O território português só ficaria dentro do raio de alcance destes mísseis se, a título de exemplo, o Irão os deslocalizasse “para o Iraque” e, a partir daí, iniciasse uma eventual investida contra Lisboa, explicou à Euronews o coronel Mendes Dias.
A alegada tentativa iraniana de ataque à base anglo-americana de Diego Garcia, no oceano Índico, fez soar os alarmes a nível internacional. Em causa uma infraestrutura que se localiza a cerca de 4.000 quilómetros da costa do Irão e que estaria, portanto, bem além daquilo que seria a capacidade de ataque até agora oficialmente assumida por Teerão. Dos dois projéteis que terão sido lançados, recorde-se, nenhum deles atingiu o alvo.
Na terça-feira, Ismail Bagaei, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, através de uma publicação nas redes sociais, negou a responsabilidade do país pela investida, que foi reportada por fontes oficiais do Reino Unido. Em afirmações citadas pela agência Lusa, assegurou que as alegações se tratavam apenas de um caso de “desinformação” promovido por Israel.
No entanto, em declarações à Euronews, Carlos Mendes Dias, coronel do Exército na reserva, considerou que “embora o Irão negue” a autoria do ataque à base de Diego Garcia, “é muito provável que tenha, de facto, lançado os mísseis” em questão, citando a informação que tem vindo a ser divulgada, também, pelas “fontes norte-americanas”.
“Ao que se sabia, o programa de mísseis iraniano só tinha produzido mísseis com alcance de 2.000 quilómetros, e este já teria 4.000 quilómetros”, sustentou o especialista militar, sobre um projétil que, "ao que tudo indica", seria "da família Khaibar, com dois estágios", listando-se assim entre os mais avançados do país.
Mas, se esta suspeita se confirmar, o que começa a parecer cada vez mais provável, será que Portugal estaria a salvo de uma eventual tentativa de ataque por parte de Teerão?
Portugal de fora do raio de alcance?
Nas redes sociais, as Forças de Defesa de Israel partilharam uma publicação na qual se escrevia que a investida que visou a base de Diego Garcia acabou por revelar “que o regime iraniano tem a intenção de desenvolver mísseis com alcance de 4.000 km”, o que representa “uma ameaça a dezenas de países na Europa, Ásia e África”.
Juntamente com esta descrição, é apresentada uma imagem que mostra que Portugal seria um dos poucos países europeus que não estaria coberto por este tipo de armamento, juntamente com a Irlanda e a Islândia.
Segundo explicou à Euronews o coronel Mendes Dias, “essa imagem é representativa da realidade”, caso Teerão tenha efetivamente em sua posse mísseis de tal capacidade. “Portanto, tudo quanto é Alemanha, França e, pelo menos, metade de Espanha”, poderiam ser visados por Teerão. “Mas nunca atingirá Portugal”. Independentemente do local, dentro do Irão – país de grandes dimensões, com 1,7 milhões de quilómetros quadrados –, a partir do qual o mesmo fosse lançado.
O território português só ficaria dentro do raio de alcance se, a título de exemplo, o Irão deslocalizasse “esses mísseis para o Iraque” e, a partir daí, iniciasse uma eventual investida contra Lisboa.
Já sobre a existência de um perigo real para os diferentes países na Europa, o coronel Mendes Dias esquematizou a questão de forma algo matemática: “a ameaça [sobre um país] é igual a capacidade vezes intenção”. E mesmo confirmando-se o desenvolvimento de um míssil com capacidade de alcance de 4.000 quilómetros, só se Teerão tivesse a intenção verdadeira de o utilizar contra território europeu é que estaríamos perante uma situação de ameaça.
Mas o problema é que “a intenção é difícil de avaliar”, particularmente no caso do Irão. “Relativamente a atores que consideramos incertos, potencialmente hostis às alianças a que pertencemos, às nossas formas de posicionamento político, não sabemos, no futuro, qual a intenção que poderão ter relativamente a nós [europeus] e aos outros.”
