Disse o diretor da Agência Internacional de Energia (AIE) à Euronews que garantir a segurança energética europeia e cumprir metas climáticas depende de eletrificar "tudo", das infraestruturas aos transportes e edifícios.
A Europa tem de eletrificar "tudo" nos próximos anos, disse Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional da Energia (AIE), num painel da Euronews no Fórum Económico Mundial, em Davos, traçando a visão de um continente assente em energia limpa e não em combustíveis fósseis.
"Quando olhamos para a segurança energética na Europa e para os objetivos europeus, como cumprir as metas climáticas, mas ao mesmo tempo ser acessível, vejo um futuro para a Europa", disse Birol. "Eletrificar tudo, tanto quanto possível, eletrificar tudo. Transportes, indústria, entre outros."
O chefe da AIE sugeriu uma estratégia assente em dois eixos. O primeiro é investir massivamente em infraestruturas de rede e o segundo é baixar os preços da energia.
"Uma é redes, redes, redes", disse Birol, sublinhando a importância de renovar as redes elétricas na Europa.
Assinalou a existência de importantes estrangulamentos, já que as licenças continuam difíceis de obter, o que compromete o desenvolvimento das vastas redes interligadas que levam eletricidade a casas, empresas e fábricas. Birol chamou a isto "o principal obstáculo à eletrificação da economia europeia".
"Dou um número chocante. No ano passado, na Europa, instalámos um recorde de 80 gigawatts de capacidade renovável. Mais de 400 gigawatts de capacidade renovável estavam prontos. Mas não os conseguimos ligar à rede. E não chegaram às famílias nem às fábricas. Isto é completamente absurdo. Do ponto de vista económico, não faz qualquer sentido."
Birol comparou este impulso para a energia verde a desenvolver a infraestrutura necessária para construir um carro sofisticado e eficiente, esquecendo-se de construir as estradas.
Falhas na rede estiveram também na origem do apagão na Península Ibérica que deixou 60 milhões de pessoas sem eletricidade em abril de 2025.
UE "Pacote das Redes"
A envelhecida rede europeia foi destacada num estudo do think tank de energia Ember, publicado esta semana, que concluiu que a UE não tem dificuldade em gerar energia limpa. Pela primeira vez, em 2025, o vento e o solar produziram mais eletricidade na UE do que os combustíveis fósseis, mas a sua rede "desatualizada" dificulta o escoamento dessa energia.
Perante estes problemas, a Comissão Europeia apresentou no final do ano passado um "Pacote das Redes" para renovar a rede elétrica obsoleta do bloco e aumentar a transmissão de eletricidade em toda a UE27.
Medida aplaudida por Birol, que disse esperar que o pacote avance, por poder "desbloquear muitos dos problemas" com que a Europa se confronta.
Kıvanç Zaimler, CEO da Sabancı Holding, uma das principais holdings de investimento turcas, que integrou o painel, concordou que o investimento nas redes "é indispensável", mas afirmou que tem de ser uma transformação profunda, recorrendo a outra analogia automóvel.
"Temos também de pensar na eficiência através da digitalização. É como gerir o trânsito (rodoviário). Não basta construir mais estradas, é preciso resolver os problemas de tráfego com sistemas de navegação", disse.
Combater os custos elevados da energia
Outro problema central na Europa, disse Birol, é o elevado custo da eletricidade, que representa um grande desafio para a competitividade da indústria europeia.
"Os preços da eletricidade na Europa são muito altos face, não sei, a concorrentes como os Estados Unidos ou a China. Aqui são três a quatro vezes superiores aos desses países", disse à Euronews.
O ministro romeno da Energia, Bogdan Ivan, disse que a solução para os preços elevados passava por duplicar os recursos energéticos na Europa.
"Na Roménia pagamos dos preços de energia mais altos ajustados ao rendimento das pessoas", disse Bogdan.
Defendeu que isso deve fazer-se diversificando as fontes. "Quero usar recursos da UE para financiar a energia nuclear", disse Ivan. "É uma das melhores formas de garantir energia barata e de base." Argumentou que, se a UE apostar em excesso apenas no vento e no solar, "terá certamente um problema".
Os ministros da Energia da UE comprometeram-se a nivelar os preços da energia entre Estados-Membros e a evitar discrepâncias entre países na sua última reunião oficial, em dezembro.
Anna Borg, presidente e CEO da sueca Vattenfall, também presente no painel, concordou que a diversificação é essencial, apontando igualmente a energia nuclear como peça-chave.
"Vamos precisar de todas as tecnologias sem fósseis ao nosso alcance. Mas é importante perceber que a economia europeia só será competitiva, a prazo, se abandonarmos os combustíveis fósseis."
Rever regulamentos
Rever regulamentos é central para enfrentar os desafios que atrasam a soberania energética europeia, concordaram os participantes no painel, sobretudo para baixar preços.
Borg defendeu que é preciso resolver a sobreposição de legislação, que muitas vezes trava o rápido desenvolvimento de projetos-chave.
"Às vezes, quando queremos construir algo, primeiro temos de obter aprovação ao abrigo de um regulamento e depois de outro. Sobrepõem-se a olhar para a mesma coisa, mas podem dar resultados diferentes", disse, apelando a uma abordagem mais holística.
A representante da Vattenfall afirmou que o que é realmente necessário são "quadros regulatórios e políticos estáveis" e de longo prazo: "Os investimentos (em energia) são feitos para durar muitas décadas. E o melhor que podemos fazer, do ponto de vista europeu, é manter o alinhamento entre países, para que as políticas não difiram demasiado dentro da UE."
Defendeu que a falta desses quadros e o vai e vem regulatório criam incerteza e colocam em risco os investimentos no mercado.
Zaimler concordou que as empresas consideram morosos os processos regulatórios na Europa. "A Europa tem o período de licenciamento mais longo, do zero até à construção de uma nova central renovável."
Comparou o processo com o dos Estados Unidos, que, afirmou, estão mais focados na atribuição de licenças. "Vejo mais motivação nos Estados Unidos para acelerar estes processos do que na Europa." Este tema deverá também ser abordado no Pacote das Redes da UE apresentado em dezembro.