas na Convenção sobre Armas Químicas mostra que os governos estão a tentar fugir às suas responsabilidades.

"Os tratados exigem muitas vezes compromissos que podem diluir a eficácia do tratado, particularmente quando se trata de salvaguardar o ambiente", explicou. "Os governos podem estar protegidos por tratados, mas isso não os absolve das consequências das suas ações", disse Long.

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Existem soluções tecnológicas

Mas Böttcher acredita que houve um impulso positivo na última década para alcançar a mudança de paradigma necessária.

Engenheiros, cientistas, responsáveis políticos e financeiros estão a unir-se para identificar as melhores formas de destruir as armas em segurança.

Os avanços na tecnologia marinha, incluindo a utilização de inteligência artificial, estão a facilitar a deteção e o mapeamento de munições submarinas. Algumas munições são desarmadas com jatos de água antes de serem retiradas do fundo do mar, enquanto outras são recuperadas para serem detonadas ou incineradas em terra.

"Desenvolvemos tecnologia que prova que a limpeza do fundo do mar é possível. As munições são visíveis e tangíveis e podem ser removidas", disse Böttcher.

O Mar Báltico faz parte daquilo a que chamo o coração e os pulmões do planeta. Como a Terra é um só corpo, se o nosso coração e os nossos pulmões estiverem doentes, isso afeta-nos a todos.
Terrance Long
Fundador dos Diálogos Internacionais sobre Munições Submarinas

Ambos os peritos afirmam que as armas convencionais e químicas devem ser tratadas com o mesmo nível de prioridade. As armas também precisam de ser mais monitorizadas, uma vez que algumas apresentam um risco explosivo mínimo devido ao estado instável dos produtos químicos que contêm.

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Estas soluções tecnológicas podem também ser vitais para a limpeza do Mar Negro, quando a guerra na Ucrânia chegar ao fim. Embora pouco se saiba sobre o despejo de munições na região, os especialistas dizem que os governos devem aprender com os erros do passado para evitar uma repetição desastrosa.

Os especialistas congratulam-se com a potencial ação da UE, mas apelam a uma resposta global coordenada a um problema que afeta tantas partes do planeta.

"Os ministros do Mar Báltico deveriam considerar seriamente a possibilidade de convocar as Nações Unidas para uma Conferência Internacional sobre Munições Submarinas", afirmou Long.

"O Mar Báltico faz parte daquilo a que chamo o coração e os pulmões do planeta. Como a Terra é um só corpo, se o nosso coração e os nossos pulmões estiverem doentes, isso afeta-nos a todos", concluiu.

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