“Portugal não está em guerra com o Irão”
Acresce a isto o facto de que “Portugal, tal como muitos países” – como é precisamente o caso dos 27 Estados-membros da União Europeia – “não está em guerra com o Irão”. Pese embora seja de notar que Teerão “também esteja a disparar contra um conjunto de países do Golfo, por outros motivos, que não estão tecnicamente em guerra” com essa nação. Trata-se, recorde-se, de países onde estão localizadas bases norte-americanas.
“Mas, fora isso, não me parece racional atacar Portugal, o Reino Unido, etc. Seria mais racional atacar Portugal se o país tivesse um navio a entrar numa operação qualquer para abrir o Estreito de Ormuz. Isso não vai acontecer, perante aquela que é a lógica portuguesa”, avaliou o especialista contactado pela Euronews.
De facto, Portugal aderiu já a uma coligação de cerca de 30 países que manifestaram disponibilidade para levar a cabo "esforços" no sentido de restituir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irão. Ainda que, tal como anunciado anteriormente pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, o país não considere a possibilidade de enviar meios efetivos para o local.
Perante estes factos, a “possibilidade mais perigosa” que se coloca aos países europeus, e em particular a Portugal, prende-se com a “ação terrorista”, destacou Carlos Mendes Dias, citando as informações que têm vindo a ser veiculadas pelos serviços de Informações e de Segurança Interna destas nações. Isto “para além dos ataques cibernéticos”, salientou.
E Portugal poderia ser visado por iniciativas dessa natureza “tal como todos os outros países” – ainda que, de um “ponto de vista racional” e de “gestão de meios”, outros Estados-membros europeus com maior preponderância a nível internacional possam estar mais sujeitos a essa possibilidade.
“Portugal não tem essa relevância na vida internacional, embora pudéssemos querer ter [...]. Só existe uma pequena relevância, desse ponto de vista, que é o seu posicionamento geográfico, que está traduzido no funcionamento da Base das Lajes”, nos Açores, onde tem existido uma enorme movimentação de meios aéreos norte-americanos desde antes do início deste conflito no Médio Oriente, a 28 de fevereiro.
Produção em larga escala?
No entanto, existe outro ponto que deve ser tido em consideração no que diz respeito à ameaça representada por estes novos projéteis: é que “pelo facto de existir um ou dois mísseis” desta natureza, isso não significa que o mesmo já esteja a ser produzido em larga escala e, portanto, que “o Irão tenha 4.000 desses mísseis”. Segundo lembrou o coronel Mendes Dias, “podem estar apenas a testá-lo”.
Sabe-se, até ao momento, que Teerão teria pelo menos dois exemplares. “Um falhou completamente” o alvo, a base de Diego Garcia, enquanto o outro “foi intercetado” por um contratorpedeiro norte-americano, “um SM-3”.
Mas o facto é que “entre ter um exemplar em fase de desenvolvimento e a produção em escala, entre [o míssil] ser dado como pronto e entrar em produção, vai ainda um longo tempo.” Ou seja, reforçou o especialista militar, este míssil com capacidade de alcance de 4.000 quilómetros pode estar ainda, portanto, “em período experimental”.
“Para haver produção em escala, temos de saber se todos os componentes são iranianos, se há componentes importados, de onde é que vêm as matérias-primas. Há uma série de fases entre o desenvolvimento, o teste desse desenvolvimento e, depois, a produção em escala. Às vezes, isso demora oito ou dez anos.”
Ainda assim, no âmbito daquilo que é a “lógica da violência militar”, era já “previsível” que Teerão “procurasse ir aumentando o seu programa de mísseis, mesmo sabendo que era contrário às sanções [impostas pelos países ocidentais]”. E, também, que procurasse dotar a sua capacidade balística de um “maior alcance”, tal como parece ter feito.